Sarah Azevedo, no Queria viver num quadro de Monet

Não sei se foi o cansaço de recolher pitangas choradas tão meticulosamente ou a percepção de que desde que Ele apareceu não há mais fardo que eu precise carregar. Mas o fato é que diante da farta vida que me cabe toda gratidão parece pouco e toda fuga para qualquer quadro um ato desnecessário.

Lembro que quando eu era criança tinha o hábito de ler poesias sempre que me sentia triste. Quanto mais realistas elas eram, melhor eu me sentia. É que a quebra da ilusão era exatamente o que eu mais necessitava. Falo isso pois por mais que certos quadros pareçam belos, o convite à realidade é algo que deveria ser aceito sem qualquer indagação. Porque ela é o único quadro do qual você pode participar. E cá entre nós, admirar obras alheias às vezes pode ser um tanto entediante.

Talvez tenha sido isso então. Esse acordar. Essa falta de vontade de escrever versos tristes. Ou a compreensão de que os problemas que me cercam só pequenos demais para me pre-ocupar. Há coisas maiores para fazer. Então eu saí do quadro. E vejam só! Aqui fora é bonito também! Sim, certo. Você pode não achar. Mas nesse caso, o que te impede de modificar a sua realidade?

E o que Cora Coralina tem a ver com tudo isso? Sei lá. Só sei que ela nunca teve um grande amor, mas nem por isso deixou de ser feliz.

Comments

comentários

Powered by Facebook Comments