Felipe Castilho, no Facebook

Eu me lembro de ecos.

Trechos de sentenças confidenciadas ao pé do ouvido, sussurradas com delicadeza, com ternura. Não posso me lembrar do conteúdo de tais palavras, uma vez que eu vivia atento ao momento, à proximidade de nossos corpos. Ao ar assobiando em seus dentes a cada sílaba. Ela inteira era uma sinfonia, eloquente, preenchendo cada canto e cada câmara de meu corpo. Minha acústica reverberava o seu riso, assim como a sua vontade.

Eu me lembro de ecos. E para sempre será assim.

Ainda que eu me lembrasse de cada frase entoada por sua boca, não faria sentido. Prefiro apenas recordar os tempos em que esta casa de espetáculos, que se localiza a esquerda de minha caixa torácica, vivia cheia. Repleta de uma única espectadora.

O movimento era muito bom, ainda que exclusivamente dela. A programação também ficava por sua conta. Eu me contentava em saber que, enquanto ela pudesse receber todos os aplausos da plateia composta por ela mesma, tudo estaria bem. Certeza de audiência satisfeita.

Então, um dia resolvi surpreendê-la. Apresentaria uma peça inédita, escrita, dirigida e encenada por mim. E exibida no meu palco, que pela primeira vez contaria com minha presença de corpo e alma. Muitas vezes, o proprietário jamais coloca os pés nos domínios que lhe pertencem. Daquela vez, seria diferente. Eu representaria diante de minha multidão, a mulher que fazia fila e preenchia toda e qualquer sessão de minha casa.

E então, atuei. E não recebi trechos de palavras. Nem reação. Animosidade, emoção, alegria, raiva. Nada. Os assobios dos lábios não viriam, pois eles permaneceriam colados, inseparáveis, mesmo ante minha aproximação.
Assim foi minha última sessão. Uma pessoa se retira, e centenas de lugares são desocupados.

Não tenho planos de voltar a encenar. Na verdade, passada a catarse que tomou conta do triádico papel de ator/produtor/proprietário que por tanto tempo assumi, percebi que meu estabelecimento merecia uma limpeza. E que antigos figurinos e cenários precisavam ser trocados. Faltava ainda perceber que, no final das contas, cada diálogo encenado neste palco havia sido um monólogo.

Não que isto vá calar os ecos largados no ar.

Abro a porta da rua, e recebo a rajada de vento frio. Já do lado de fora, penduro a placa. Mas ao invés de me afastar pela calçada, decido entrar novamente. E continuar por lá. A sinalização que diz FECHADO balança para a rua quando bato a porta do estabelecimento. Chave e proprietário do lado de dentro.

Vazio, sim. Mas não por minha ausência.

Felipe Castilho é autor de Ouro, fogo & megabytes (Ed. Gutenberg)

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