Chega de presentejantarsexo

Clarissa Corrêa, no Vila Mulher

Tenho uma notícia para você: não sou muito chegada no Dia dos Namorados. Quer que eu explique o motivo? Então tá, eu explico com todo o carinho do mundo. O Dia dos Namorados é chato.

Além de ser uma data comercial, todos os restaurantes e motéis ficam lotados. Parece que existe aquela obrigação do presente-jantar-sexo. Em outras palavras: você é obrigada a meter a mão no bolso, enfrentar uma fila se não fez reserva em nenhum lugar e transar. E não tem nada mais chato que transar de barriga cheia, por obrigação, de forma programada. Bom mesmo é quando acontece de forma natural, sem planos, de surpresa.

Antes que você pense que sou uma baranga encalhada e de mal com a vida, deixa eu te contar um segredo: sou muito bem casada há pouco mais de um mês. Sim, isso mesmo. E, olha que legal, casei com o amor da minha vida. Para a minha sorte, ele também pensa como eu. Nós nunca comemoramos o dia 12 de junho em um restaurante. E achamos a maior graça das filas gigantes que se formam em diversos estabelecimentos.

O que fazemos na noite em que todos os casais trocam juras de amor? Uma jantinha em casa, um filminho embaixo do cobertor, coisas assim. A gente demonstra o amor todo dia, com um carinho, um beijo, um abraço, um colo, um cafuné, uma gentileza, um pé enroscado no pé, uma conchinha na calada da noite. Porque o amor tem que ser demonstrado nos 365 dias do ano. O mesmo serve para Dia das Mães, Dia dos Pais, aniversários, Natal. Tem gente que resolve ser solidária somente no Natal. Outros resolvem ser legais com pai e mãe somente naquele segundo domingo do mês de maio ou agosto. Que bobagem.

Gosto mesmo é de presente fora de hora. De uma flor quando menos espero. De um bilhetinho dentro da bolsa. De um restaurante bacana no meio da semana, sem data especial. De um brinde com “champa” em plena segunda-feira. Sem regras, sem obrigações, sem tem-que-ser. O tem-que-ser-tem-que-dar-tem-que-fazer é cansativo e acaba se tornando mecânico.

Essa obrigação de ter que comprar algo só porque todo mundo se dá presente no Dia dos Namorados é muito nada a ver.

É claro que o primeiro Dia dos Namorados é inesquecível, único. Mas depois dele a gente entende que o romantismo importa nos pequenos gestos. E que o amor dura mais que uma noite.

Clarissa Corrêa é balzaquiana, sardenta, escritora e publicitária. Autora dos livros “Um Pouco do Resto”, “O amor é poá” e Para todos os amores errados (Ed. Gutenberg).

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