Pedro Eiras com foto de Clarice Lispector; "Platão me mate, ou Cervantes, Álvaro de Campos ou Clarice", diz

Patrícia Lino/Divulgação

Marcio Aquiles no Folha.com

Reflexo das preocupações humanas primordiais, a morte sempre foi tema constante do universo livresco.

Entrelaçando histórias de escritores e personagens suicidas com questionamentos filosóficos, o escritor português Pedro Eiras, com a crença de que “a literatura mata”, escreveu a obra “Substâncias Perigosas” (abreviação de um título gigantesco).

Misto de ensaio e romance metaliterário, o livro tece, de uma maneira bem-humorada e perspicaz, as considerações do autor sobre a relação –para ele intrínseca– entre literatura e morte.

Como diz Eiras no livro, o poder mortífero das letras é como um veneno ou medicamento, que “só deveriam poder ser comprados com receita médica ou atestado de robustez intelectual”.

“Conforme ia pensando nos autores, nos leitores, ia pensando também que todos os livros matam, que o perigo existe por todo o lado”, afirma o autor à Folha.

Dividida em cem lições, “em que se explica por que meios os livros matam seus leitores” (como diz parte do quilométrico título), a obra foi concebida como um manual, um “folheto de instruções”, escreve o autor.

“Coisa para usar. Um pouco como se o livro estivesse incompleto e abrisse um espaço para o leitor. Gosto desse desafio. Obrigar o leitor a fazer uma parte do trabalho, a pensar com o livro, em vez do livro”, conta Eiras.

O último capítulo, inclusive, leva a experiência ao extremo e convida o leitor a concluir a obra, deixando para tanto até as linhas dispostas.

EXISTÊNCIA TEXTUAL

O autor vai perscrutando ao longo da obra a tese de que o texto possui o leitor, que não teria direito nenhum e cuja única soberania consistiria em obedecer fielmente aos trâmites do texto.

O capítulo 97, intitulado “Última Hipótese”, culmina com a conclusão de que “não sabemos ler a existência senão como texto”.

“O livro não é um espetáculo em frente aos olhos do leitor. É um fogo que engole o leitor. Não existe a vida por um lado e a leitura por outro. Ler pertence à própria vida e transfigura toda a vida.”

Questionado sobre seus próximos projetos literários –caso a literatura não o mate antes–, Pedro Eiras primeiramente diz querer reunir e editar seus textos teatrais em um único volume. E depois completa:

“A literatura vai matar-me mil vezes antes, e estou à espera: que Platão me mate, ou Cervantes, Álvaro de Campos ou Clarice Lispector”, brinca.

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