Mariana Moreira, no O Globo

Armando Freitas Filho conheceu Carlos Drummond de Andrade nos anos 1960, quando começou a trabalhar no Palácio Gustavo Capanema, onde o autor de “José” era funcionário público. Ali nasceu uma grande amizade, que durou até a morte de Drummond, em 1987. Na Flip, Freitas Filho participará da mesa “Drummond — o poeta presente”, com os poetas Carlito Azevedo e Eucanaã Ferraz, mas à distância: ele gravou um depoimento em vídeo sobre o autor que define como “verdadeira esfinge de óculos” no prefácio de “Os sapatos de Orfeu”, biografia de Drummond escrita por José Maria Cançado e reeditada agora pela Globo Livros. Em entrevista ao GLOBO por telefone, Freitas Filho fala sobre sua relação com Drummond e relembra conselhos do poeta.

Vocês se conheceram no Palácio Gustavo Capanema, onde trabalhavam. Como era o Drummond funcionário público e como surgiu a amizade de vocês?

ARMANDO FREITAS FILHO: Ele estava quase se aposentando quando eu entrei para o funcionalismo público, em 1963, e comecei a trabalhar no MEC, no Palácio Gustavo Capanema. Ele era u14m profissional, assim como um poeta, muito metódico, dedicado. Apesar de ele ter se aposentado, ia sempre lá visitar os amigos e eu me tornei um deles, nós sempre nos encontrávamos. Nossa amizade só aumentou com o passar do tempo.

Vocês devem ter vivido muitas situações engraçadas e curiosas juntos.

Sim, sim. Um fato curioso é que ele tinha horror quando o chamavam de mestre ou doutor. Dizia que não era nada disso. Passei um tempo chamando-o por “senhor”, mas começou a soar esquisito conforme nossa amizade, afeto e idade foram mudando. E um dia ele me disse: “Eu sou seu amigo, e amigos não se tratam por senhor”. Mas eu ficava muito sem graça, imagina, chamar o grande poeta por “você”? Resisti muito, mas depois de um tempo me acostumei. Ele era extremamente afetivo. Lembro uma noite de autógrafos, em meados da década de 1970, na livraria José Olympio… Fui com a minha mulher, e ele nos pediu para nos sentarmos ao lado dele para conversar, porque ele já estava cansado daquilo tudo, queria um pouco de paz perto de amigos, e o Rio inteiro tinha ido falar com ele.

Como eram as conversas que você tinha com ele? Você guarda algum conselho de Drummond?

Nós conversávamos sobre coisas comuns, do cotidiano. Não falávamos tanto sobre poesia, mas ele me deu um conselho muito precioso sobre o fazer poético, e eu nunca esqueci. Ele dizia assim: “Você, para pensar e fazer um livro de poesia, precisa saber os poemas que abrem o livro, os poemas que vão formar o miolo e os que fecharão o livro”. E eu voltava para casa pensando nisso, em como solucionar esse problema e enxergar quais textos tinham essas características, como eles poderiam se encaixar conforme Drummond havia dito. Porque numa prosa, você sabe mais ou menos como a narrativa começa, como ela se desenvolve e termina, e com a poesia você sempre fica sem saber, não há um tempo… Depois desse conselho, sempre procurei seguir essa norma.

Você conheceu o Drummond funcionário público, o amigo, o poeta. Quem era Carlos Drummond de Drummond para você?

Eu me considero um privilegiado por ter convivido com ele. Foi um grande homem, um afetuoso amigo, meu parceiro e meu mestre. Depois que ele envelheceu, nos aproximamos ainda mais. Nós trocamos muitas cartas. Todos os anos eu mandava correspondências no aniversário dele. Ele era tão poderoso que acho que morreu quando quis. Ia ser muito difícil viver sem Maria Julieta (filha única de Drummond). Soube que, quando ela morreu, ele escreveu: “Hoje morreu a pessoa que eu mais amei na vida. Fim.” E foi embora 12 dias depois. O Carlos foi o encontro da minha vida. Para mim é um deus. Um dos maiores poetas da literatura moderna do mundo.

Leia mais: Revista do Instituto Moreira Salles publicará cartas inéditas trocadas entre Drummond e o historiador mineiro Francisco Iglesias

ENCONTRO COM O AUTOR NA FLIP: Domingo, dia 8, às 14h30m, na mesa “Drummond — O poeta presente”, com Eucanaã Ferraz e Carlito Azevedo e mediação de Flávio Moura (Freitas Filho participará por vídeo).

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