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Cleland se auto-afirma um dos experts do mundo sobre as práticas antiéticas do Google

Mayara Teixeira, no iG

O americano Scott Cleland tem uma missão: convencer o mundo de que o Google é uma empresa tão perigosa em suas práticas que pode ser capaz de transformar os Estados Unidos em uma espécie de União Soviética stalinista do século 21. Para este consultor de empresas que acaba de lançar o livro “Busque e Destrua: porque você não pode confiar no Google Inc.” (editora Matrix, 348 páginas, R$ 39,90), a empresa criada e dirigida por Larry Page é a maior ameaça à democracia no mundo.“ O Google não respeita o direito à propriedade ou à privacidade”, afirma ele. “Eu morei na Polônia na época do comunismo, sei o que é aquilo e temo que o Google possa transformar o mundo em uma nova União Soviética”, diz ele.

Texano da cidade de Austin, Cleland é um típico republicano conservador do interior dos Estados Unidos. Quando jovem teve medo do comunismo e, hoje, defende as ações dos EUA na controversa Guerra ao Terror imposta pelo ex-presidente George W. Bush. Com 52 anos de idade, Cleland trabalhou na gestão de George Bush, o pai, como assessor do Departamento de Estado para Políticas de Informação e Comunicação. É acusado pelo Google de ser pago por suas concorrentes. Ele admite ter entre seus clientes empresas que disputam mercado com a empresa que considera a maior ameaça ao mundo civilizado. “Prefiro não revelar os nomes, mas posso afirmar que já trabalhei para a Microsoft”. Seu livro fez algum barulho na mídia americana e, desde o seu lançamento, tornou-se colunista da versão online da revista Forbes

Confira a seguir os principais trechos da entrevista que Scott Cleland concedeu ao iG sobre o Google.

iG: No livro sua postura em relação ao Google é muito crítica. Por que você decidiu vilanizar a empresa?
Scott Cleland: O Google só está contando o lado bom da história, e existe um lado ruim. Meu livro é crítico porque está fazendo o que ninguém fez até agora. Eu não teria nada contra o Google se eles obedecessem a lei, se eles fossem éticos e confiáveis como dizem ser. O Google é a companhia mais poderosa do mundo. Eu não acho que estou vilanizando uma empresa se ela diz aos usuários que eles estão seguros quando, na verdade, eles não estão.

iG: Grandes corporações estão sempre infringindo leis, por que o Google é diferente de outras grandes companhias?
Cleland: O Googlé é único. Eles têm a missão de organizar toda a informação do mundo e torná-la acessível para todos. Isso parece lindo, mas o problema é que eles não respeitam o direito à propriedade ou à privacidade. A missão deles é coletar qualquer dado que encontrarem, seja propriedade de alguém ou informação pessoal. Eu acredito que se não tivermos direito à propriedade e à privacidade, não temos liberdade, dignidade ou segurança. O Google não se importa com o usuário e faz o que for preciso. Esse é um tipo de tirania, nenhuma outra companhia faz isso.

iG: Qual é a grande missão do Google?
Cleland: Eles afirmam que são uma empresa com fins lucrativos. Também dizem que querem mudar o mundo e que “não ser do mal” é o modelo deles. Eu acredito que a real motivação do Google é querer que o mundo funcione de acordo com a lógica deles. Eles genuinamente acreditam que sabem o que é melhor para todos. Quase tudo que você imaginar no universo online, o Google está envolvido. Eles são um monopólio e podem destacar o que quiserem na busca. Muitas vezes, o Google está em primeiro, ou segundo, ou terceiro lugar na ordem de busca, e 34% das pessoas clicam no primeiro link que aparece. Por isso, digo que o Google mente, eles dizem que não favorecem ninguém, mas estão sendo investigados na Coréia, na Europa, nos Estados Unidos,…

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Para Cleland, a internet nas mãos das pessoas erradas pode gerar opressão, como na China

iG: Como O senhor vê o futuro se as medidas que você defende contra o Google não forem tomadas?
Cleland: Será um futuro horrível. Se você permite que uma companhia não respeite a propriedade ou a privacidade, todos se tornam servos, sem dignidade e identidade. A centralização das informações gera tirania. A internet é uma ótima ferramenta para o bem, mas nas mãos das pessoas erradas é também uma ferramenta de opressão. Por exemplo, a China, a Arábia Saudita e o Irã. Toda companhia deve estar submetida às regras e leis, e o Google pensa, assim como todo rei e déspota, que está acima da lei.

iG: O senhor acredita que no futuro o Google pode escolher o presidente dos Estados Unidos? O senhor acha que eles têm desejo por poder político?
Cleland: Sim, é preciso acompanhá-los de perto para que não manipulem eleições. Se quiserem fornecer informação para alguns dos lados, eles podem. Nos Estados Unidos, eles são muito próximos ao Obama.

iG: O senhor acha que essa relação com Obama está ajudando o Google a se livrar das investigações?
Cleland: Eu vejo que o Departamento de Justiça está trabalhando para julgar alguns crimes cometidos pelo Google. Acredito que o governo Obama apoiou muito a empresa no passado e agora está se tornando mais preocupado. Mas, o Google continua cometendo os mesmos erros ao redor do mundo. Nos Estados Unidos, as autoridades estão atrás deles, investigando. O problema é que quando são punidos, isso é muito pouco significativo. A Comissão Federal de Comunicação dos Estados Unidos (FCC), por exemplo, multou a empresa em U$ 25 mil em abril desse ano. O Google ganha isso em um segundo.

iG: Em qual partido o senhor vota?
Cleland: Sou Republicano.

iG: O senhor acha que o Google pode se tornar uma tirania nos Estados Unidos em 20, 30 anos?
Cleland: Sim, eu tenho muito medo da distopia. Se eu acho que o Google é o “o mal”? Não! O único parâmetro que eles adotaram é “não ser o mal”, mas isso significa que ser antiético não tem problema. O mal é o pior, é Hitler ou Stálin. Eu acredito que eles precisam obedecer às leis e tratar os outros como querem ser tratados. O Google engana o sistema, diz uma coisa e faz outra

iG: O senhor afirma que o Google é perigoso porque acredita saber o que é melhor para todos. De alguma forma essa estratégia não é semelhante à política externa dos últimos governos dos Estados Unidos em algumas regiões do mundo, como na América Latina ou no Oriente Médio?
Cleland:Não, a América preza por sua liberdade e democracia. Não fomos perfeitos, cometemos muitos erros, mas o Google é muito diferente do governo norte-americano. Os Estados Unidos não têm desejo de dominar outros países, geralmente só age quando é ameaçado. O Google está indo em cada país e deixando a mensagem de que pode organizar as culturas, as finanças, o mercado financeiro de uma forma muito melhor do que a própria nação. Uma única fonte de informação não é bom para ninguém. As pessoas querem ter a oportunidade de escolher. A minha mensagem é que a concentração de poder é assustadora e nunca vimos algo como o Google na história.

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“O mal é o pior, é Hitler ou Stálin”, diz Cleland

iG: O senhor usa o Google?
Cleland: Eu não odeio o Google, e uso alguns dos produtos deles, mas tento evitar ao máximo. Confesso que eles são muito bons em tecnologia e podem ser muito inovadores. Mas, eles são uma companhia perigosa.

iG: O senhor trabalha em uma empresa de consultoria e já declarou que tem como seus clientes empresas que são concorrentes do Google. Isso não torna seu trabalho tendencioso?
Cleland: Eu trabalhei para algumas companhias da Fortune 500, e algumas eram concorrentes do Google. Acho que é importante que as pessoas saibam quais são meus interesses. Nenhum dos meus clientes sabia que eu estava escrevendo o livro. Em Corte, quando testemunhei contra o Google, já afirmei que trabalhei para a Microsoft. Eu sou um dos experts do mundo sobre as práticas antiéticas do Google, eu já escrevi mais sobre esse tópico do que qualquer outra pessoa no mundo e é normal que eu tenha trabalhado para grandes empresas.

 

Dica do Jarbas Aragão

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