425227_3386913518307_1359179277_n.jpg

Fernanda Pacheco. no Obvious

“…é melhor continuar fingindo, parecendo normal, se esconder na multidão e ficar fora de vista, e a melhor maneira de se esconder é agir exatamente como todos os outros.”

É sempre difícil escolher um escritor favorito, até porque ser favorito é algo muito limitável, mas durante os últimos 4 anos o escritor Charles Bukowski (1920 – 1994) anda liderando o meu ranking. Eu me surpreendo com ele a cada livro que chega em minhas mãos e vou lhes explicar o porquê.

bukowski-at-desk.jpg

Para começar, o velho safado (como é conhecido) tornou-se ao longo das leituras o oposto. Não vou negar que esse bom senhor realmente era um baita dum safado, mas não consigo reduzi-lo apenas a isso. O primeiro livro dele que eu li foi A Mulher Mais Linda da Cidade bem curto e simples. A princípio eu achei o livro uma grande pornografia, mas quando cheguei no final, percebi que o objetivo dele era mostrar a intensidade da vida, escancarar que o mundo não é essa belezinha toda e que debaixo do nariz da gente tudo que ele fala acontece normalmente. Passei a não ver motivos para considera-lo inferior ou “proibido”. Há quem diga que o mais atrai os leitores de Bukowski é a escrita fácil, meio cotidiana. Mas é ai que eu vejo um grande problema: será que todo mundo que lê o old Buk se aprofunda? Parece papo de gente chata, mas eu sempre reflito muito depois que leio ele. Se repararem, ele SEMPRE termina com algo muito engraçado e ao mesmo tempo trágico.

 

Entre os livros dele, estão (só para citar alguns) Factótum, Hollywood, Pulp, Cartas na Rua, Notas de um Velho Safado, Mulheres, a obra Crônica de Um Amor Louco e pra mim, o melhor de todos: Misto Quente.

Nesse livro é possível desconstruir qualquer estereótipo bukowskiano. Você se depara com o interior daquele velho aparentemente vulgar, grosso, estúpido (muito evidenciado em Mulheres) e passa a conhecer um Bukowski frágil, fraco e triste. Os outros livros tornam-se mais compreensíveis ainda e a frustração do escritor para/com o mundo torna-se justificável. O que eu mais gosto é a forma como ele encarava toda a sujeira e a desgraça que perpetuava sua infância e juventude. Era como se ele dissesse: “Você tem problemas? Então não fique ai reclamando deles! Não queira que os outros tenha pena de você. Levante a bunda daí e vá fazer alguma coisa!”.

O livro não é necessariamente um biografia, mas é baseada em sua vida e começa sendo dedicada exclusivamente para todos os pais. Para quem nunca leu esse livro, eu recomendo. É um pouco triste, fato, porque ali ele narra a violência do pai somada a submissão da mãe, os problemas de saúde, a dificuldade para viver, etc. Mas também é um livro como qualquer outro digno de Bukowski com capítulos engraçados, sujos e sarcásticos. Como diria o velho: “Que tempos penosos foram aqueles anos – ter o desejo e a necessidade de viver, mas não a habilidade”.

bukowski042.jpg

O pai Henry, Bukowski ao centro e sua mãe, Katherine.

A grande característica do escritor era sua atitude de chutar o balde e falar o que quiser. Foi incompreendido muitas vezes, mas isso não o impedia de continuar dando suas opiniões ácidas e reflexivas. Suas relações sociais não eram boas, nunca foram. O mundo abriu suas cortinas muito cedo para o jovem Bukowski que logo tratou de examinar as pessoas com muita sinceridade, na maioria das vezes, sem obter conclusões muito positivas a respeito delas:

“Lembro de uma carta longa e furiosa que recebi um dia de um cara que me disse que eu não tinha o direito de dizer que não gostava de Shakespeare. Muitos jovens iam acreditar em mim e não se dariam ao trabalho de ler Shakespeare. Eu não tinha o direito de tomar essa posição. E assim por diante. Não respondi na época. Mas vou responder agora. Vá se foder, colega. E eu não gosto também de Tolstoi!”
(Último parágrafo do livro póstumo O Capitão Saiu Para o Almoço e os Marinheiros Tomaram Conta do Navio)

Além das novelas, contos e crônicas, Bukowski escreveu diversos poemas. Alguns publicados no livro O Amor É um Cão dos Diabos e outros em livros menores. Como poeta, tenho a impressão de que ele se saia melhor ainda.

“quando chegar mesmo a altura,
e se foste escolhido,
vai acontecer
por si só e continuará a acontecer
até que tu morras ou morra em ti.
não há outra alternativa.
e nunca houve.”

(Trecho do poema Então Queres Ser um Escritor?)

No link abaixo o próprio escritor apresenta um dos seus poemas mais famosos e mais bonitos, o BlueBird:

E aqui, o poema Born Into This:

Acredito que era através de sua personalidade excessivamente forte que se escondia o Bukowski e sua fragilidade emocional. Abaixo o documentário que leva o mesmo nome do poema anterior sobre a vida do Buk onde isso fica mais perceptível ainda:

Charles Bukowski foi um grande homem, senhores. Digo isso de boca cheia. Poucos souberam interpretar de forma tão óbvia e clara o fedor interno da alma humana.

Comments

comentários

Powered by Facebook Comments