O escritor inglês Ian McEwan (à esquerda), a americana Jennifer Egan e o mediador, Arthur Dapieve (Foto: Flavio Moraes/G1)O escritor inglês Ian McEwan (à esquerda), a americana Jennifer Egan e o mediador, Arthur Dapieve (Foto: Flavio Moraes/G1)

Cauê Muraro, no G1

“Seria mais divertido [o debate] se detestássemos o trabalho um do outro…” Quem fala é Ian McEwan, em resposta a um comentário bastante elogioso feito pouco antes por Jennifer Egan, com quem ele dividiu o palco na Tenda dos Autores da Festa Literária de Paraty (Flip) no início da tarde deste sábado (8).

Vindo pela primeira vez ao Brasil, e na esteira da boa acolhida de seu romance mais recente, “A visita cruel do tempo”, que lhe rendeu o Prêmio Pulitzer de ficção no ano passado, Jennifer revelou-se uma admiradora dedicada do colega. Dedicada e imprudente. Em dado momento, ela revelou um segredo do novo trabalho de McEwan, “Serena”, que acaba de sair no Brasil antes mesmo do lançamento em língua inglesa, previsto para agosto.

“Eu não deveria ter feito spoiler…”, lamentou-se a americana, já tarde demais. McEwan, contudo, não tardou a se vingar. Irônico e com cálculo, soube camuflar a devolutiva. “Eu recomendo que todo mundo aqui na sala entre no site da [revistaa] ‘New Yorker’ e leia ‘Black box’.”

“Black Box” é o título de uma pequena novela que Jennifer lançou em série no Twitter recentemente, num projeto em parceria com a publicação estrangeira. Dizendo se tratar de uma das coisas mais interesses que leu nos últimos tempos, McEwan concluiu o golpe: “É terrível para Jennifer que vocês possam ler de graça, mas aí esta…”.

O tom da conversa – e em certos instantes, os melhores, foi mesmo uma conversa entre os dois convidados – a mesa passou ficou marcada pelos comentários bem-humorados. Sobretudo os de McEwan. Quando alguém do público enviou um comentário dizendo ter se sentido manipulado ao término do livro “Reparação”, o mediador, Arthur Dapieve, elaborou a pergunta: “Há prazer nesse drible da fantasia do leitor?”.

McEwan usou a oportunidade, uma vez mais. “Com certeza. Manipular o leitor é o meu maior prazer que tenho na vida”, brincou. “Mas não é uma questão de ser sádico…”, prosseguiu ele, baixando o tom. Fez também uma analogia com a pesca de truta. Segundo o escritor, costuma-se segurar o peixe fora da água e fazer “cócegas nas guelras”, o que provoca “um transe” no bicho. Na literatura, o propósito da manipulação seria proporcionar o mesmo estado de transe ao leitor.

Sobre a mesma questão, Jennifer pontuou: “A manipulação pela manipulação não significa nela. A pergunta é: ‘qual é o objetivo da manipulação?’. Eu acho que a manipulação que representa uma surpresa para o leitor é o máximo que pode acontecer, e surpresas são maravilhosas, eu adoro”.

‘Inveja do pênis’
Outra pergunta enviada pela audiência dizia respeito aos prêmios recebidos por Jennifer Egan e Ian McEwan. Mais precisamente, à possível expectativa do Nobel. A primeira reação da americana foi: “Eu?!”. Já McEwan preferiu outro ponto do vista: “Prefiro lembrar sobre os grandes que não ganharam, [James] Joyce, [Franz] Kafka… Então, estamos em boa companhia”.

Fazendo sua segunda visita à Flip, o inglês comentou também que “romancistas têm inveja dos compositores”. “Eu sempre sinto o equivalente artístico à ‘inveja do pênis’. Bach é cheio de significado e sentido, como podemos competir com isso? Não podemos, mas podemos evocar o amor pela música em nossos personagens…”

No desfecho, McEwan falou sobre o jornalista e escritor Chritopher Hitchens, novamente a pedido de alguém na plateia. Hitchens, outro que teve passagem pela Flip, morreu em dezembro passado, em decorrência de câncer. Após elogiar a capacidade de memória do colega e dizer que “ele deixou uma lacuna enorme em nossas vidas”, McEwan lembrou-se de suas últimas semanas de vida.

“Não haverá ninguém igual. Morreu com coragem, sem se queixar. Dias antes de morrer, ele estava corendo par escrever um ensaio, e eu os ajudamos a ficar em posição sentada para escrever aqueles parágrafas. Ele não conseguia respirar, mas tinha que entregar, mesmo sabendo que faltava apenas dias para o fim. Isso que eu acho incrível.”

Em teoria, é uma conclusão que poderia soar inapropriadamente dramática a um debate que teve dois convidados – e um mediador – dispostos à conversa e à concordância. O tom sóbrio de McEwan, porém, evitou que a impressão final ficasse em descompasso com as falas pregressas.

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