Fillipe Mauro/Opera Mundi

Fillipe Mauro, no Opera Mundi

Na noite deste domingo (08/07), as tendas e casas coloniais que abrigaram os cinco dias de conferências da décima edição da Flip fecharam suas portas. Movidas pelo entusiasmo de poder ouvir de perto as maiores referências contemporâneas da literatura mundial, ao menos 25 mil pessoas cambalearam pelas ruas pedregosas da cidade de Paraty, no Rio de Janeiro, e acompanharam uma diversificada programação com 135 debates, shows e recitais.

Grandes festivais literários são organizados em praticamente todos os países, indo da Índia à Escócia, e da Austrália ao Canadá. Mas isso absolutamente não faz da Flip apenas mais um nome em meio a uma grande lista. Pelo menos não para Liz Calder, a britânica que fundou o evento em 2003 e que decidiu dedicar boa parte de sua vida à literatura brasileira. A seu ver, a cidade de ruas estreitas, preenchida por paredes de cal e emoldurada por coloridas janelas coloniais coloca a Flip “sempre entre as melhores”.

Seu curador, o jornalista Miguel Conde, atribui esse sucesso internacional à “tentativa de trazer a cada ano um panorama do que há de mais relevante sendo feito no Brasil e no mundo”. Liz não discorda disso e também não hesita em ressaltar a eficiente organização que seu orçamento milionário é capaz de proporcionar. Mas a britânica acrescenta que “a heroína” da Flip é inevitavelmente Paraty, essa cidade que confessa amar desde que a visitou pela primeira vez, em 1992.

Ela revelou ao Opera Mundi que, nos últimos dias, chegou a enviar um cartão postal da cidade para seu marido confessando-lhe que era em Paraty que desejava morrer. Ouviu falar pela primeira vez desse antigo entreposto português em conversas com amigos, enquanto ainda morava no Brasil, em meio aos anos 60. À época, contudo, conta que ainda não havia estradas de acesso à cidade, o que a obrigou a adiar seu primeiro encontro por mais de duas décadas.

“Quando finalmente vim a Paraty, não pensei imediatamente em promover um festival literário”, admite. Porém, quando o fez, apostou alto: homenageou o poeta Vinicius de Moraes e trouxe à cidade nomes célebres, como o historiador britânico Eric Hobsbawn e o compositor Chico Buarque. Para Conde, se hoje a Flip possui “uma reputação internacional de festival sério e consistente” é porque foi ponto fundamental de sua trajetória “ser inaugurada com nomes de muito peso”.

Como uma escola de samba

Nos bastidores, vários funcionários brincam que a organização do evento é praticamente idêntica à de um desfile de escola de samba – “começa logo depois do fim”. Conde explica que, dentro do processo de curadoria, há “uma etapa inicial de planejamento com editoras, leitores, críticos e amigos”. Só depois é que, conforme os primeiros autores vão enviando suas respostas, “vão sendo pensadas as combinações possíveis para as mesas”.

Fillipe Mauro/Opera Mundi

Javier Cercas, que participou da Flip pela primeira vez este ano, “foi convidado três vezes e só aceitou agora”, conta Liz. “Outra pessoa que convidei várias vezes e que me confirmou que viria, só que acabou morrendo antes foi Carlos Fuentes”, revela. “Falamos tanto com estudiosos quanto com editores pra levantar sugestões, mas você já chega para esse trabalho com algumas ideias: Rubens Figueiredo, Paloma Vidal e Ian McEwan são exemplos”, explica Conde.

A permanência do jornalista na curadoria da Flip foi confirmada neste domingo (08/07) e a festa se encerra com fortes especulações de que o romancista alagoano Graciliano Ramos, que completaria no próximo mês de outubro 120 anos, será o homenageado de sua próxima edição. Com bandas de marchinhas de carnaval que agora se calam, talvez seja possível absorver o sentido que o festival buscou auferir à literatura contemporânea e, enfim, penetrar surdamente no reino das palavras.

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