Divulgação/A Esfera dos Livros
A Crise Explicada Às Crianças, do português João Miguel Tavares, tem duas versões: uma de direita e outra de esquerda

Publicado originalmente no Opera Mundi

Apesar de uma criança precisar de pouco para ser feliz, muitas sofrem efetivamente com a crise e outras incorporam essa realidade nas suas preocupações. Obviamente, uma criança não entende o que é déficit, mas sabe perfeitamente que os pais andam com menos dinheiro na carteira, o que traz questionamentos e mudanças no dia a dia.

Se a curiosidade das crianças já é algo complicado de vencer – são tantos o que é e por quê? – como explicar a elas o que é a crise? Talvez cada família tenha uma receita, um pensamento, um jeito comum de contar que palavra é essa que não sai de cena, principalmente nos países da Europa. O jornalista e escritor português João Miguel Tavares arrumou uma forma simples e muito boa de dizer a verdade: com duas versões, a de esquerda e a de direita.

No livro A Crise Explicada Às Crianças – Para miúdos de Esquerda e Para Miúdos de Direita, Tavares descomplica o assunto transformando os protagonistas da história em ursos e abelhas. “Primeiro veio o desdobramento esquerda/direita, e depois o trabalho em encontrar um ecossistema com animais que permitisse concretizar essa ideia”, conta o autor em entrevista ao Opera Mundi.

Os protagonistas são os mesmos nas duas versões, mas os papéis se invertem e a narrativa ganha um outro desfecho ou moral. Segundo ele, ursos e abelhas têm um histórico vasto nos contos infantis, vantagens anatômicas para essa narrativa e um precioso ponto em comum: o mel. “No livro, os ursos são gordos e grandes como o déficit português, as abelhas são pequeninas e furiosas como os mercados, e o mel é precioso para ambas as espécies e a razão de todas as gulas, como o dinheiro”, explica. Um tríptico perfeito.

A história segue, portanto, em duas pontas. De um lado, a visão esquerdista, uma capa vermelha em que as abelhas picam o urso apavorado. A leitura flui com ótimas ilustrações de Nuno Saraiva, um artista de esquerda que, inclusive, já fez cartazes para partidos portugueses. Ricas em cores, as imagens complementam o texto formando grandes cenas, que começam com um diálogo entre pai e filho.

- Papá, porque é que toda a gente diz que estamos em crise?
- Por causa de uma coisa a que as pessoas grandes chamam “mercado”, Tomé.
- E o que são os mercados, papá?
- Bom, diria que os mercados são como um enxame de abelhas furiosas.

Vá até o fim da história e vire o livro de ponta-cabeça. Começa então, após a capa na cor azul em que um urso se esbada com tanto mel, a versão de direita, essa retratada por Tomás e seu papá, sob outra ótica. Nela, o diálogo fica assim:

- Papá, porque é que toda a gente diz que estamos em crise?
- Por causa de uma coisa a que as pessoas grandes chamam “défice”, Tomás.
- E o que é o défice, papá?
- Bom, diria que o défice é como um urso gordo.

Como o escritor se assume como uma pessoa politicamente mais à direita, ele queria que o ilustrador fosse alguém politicamente ligado à esquerda, para que o jogo se estendesse aos próprios autores. “Foi uma escolha óbvia. Mas, claro, como direita e esquerda não se misturam, cada um trabalhou em suas casas. Ele ficou com o texto, fechou-se no seu estúdio, e saiu de lá com o resultado final (demasiados) meses depois”, conta Tavares.

A importância de explicar a crise às crianças

João Miguel Tavares tem três filhos, mais a Rita, que deve nascer no final de agosto. Tomás, a quem ele dedica a história, tem seis anos. A Crise Explicada às Crianças é seu primeiro livro infantil, mas já surge como uma obra divertida e esclarecedora para os “miúdos”, cuja expectativa do autor é uma só: “Digamos que se o livro ajudar as crianças a perceber que há mais do que um ponto de vista sobre o mesmo assunto, e que o mundo não é a preto e branco, já terá cumprido a sua modesta missão. E então se ajudar os pais das crianças a terem uma atitude mais adulta perante a crise que nos rodeia, poderei morrer feliz.”

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Segundo o autor, o livro é meio para crianças, meio para adultos. E está longe de ser uma simples obra passiva em que os pais leem uma história auto-explicativa. Como se trata de dois pontos de vista, a criança busca um enquadramento dentro de uma das versões e espera que o adulto explique sua escolha – principalmente porque nenhum dos finais é de conto de fadas.

Há ainda em Crise Explicada às Crianças uma dimensão de sátira. “Eu quis mostrar como todos nós andamos a infantilizar a política, cavando trincheiras de esquerda e de direita e simplificando questões altamente complexas a um nível tal que dá para transformar isso numa história de crianças”, diz Tavares.

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