Brunín Assis, no Pra Ler

Para morrer, às vezes basta estar no lugar errado, na hora errada. Ou estar no lugar certo, mas nas companhias erradas. Ou marcar um horário e um lugar para fazer a coisa errada. Não importa. O mais difícil é conseguir escapar com vida dessas fatalidades. Seja levando um tiro em um lugar menos letal, ficando paraplégico ou escapando por um triz, alguns escritores conseguiram fazer isso. Veja abaixo uma lista daqueles que driblaram a morte:

George Orwell e o tiro na garganta
Durante a Guerra Civil Espanhola, em 1937, George Orwell servia como combatente voluntário ao lado dos republicanos. Em maio, enquanto estava em no parapeito de uma trincheira, foi atingido na garganta por um sniper. A sorte do escritor é que a bala errou a artéria principal e o tiro danificou apenas as suas cordas vocais, fazendo com que ele falasse de um jeito mais afeminado pelo resto da vida. Esse momento foi crucial para Orwell e compôs muito do seu trabalho futuro. Ele escreveu sobre o incidente (que pode ser lido aqui) e a experiência do que ele sentiu e noticiou, incluindo o incrível momento em que ele foi levado embora em uma padiola.

Alexander Pushkin e os 29 duelos
Considerado por muitos o maior poeta russo e o fundador da moderna literatura russa, Pushkin também era conhecido pela facilidade com que entrava em duelos. Ao todo ele se sagrou vencedor por 28 vezes, mas a 29ª é a mais conhecida e a que trouxe a sua morte. Casado com Natalya Goncharova, em 1837 ele começou a ouvir rumores de que sua esposa estava tendo um caso com o oficial francês Georges d’Anthès. Pushkin não hesitou e o chamou para um duelo, que acabou se tornando um dos mais famosos da Rússia, sendo retratado em imagem e filme. Mortalmente ferido, o poeta morreu dois dias depois. Mas com tantos duelos na vida, é impressionante que ele tenha conseguido viver até os 37 anos.

Pearl S. Buck e o incidente de Nanquim
A vencedora do prêmio Pulitzer de 1932 e do Nobel da Literatura de 1938 passou muito tempo de sua vida na China (anos que depois de tornariam o livro A boa terra). Antes de começar a escrever, porém, ela se encontrava em Nanquim, palco de um violento bombardeio em 1927. Buck e a família precisaram se esconder em um porão de uma família pobre da cidade enquanto as casas eram saqueadas. O Incidente de Nanquim, como ficou conhecido, foi uma investida dos comunistas e nacionalistas para expulsar as forças estrangeiras da cidade. Para isso eles queimaram casas, invadiram consulados e fizeram diversos bombardeios à cidade. Buck, a família e os cidadãos de Nanquim receberam auxílio para saírem da cidade em segurança.

Fiódor Dostoiévski e a falsa execução
Na manhã de 23 de dezembro de 1849, um Dostoiévski de 28 anos era levado para a Praça Semenovsky e colocado em frente a um pelotão de fuzilamento. Ele havia sido detido oito meses antes por fazer parte de um grupo intelectual liberal intitulado Círculo Petrashevski, que supostamente estaria conspirando contra o czar Nicolau I. Junto com os companheiros, Dostoiévski foi amarrado a um poste, mas, antes da ordem oficial para o fuzilamento, chegou um ofício do czar para que a pena fosse revertida a quatro anos de trabalhos forçados na Sibéria.

Stephen King e o acidente de carro
No dia 19 de julho de 1999, Stephen King fazia sua tradicional caminhada pelas ruas do Maine quando foi atingido gravemente por uma van e jogado a mais de quatro metros de distância da estrada. O escritor norte-americano teve danos pulmonares, fraturas múltiplas na perna direita, fratura no quadril e lacerações na cabeça. A situação da perna era tão grave que os médicos cogitaram inclusive amputá-la, mas depois viram que era possível curá-la. Estar entre a vida e morte causou um impacto direto nas futuras obras de King. O acidente foi retratado em vários de seus livros, de diferentes maneiras, tendo inclusive um papel determinante na série da Torre Negra.

Chinua Achebe e o outro acidente de carro
Um dos mais famosos escritores africanos, autor de Quando tudo se encaixa, também se envolveu em um grave acidente de carro, que deixou marcas mais visíveis do que o de Stephen King. O escritor estava em um carro que seguia para Lagos quando um eixo quebrou e fez com que o carro capotasse. O motorista e o filho de Achebe tiveram ferimentos leves, mas o peso do veículo caiu todo sobre o autor. Ele foi levado para a Inglaterra para receber tratamento e lá se constatou que o dano na parte de baixo do corpo era irreparável e ele teria que usar uma cadeira de rodas por toda a vida. Atualmente Achebe é professor na Brown University, nos Estados Unidos.

Nelly Sachs e o nazismo
Foi por pouco que a vencedora do Nobel de Literatura de 1966 escapou dos campos de concentração alemães. Em 1940, a escritora sueca Selma Lagerlof (e vencedora do Nobel de 1909) pediu para a família real sueca que emitisse uma ordem para retirar a amiga Nelly Sachs e sua mãe da Alemanha e levasse as duas para a Suécia. Isso aconteceu exatamente uma semana antes de sair a chamada para ela ser mandada aos campos de concentração

Ernest Hemingway e o morteiro
Aos 18 anos, Hemingway foi para a Primeira Guerra Mundial trabalhar como motorista de ambulância para o Movimento Internacional da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho, na Itália. Enquanto voltava da distribuição de chocolates e cigarros aos soldados, ele foi atingido por um projétil lançado por um morteiro. Ele ficou inconsciente e com estilhaços espalhados na cabeça, braços e pernas. Segundo Hemingway, “quando você vai para a guerra ainda garoto, você tem uma grande ilusão de imortalidade. Outras pessoas serão mortas… não você. Então quando você é gravemente ferido pela primeira vez, perde essa ilusão e começa a acreditar que pode acontecer com você”. O autor não se lembra de como voltou para o acampamento após o incidente.

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