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Bernardo Kucinski: escrever aliviou sofrimento (Foto: Paulo Pepe/Rede Brasil Atual)

Desirèe Luíse, no Caros Amigos

“Às vezes nem eu mesmo acredito que escrevi. É especial, porque é uma espécie de descarrego. O livro nasce de um processo cíclico, que seria impossível de repetir”, afirmou o jornalista e escritor Bernardo Kucinski sobre sua mais recente publicação, o livro “K.”.

Resultado de um processo de maturação de mais de 40 anos do autor, a obra retrata a incessante busca de um pai por sua filha, vítima da ditadura militar no Brasil. A moça é Ana Rosa Kucinski, militante da resistência e irmã do autor. Em 1974, junto com seu companheiro, ela “foi desaparecida” – em oposição ao “desapareceu”, já que o verbo deixa margem para concluir que poderia ter ocorrido por livre e espontânea vontade, como Bernardo ressalta na narrativa.

Sentimentos

Carregado de sentimento, o livro emociona. A busca desesperada do protagonista K vai se intensificando a cada capítulo. Primeiro, o estranhamento pela falta de notícias da filha. Depois, a desconfiança do que pode ter acontecido. Então, a certeza de que foi vítima dos militares e a persistência eterna de encontrar provas ou, ao menos, conseguir a admissão da culpa por parte do Estado. O leitor torna-se cúmplice de uma dor sem tamanho. As repetidas tentativas de encontrar qualquer notícia envolvem num mar de angústia.

Kucinski revelou ter sentido certo alívio, após escrever o livro. “Trouxe algo que ainda não sei identificar, mas foi como ‘soltei o que estava dentro de mim’. Mas aí começa tudo de novo. Começa outra vez. Complicam algumas coisas e então, agora, não está legal a situação novamente.”

A sensação é a que centenas ou até milhares – o número de militantes desaparecidos ainda não é certo no país – de famílias carregam por não poderem enterrar seus mortos. “Não conseguimos saber nem a metade dos horrores cometidos. Essa tragédia contada no livro é uma das múltiplas até hoje não esclarecidas. Não se sabe quantos morreram e quantos corpos foram escondidos”, apontou o jurista e professor titular aposentado da Universidade de São Paulo (USP), Fábio Konder Comparato.

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Capa do livro de Kucinski (Foto: Reprodução/editora)

A realidade na ficção

Ex-professor da Escola de Comunicação e Artes (ECA), Kucinski já havia lançado publicações ligadas à comunicação, mas de não ficção. “Quando percebi que o livro estava nascendo quase que naturalmente, até porque estava numa fase em que tinha abandonado o jornalismo e adotado a ficção, decidi não trabalhar como jornalista, sem fazer pesquisa, ficando apenas com o que havia na minha cabeça.”

Segundo o autor, do ponto de vista da narrativa funciona. Em alguns momentos, quem viveu determinada situação não foi seu pai, mas o próprio autor, fazendo de K a síntese de vários personagens. “Fui eu quem estive com a amante do Fleury (Sérgio Paranhos Fleury foi delegado do Dops em São Paulo na década de 1970) para escrever um dos capítulos. Essa transferência foi uma forma que encontrei”, contou.

Apesar de descrever momentos reais, o livro também conta com imaginação. “Tomei como base situações vividas. Exceto um ou outro texto, como, por exemplo, a carta ao companheiro Klemente, que fecha a narrativa, foi totalmente criada. Achei que deveria dar um recado.”

Rompendo o Silêncio

Kucinski estava trabalhando como assessor da Presidência da República durante o primeiro mandato de Luiz Inácio Lula da Silva, quando resolveu começar a escrever. “Em parte, foi o fato de após um ano e meio, comecei a ter um sentimento meio desagradável. Esse negócio de não falar nada sobre o assunto (ditadura). O governo, que demorou 20 anos para chegar, acabou gerando uma forte contradição”, ressaltou.

O outro fator, de acordo com ele, foi estar cansado da academia. Em um momento de inspiração, escreveu uma trama policial, ainda não publicada. Depois, chegou a escrever contos, e por isso “K” está nesse formato.


Comissão da Verdade

“Acho que não foram quebradas coisas fundamentais daquela época. Primeiro, as nossas forças armadas não reconhecem que erraram. Não pediram desculpas e se identificam com o período, colocam panos quentes e procuram justificativas dizendo que era uma guerra”, lamentou Kucinski.

Sobre a Comissão da Verdade, mais do que não acreditar em seus resultados, o jornalista afirma que “poderá ter um efeito nefasto, porque na medida em que ela não conseguir quebrar as entranhas da questão, contribuirá para colocar um ponto final nisso”.

Para ele, o relatório final da Comissão será apenas publicado por curto período na mídia, sem grandes descobertas. “Ela não possui poder de justiça, nem punitivo. Sua única finalidade seria um sentido pedagógico, mas com a investigação sendo feita às portas fechadas, nem isso existe.”

“Com apenas sete membros e o prazo limitado de dois anos para seu fim, a Comissão não possui condições de cumprir sua missão”, concordou Comparato.

Seria interessante, segundo Kucinski, se os relatos de familiares fossem transmitidos ao vivo e todos pudessem assistir. “A Comissão é constituída em conformidade com as razões de Estado, mas estas razões não são as mesmas dos direitos humanos. Ela nasce nesse marco, no das relações de Estado”, concluiu.

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