Guilherme Pavarin na revista Época

 

Um acadêmico que estuda Batman? É possível fora da ficção, sim, acredite. Ele é Will Brooke, um britânico que comanda o departamento de filme e televisão da Universidade de Kingston, na Inglaterra.

Autor de diversos ensaios sobre o homem-morcego, ele acaba de lançar o livro Hunting the Dark Knight: 21st Batman Century (algo como Caçando o Cavaleiro das Trevas: Batman do Século 21), nos Estados Unidos. A obra explora as diversas representações do herói dos anos 2000 em diante — nos quadrinhos, nos games, nas animações, no merchandise e sobretudo nos filmes.

Aproveitando a estréia do longa-metragem Cavaleiro das Trevas Ressurge (motivo da publicação do seu livro também, é claro), falamos com Brooker para entender o sucesso da trilogia de Christopher Nolan. O que há nessa adaptação que a torna tão apreciada por fãs e críticos? Por que outros diretores conceituados não tiveram o mesmo sucesso? Ele responde essas e outras perguntas, abaixo.

ÉPOCA: Entre as diversas adaptações de Batman para o cinema, Christopher Nolan foi o diretor mais bem recebido pelos fãs. A que se deve isso?

BROOKER: Muitos fãs levam Batman bastante a sério e eles gostam que outras pessoas o levem a sério também. Eles gostaram do modo como Nolan explorou Batman, tornando-o um personagem de psicologia complexa. Também gostaram dos elementos de política contemporânea que o diretor deu à saga. Os filmes de Nolan tentam mostrar como Batman trabalharia no mundo real, como seria se ele fosse realmente um milionário com equipamento militar enfrentando psicopatas urbanos. Muitos fãs estão encantados e agradecidos por esse retrato. Isso valida o entusiasmo deles. Mas é bom lembrar que nem todos os fãs preferem as representações de Nolan. Alguns ainda gostam dos filmes de Schumacher, alguns sempre acharão que as séries animadas são as campeãs e alguns ainda acham que o show de TV de 1960 é o melhor.

ÉPOCA: Você diz no seu livro que é comum dividir as adaptações de Batman em dois grupos: o bom Batman, quando ele é retratado como uma figura sombria e séria; e o mau Batman, que é aquele mais colorido e humorístico. Você acha que o sucesso de Nolan se deve a ter optado pelo primeiro retrato?

BROOKER: Não digo no meu livro que eu, pessoalmente, considero as adaptações boas e ruins divididas por essa linha. Estava sugerindo que é desse modo como as adaptações tendem a ser vistas e discutidas pelos fãs, críticos e jornalistas. Em geral, sim, o Batman mais sombrio é tido como puro e original, e o Batman cômico e brincalhão é considerado por muitas pessoas como uma traição ao original, uma corrupção, uma figura de divertimento. Nesses termos, Nolan certamente se encaixa na primeira categoria. Os filmes dele visam um realismo enérgico e sombrio. O Batman retratado é heterossexual e sério. O foco do personagem está na ação, nos músculos, no combate mão a mão e no hardware militar. Pessoalmente, tenho grande afeição por muitos tipos diferentes de Batman, e no meu livro eu argumento que insistir que Batman é somente uma figura séria e sombria é reduzi-lo a uma só dimensão. É aprisionar o personagem e limitar seus significados.

ÉPOCA: Muitos críticos acreditam que Nolan é o primeiro diretor a colocar complexidade em Batman. Você concorda com isso?

BROOKER: Acho que ele é o primeiro diretor que realmente explorou um Batman complexo na tela, sim. Outros diretores poderiam ter feito isso, sem dúvida, mas eles escolheram não fazer. Nolan estava explicitamente tentando produzir um Batman sombrio e realístico em contraste com o cartunesco e colorido Batman de Joel Schumacher, de 1995 e 1997. Ele tinha algo específico e diferente para explorar na franquia e escolheu fazer por meio dessa exploração do realismo e da complexidade da psicologia. Pessoalmente, acredito que Nolan é um grande diretor que ainda não fez um filme ruim — apesar de alguns de seus filmes serem mais fortes que outros — e seu trabalho é sempre interessante, ambíguo e inteligente. Ele nos deu, ao dirigir Batman, uma das maiores trilogias populares da história.

ÉPOCA: Nolan criou uma Gothan City bem realística, aproximando-a do mundo atual. Qual a importância desse cenário?

BROOKER: Não é inteiramente realística. A Gotham de Batman Begins é ligeiramente diferente daquela de Cavaleiro das Trevas e Cavaleiro das Trevas Ressurge. Por exemplo: o primeiro filme incluía um monte de CGI e um monotrilho, já o segundo foi filmado em Chicago, e o terceiro em Nova Iorque e Los Angeles. As cidades, portanto, não se encaixam de maneira consistente de um filme para outro. Entretanto, acho que nós podemos acreditar nelas como um exagero da América urbana contemporânea, e isso é importante para realizar cenas que tratam de problemas como terrorismo e protesto. Sendo filmado nas ruas atuais, não em localidades estilizadas (como no caso de Burton e Schumacher), Nolan está apto para transmitir, de modo convincente, a idéia de que seus filmes tem algo a dizer sobre a política do mundo real.

ÉPOCA: Em Cavaleiro das Trevas Ressurge, Batman junta forças com a polícia para derrotar revolucionários e terroristas. Podemos considerar esse novo Batman como um conservador?

BROOKER: Você pode considerar, mas não acho que seja uma interpretação completamente correta. No filme, Bane não é um revolucionário de verdade. Suas mensagens revolucionárias são propagandas falsas — ele admite isso para Bruce quando diz que irá manter a esperança nas pessoas para envenenar suas mentes. Ele reivindica que os cidadãos são livres para fazer o que escolherem, mas tudo que vemos são tanques patrulhando as cidades de Gotham. As únicas pessoas que parecem apreciar a liberdade são criminosos e mercenários. Então, a revolução dele é construída em cima de mentiras. Ele está seguindo um projeto pessoal. O filme também argumenta que o único jeito para Batman poder derrotar Bane é se desfazer do seu próprio privilégio, a riqueza, tornando-se um homem quebrado, no fundo do poço. Sugere ainda que as pessoas podem se mover entre classes e estruturas — do mesmo jeito que John Blake joga fora seu distintivo e se torna um agente independente, e Selina Kyle se adapta a diferentes situações sociais, antes de começar uma nova vida sem passado. Isso pode ser bem uma fantasia, mas o filme não está retratando Batman como conservador. É mais complexo e ambíguo que isso.

ÉPOCA: Então não podemos dizer que Batman é o herói do 1%?

BROOKER: Não, não acredito que seja herói da minoria. Enquanto ele começa o filme como um capitalista do 1%, ele só passa a obter certa glória quando perde todo o dinheiro e sai de sua casa. O filme está dizendo que Batman precisa de experiência de vida na pobreza e miséria antes que possa reconstruir a si mesmo. O privilégio se torna uma prisão. No fim do filme, ele não tem mais riqueza ou casa, mas finalmente parece estar feliz e em paz. De novo, isso é uma fantasia, assim como Bruce ainda está capaz de viajar por Florença e parece ter uma nova vida confortável — mas o filme não está simplesmente endossando o privilégio capitalista.

ÉPOCA: Devido ao grande sucesso do Batman de Nolan, essa representação atual poderia reprimir outras, passadas e futuras?

BROOKER: Não. Não acredito que possa. Por mais sério que tentemos levar Batman, ele é um homem vestido com fantasia de morcego e, fundamentalmente, é um cara performático. Sempre haverá algo absurdo sobre isso. Em Cavaleiro das Trevas Ressurge, a cena final de Batman parece ser como um tributo ao filme de Batman de 1966 com Adam Wedt. A sequência é muito parecida — Nolan, no climax de seu filme sombrio e sério, refere-se ao Batman cômico e colorido da década Pop Art. É como se ele aceitasse o Batman em muitas coisas, sendo divertido, sério e sombrio. Acredito que deveríamos agrupar cada aspecto diferente do personagem e ver ele como um mosaico — um ícone feito de diferentes fragmentos. A coisa maravilhosa sobre Batman é que ele toma formas muito diferentes sem nunca deixar de lado as qualidades fundamentais que o faz ser o homem-morcego.

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