Fotografia de João Castilho que está no livro 'Pulsão Escópica

Fotografia de João Castilho que está no livro ‘Pulsão Escópica’

Silas Martí, na Folha de S. Paulo

Homens e mulheres se exibem diante da câmera em conversas eróticas pela internet. Querem ver e ao mesmo tempo ser vistos por quem está do outro lado da conexão.

João Castilho, 34, fez dessas cenas de sexo virtual um livro em que registra seus encontros com mais de 170 pessoas, gente que tira a roupa, conversa e se masturba de acordo com a conversa.

“É uma investigação estética desse meio, dessas relações em que você fala, mas não tem o corpo da outra pessoa, o cheiro, o tato”, diz Castilho. “Quero restituir ao olho a função de gozo, a ideia de prazer através do olhar.”

Na psicanálise, o termo para esse tipo de prazer é pulsão escópica, conceito do começo do século 20 que o artista retoma na era digital.

Castilho, jovem fotógrafo mineiro que vem despontando no circuito, tem uma obra fotográfica que alterna noções de realidade e ficção. Em sua última mostra em São Paulo, ele usou cenas de telejornais em que reféns são mortos por bandidos ou resgatados no último segundo.

Da violência ele migra agora para o clímax no ato sexual. Nas imagens, garotos e garotas aparecem primeiro só de rosto, um retrato convencional, até o momento em que surgem nus ou saem de cena por completo, deixando um rastro de borrões de cor em baixíssima definição.

Talvez esteja aí a verdade na obra de Castilho. Imagens muito nítidas lembrariam fotogramas de filmes pornográficos convencionais, enquanto corpos pixelados, ambientes pouco identificáveis e mesmo detalhes do corpo que se perdem parecem dotados de uma realidade imediata, a visão do calor da hora.

“Esse é um trabalho de fotografia em que eu deixei a câmera de lado, são imagens de pouquíssima resolução”, diz Castilho. “Elas muito mais sugerem do que mostram, porque o que está em jogo é a fantasia, algo ativado com muito pouco. Um caco de imagem, uma disrupção ativa o desejo das formas mais malucas e profundas.”

No livro, Castilho separa esses encontros pela cor dominante no ambiente, criando blocos cromáticos de imagens, que vão do branco ao preto –as tonalidades do sexo mediado por máquinas.

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