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Bernardo Tabak, no G1

Ao entrar no ônibus da linha 125, que faz o trajeto entre a Central do Brasil, no Centro do Rio de Janeiro, e a Praça General Osório, em Ipanema, na Zona Sul da cidade, a aposentada Branca Sulamita, de 75 anos, ganha um livro de presente das mãos da cobradora Sonya Silva. Sulamita agradece, senta-se no primeiro banco do ônibus e folheia algumas páginas. “Mas esse livro é feito por ela?”, pergunta a aposentada, surpresa, em voz alta. “É, sim!”, responde a cobradora. “Menina, meus parabéns!”, elogia Sulamita.

Foi assim durante as duas horas de viagem do ônibus, nesta quarta-feira (9), com muitos passageiros se surpreendendo e parabenizando Sonya Silva, cobradora e escritora, que lançava seu quinto livro infantil: “Aventuras no Castelo Arco-Íris”. Na trama, que envolve reis, rainhas, príncipes e bruxas, a autora fala sobre inveja, amor e paz. Todos que embarcavam ganhavam um exemplar. “Muitos profissionais tem um dom, além daqueles que exercem. No caso dela, o de ser escritora”, ressaltou o aposentado José Dirceu.

Sonya Silva, de 52 anos, começou a escrever ainda criança, “com 11 ou 12 anos de idade”. Ela recorda que as amigas vinham pedir para escrever cartas de amor para os namorados. “Muitas delas se deram bem por minha causa”, lembra, bem-humorada. Entre os escritos, havia também algumas poesias. “Caminhando vou, sem busca, sem direção. Tristeza no olhar, mãos vazias a te buscar”, recitou durante a viagem. “Esta foi uma das primeiras que escrevi. Mas perdi muita coisa, porque entrava água na casa onde morava, no Morro do Escondidinho, na Zona Norte”, recorda.

Cobradora não pode pagar faculdade de Letras

Mas a vocação estava no sangue. Sonya prestou vestibular para a faculdade de Letras e passou em uma universidade particular. “Depois, vi que não ia dar para pagar. E não tinha crédito educativo”, recorda. Aos 20 anos, tornou-se funcionária do Banco Nacional. “Mais tarde, fiquei sabendo pela psicóloga que trabalhava na seleção de pessoal para o banco que fui admitida pela redação que escrevi”, conta. Sonya foi demitida dez anos depois, pouco antes de o banco falir.

Na década de 90, as coisas ficaram apertadas depois que a mãe e o pai de Sonya faleceram. “Quando saí do banco, fui vender quentinhas. Depois de vender quentinhas, fiquei sem emprego, sem nada para fazer”, recorda. “Então, mandei algumas coisas que tinha escrito para Dona Marília, uma senhora para quem minha mãe cozinhava. Ela me disse: ‘Manda tudo que você tem para eu analisar. Isso não é uma redação qualquer. Tem valor e vou investir em você.’ Não acreditei. Pensei: ‘Será que é verdade?’”, conta ela.

A edição e publicação dos primeiro e segundo livros infantis da cobradora foram pagos por Dona Marília, o anjo da guarda de Sonya. Depois, quatro editoras publicaram os livros seguintes. “A segunda edição de ‘O Anjo de Chocolate’, assim como ‘Aventuras no Castelo Arco-Íris’, foi patrocinada pela RioÔnibus”, acrescenta ela.

‘Um motorista pediu para escrever uma carta à namorada’

Ao mesmo tempo, em 1999, Sonya conseguia o emprego como cobradora. E, como na infância, logo a aptidão de escritora foi novamente requisitada. “Um motorista veio pedir para escrever uma carta pra a namorada. Foi estranho, porque tive que escrever para uma mulher”, recorda. “Então, perguntei a ele do que ela gostava. Depois, me imaginei um negão, como o motorista, e comecei a escrever”, conta, para soltar uma risada em seguida.

Nas viagens, dentro do ônibus, Sonya muitas vezes tem a inspiração para as histórias. “Quando vejo meninos de rua em alguma praça, sinto vontade de escrever algo. O Aterro do Flamengo, com os vários tons de verde, e o Pão de Açúcar também são fontes de inspiração”, comenta ela. “Estou no ônibus sempre com um bloquinho. Vejo um passarinho e fico com vontade de falar do passarinho. Para mim é normal escrever. É muito fácil escrever”, complementa.

Nos livros, Sonya procurar orientar as crianças sobre temas universais, como respeito e amizade. “Vamos respeitar pai, mãe, professores. Vamos também ter forças para dizer não às drogas. Drogas não estão com nada. Droga é droga”, enfatiza a cobradora.

‘Gosto de escrever. Não dá dinheiro, mas gosto’

“Em 96, quando fiz ‘O Anjo de Chocolate’, surgiu a ideia de falar sobre uma família que tem um pai alcoólatra. Eu não passei por nada disso, mas quis levar uma mensagem às crianças que vivem esse problema”, conta Sonya. “Eu tenho que ajudar de alguma forma. No final do livro, acontece um milagre, mas não daqueles que caem do céu, porque não acredito nisso. É um milagre da batalha, da luta da vida: o pai entra para os Alcoólicos Anônimos”, ressalta.

A cobradora revela que já tem mais dois livros prontos. “Estão no tabuleiro”, brinca. Conta também que está lendo livros e sites para aprender a fazer roteiros, e sonha em fazer uma novela. Mas, antes disso, almeja reconhecimento pela literatura infantil: “Preciso colocar meus livros em uma boa livraria, mas é complicado.”

 

 

Dica do Chicco Sal

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