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Sérgio Rodrigues, na Veja.com

Estou convencido de que os livros digitais são uma nova bolha tecnológica, e de que ela vai estourar nos próximos 18 meses. Eis a razão: a publicação digital é inextricavelmente ligada às estruturas do marketing nas redes sociais e ao mito de que a mídia social funciona para vender produtos. Não funciona, e só agora começamos a ter estatísticas verdadeiras sobre isso. Quando o marketing das redes sociais entrar em colapso, destruirá a plataforma na qual se baseava o sonho de uma indústria formada por escritores autopublicados.

Em sua tentativa de demolir no “Guardian” de hoje (em inglês) a lógica da autopublicação digital – e não a do livro digital em si, embora o trecho acima não deixe isso tão claro – Ewan Morrison apresenta números desconcertantes e compra briga com muita gente, inclusive o brasileiro Paulo Coelho, um defensor da publicação gratuita na internet como estratégia para escritores se fazerem conhecidos do público.

Depois de viajar a Cuba, o escritor argentino [Julio Cortázar] iniciou uma lenta transformação. Pouco a pouco, ele deixou de buscar uma revolução cultural vanguardista que mudasse a vida e começou a defender as revoluções políticas que transformavam as sociedades. Cuba preencheu um vazio político que havia em sua vida e do qual antes não se envergonhava. A partir de 1968, ele se converteu em um militante ativo, convidado habitual a conferências e fóruns em apoio às revoluções que incendiavam a América Latina. Sua escrita também mudou. Em 1973, ele publicou o “Livro de Manuel”, um romance com estrutura vanguardista, mas com um conteúdo claramente ideológico. A fantasia deixava de iluminar as vidas surrealistas de seus personagens e começava a avivar a utopia latino-americana. Mas qual projeto tinha mais opções de triunfar? O dos surrealistas que pretendiam alterar as consciências e as vidas, ou o dos revolucionários que queriam transformar as estruturas do Estado? Cortázar morreu em 1984, quando ainda se vislumbrava a possibilidade de a revolução marxista transformar o mundo. Se tivesse vivido mais cinco anos, talvez houvesse percebido que a verdadeira revolução que mudou a vida no Ocidente foi outra, a vanguardista, a que incitava a ter uma existência beat, surrealista e apaixonada.

O antropólogo e ensaísta colombiano Carlos Granés publicou no Sabático um belo artigo sobre as raízes surrealistas (tardias) do escritor argentino Julio Cortázar, a propósito da reedição de “O perseguidor” pela Cosac Naify.

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Dickens é um estilista tão brilhante, sua visão de mundo tão idiossincrática e no entanto tão reveladora, que seria possível afirmar que seu tema é seu tratamento único de seu tema, num eco daquela frase de Mark Rothko, “O tema da pintura é a pintura” – a não ser, claro, pelo fato de que o grande tema de Dickens não era tão subjetivo nem tão exclusivista, mas incluía tanto do mundo quanto ele conseguisse abarcar. Se a prosa de ficção de Dickens tem “defeitos” – excessos de melodrama, sentimentalismo, tramas forçadas e finais felizes fabricados – trata-se de defeitos de seu tempo, ao qual, mesmo com toda a sua grandeza, Dickens não resistia, por não ser um espírito rebelde; no fundo ele era um artista das multidões, na linha do entretenimento teatral, sem nenhum interesse em subverter as convenções do romance como fariam seus grandes sucessores D.H. Lawrence, James Joyce e Virginia Woolf.

No “New York Review of Books”, a escritora americana Joyce Carol Oates resenha (em inglês) a recém-publicada biografia Charles Dickens: a life, de Claire Tomalin, e me faz mergulhar num exercício imaginativo provavelmente vão, mas irresistível: quais seriam os defeitos da grande literatura do nosso tempo, aqueles que só ficarão nítidos para os críticos do futuro?

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