O escritor brasileiro acaba de lançar no Brasil e nos EUA seu 22º livro, o romance, “Manuscrito Encontrado em Accra”

Publicado no Diário do Nordeste

Paulo Coelho, o que o motivou a escrever esse livro?

Eu vinha notando um grande vazio nos comentários dos meus leitores, significando uma falta de valores. Como a maioria é jovem e eu, com quase 65 anos, não me sinto à vontade para ensinar a juventude a se comportar, acreditei no poder da ficção. Assim, aproveitei uma cópia do manuscrito que recebi do filho de Walter Wilkinson (arqueólogo inglês, amigo de Coelho – veja matéria ao lado) no ano passado e tentei encaixá-lo em uma história. Mesmo tento lido apenas fragmentos desse manuscrito, senti-me inspirado a escrever algo que combatesse essa sensação de inutilidade que parece dominar parte da juventude.


Paulo Coelho: novo livro, “O manuscrito encontrado em Accra”, nasceu de um projeto inacabado e dos manuscritos de um amigo Foto: PAUL MACLEOD/ Divulgação

Esse livro substituiu outro, que já estava pronto?

Sim, tinha outra história pronta que estava fazia tempo arquivada no computador. Quando isso acontece, não é bom sinal, pois meu processo criativo é muito rápido. Assim, decidida qual trama seria publicada, deletei parte da anterior e escrevi a nova em 15 dias. Parece um processo fácil, mas não é – eu rezava todos os dias antes de começar a escrever para garantir forças.

Como mantém contato direto com seu público pela internet, você já percebeu alguma reação alentadora em relação a essa sensação de inutilidade que citou?

Reação tão específica assim, ainda não. Mas percebo muito entusiasmo. Para você ter uma ideia, abri uma página no Facebook sobre o livro e, apenas no Brasil, já tive mais de 10 mil comentários. Certo dia, resolvi fazer um chat relâmpago e mais 10 mil pessoas participaram. O que mais me surpreendeu foi a reação da minha tradutora para o inglês: ela nunca fizera nenhum comentário e, desta vez, disse que o livro é maravilhoso. Isso mesmo minha editora (Sextante) cometendo o erro estratégico de lançar o livro ao mesmo tempo em que saiu no Brasil o “Cinquenta Tons de Cinza” (megassucesso da inglesa Erika Leonard James, que já vendeu mais de 31 milhões de exemplares no mundo todo).

Qual o segredo de tanto entusiasmo?

Todos os livros traduzem a minha alma, mesmo aqueles que não foram tão bem nas vendas, como “O Monte Cinco” e “O Vencedor Está Só”. E, com o sucesso de Aleph, voltei ao topo da lista dos mais vendidos depois de quatro anos. Esse contato íntimo que mantenho pela internet atrai a confiança do leitor, que se envolve na promoção da obra. É por isso que a última noite de autógrafos de que participei aconteceu em 2006, em Vladivostok. Praticamente, não viajo desde 2009, com algumas exceções, como idas a Cannes e a que farei agora para Berlim, participar do Campus Party.

Nestes 25 anos de carreira, você enfrentou adversários de peso na luta pela ponta da lista dos mais vendidos, como Dan Brown, Stephenie Meyer. E, se nem sempre atingiu o topo, estava entre os dez primeiros.

Sim, desde “O Mundo de Sofia” (do norueguês Jostein Gaarder, publicado em 1991) até os recentes vampiros. O que me diferencia é a minha escrita simples sem ser superficial. Meu leitor sabe que não me envolvo com modismo, que jamais tentarei agradá-lo trilhando o mesmo caminho que trouxe sucesso para outros. Meus leitores podem gostar mais ou menos de uma obra, mas estão seguros de que não sigo fórmulas oportunistas.

Romance histórico baseia-se em manuscrito

O livro estava pronto, mas o autor continuava descontente. Fazia tempo que continuava arquivado em seu computador. “Isso normalmente não representa um bom sinal para mim, pois minhas histórias nascem rapidamente”, conta Paulo Coelho que, ao receber a cópia de um documento de um amigo, teve o estalo esperado. “Tive a inspiração e o livro ficou pronto em 15 dias”. O resultado é o romance “Manuscrito Encontrado em Accra”, sua 22 ª obra, publicada pela Sextante, que chega às livrarias com uma fornada inicial de 100 mil exemplares.

O tal documento foi enviado pelo filho do arqueólogo inglês Walter Wilkinson que, em 1974, encontrou um pergaminho originário da cidade de Accra escrito por volta do ano 1307. Foi o ponto de partida para Coelho criar a fictícia história ambientada em Jerusalém, em 1099, quando muçulmanos, judeus e cristãos preparam-se para a invasão dos cruzados. Reunidos em torno de um sábio grego conhecido por Copta, eles não discutem táticas de guerra, mas formas de perpetuar sua cultura, cientes de que não têm chances de vitória.

Próximo dos 65 anos, ocupante da cadeira de número 21 na Academia Brasileira de Letras, Coelho vive um momento harmonizado, depois de ter se submetido a uma cirurgia no coração para desobstruir artérias. Se a saúde foi renovada, sua fama continua intacta – já vendeu mais de 140 milhões de exemplares (10 milhões só de “O Diário de Um Mago”) e ainda detém o recorde do livro mais traduzido do mundo (“O Alquimista” tem versões em 69 idiomas).

Na internet, ostenta mais de 9 milhões de amigos no Facebook e 5 milhões de seguidores no Twitter, mantendo contato direto com o leitor que poucos dispõem. “Por isso que não participo mais de noites de autógrafos ou feiras literárias”, disse ele, de Genebra, na Suíça, enquanto se exercitava na bicicleta ergométrica.

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