Foto: Paula Ragucci

Gabriel Nanbu, no Vírgula

Há dez anos, no logínquo ano de 2002, Clara Averbuck lançava seu primeiro livro, Máquina de Pinball, obra livre de pudores que, com boas doses de sexo e rock’n’roll, contava as experiências de uma jovem na cidade de São Paulo. Hoje, com 33 anos, a escritora garante que ainda tem muito o que dizer por meio da literatura.

A autora prepara o lançamento de dois livros, uma coletânea de contos publicados em revistas e jornais chamada Cidade Grande no Escuro e um romance para adolescentes intitulado Eu Quero Ser Eu. Além disso, todos os livros da autora devem ser republicados em setembro deste ano pela editora Sete Letras.

No novo romance, ainda sem data de lançamento definida, a escritora conta a história de uma garota de 14 anos que não se encaixa em padrões. “A Alice é uma adolescente que não gosta do ambiente escolar. Ela se sente diferente daquilo tudo e não quer mesmo se encaixar em nada”, explica.

Em entrevista ao Virgula Diversão, Clara falou sobre seus novos projetos e confessou que ainda se sente incomodada pelo fato de muitas pessoas lembrarem dela mais por sua tumultuada participação no reality show Troca de Família, em 2011, do que por seu trabalho como escritora. “Pela primeira vez, agradeci ao universo a memória curta das pessoas, pois elas todas estão quase esquecendo esse episódio ridículo de minha vida”, disse. Confira o bate-papo.

Todos os seus livros serão reeditados, é isso?

Meus três primeiros livros só tiveram uma edição e estão todos esgotados. A editora Sete Letras, que publicou o segundo, curtiu minha proposta de republicar todos e voilá, terei uma coleção minha. As capas serão da Eva Uviedo, que fez comigo o Nossa Senhora da Pequena Morte, meu último livro.

E o que serão os seus dois próximos livros inéditos? Qual é a seu expectativa em relação a esses projetos?

Um será uma coletânea de crônicas, Cidade Grande no Escuro, com textos publicados de 2003 a 2012 em jornais e revistas. O outro, Eu Quero Ser Eu, é um romance para adolescentes.

Eu não tenho muita expectativa de nada nessa vida, sabe? Ser escritor é uma coisa complicada no Brasil. Espero apenas que meus leitores curtam, porque eu estou curtindo ambos bastante. Os dois também sairão pela editora Sete Letras. Ainda não sei quando o Eu Quero Ser Eu será publicado. O Cidade Grande no Escuro e as reedições devem sair em setembro, em algum momento.

Além disso, estou abrindo a Averbooks (averbooks.com.br), onde vou publicar meus livros em formato digital – em inglês e em português. Pretendo publicar outros livros também, de outras pessoas. Mas calma, primeiro os meus. Já tenho alguns outros nomes em mente, talvez uma coletânea com vários autores.

Fale mais um pouquinho do romance Eu Quero Ser Eu. Qual é o conflito da personagem desta vez? Por que optou por fazer um livro para adolescentes?

O estilo do romance é aquele, o meu, fluxo de consciência e o mundo ao redor da personagem. A Alice é uma adolescente que não gosta do ambiente escolar, aquelas panelinhas da juventude, sabe? Ela se sente diferente daquilo tudo e não quer mesmo se encaixar em nada. Aí ela faz uma aposta a respeito de um garoto que a menosprezou e as coisas começam a ficar um pouquinho mais interessantes para ela no ambiente.

Tudo começou como uma encomenda. O Paulo Werneck, que na época era editor da parte infanto-juvenil da Cosac Naify, me sugeriu escrever um livro para adolescentes. Curti a ideia e escrevi um capítulo. Uma amiga minha, produtora, resolveu inscrever no edital de literatura da Petrobras, e eu fui selecionada. Infelizmente, ela faleceu antes sequer de saber que isso aconteceu.

O Máquina de Pinball completa 10 anos de publicação em 2012. Olhando em retrospecto, o que significa esse livro para você? Causa algum tipo de estranhamento ler o que escreveu há mais de uma década? Quanto daquela personagem você ainda vê em si mesma?

É sempre importante repetir que eu não sou a minha personagem. É evidente que a vida serve como matéria-prima, mas é muito diferente você usar matéria-prima e você escrever um diário contandinho coisas. Houve muita confusão na época porque eu publiquei trechos do livro no meu blog, então achavam que o livro tinha sido tirado do blog, e, automaticamente, achavam que se tratava da minha vida nua e crua. Acho que vou ter que ficar desfazendo essa confusão pra sempre. Nada do que eu escrevo é “verdade nua e crua”. E mesmo que fosse: importa tanto assim? É uma história, é pra ser lida.

Não causa estranhamento, mas eu tenho um pouco de vergonha de umas partes. acho que é normal ter uma vergonhinha e querer mudar algumas coisas no seu primeiro trabalho. Por outro lado, tá lá o registro da época em que foi escrito, com todas as referências, as relevantes e as irrelevantes. Sobre a personagem em mim, ou eu nela, ainda vejo algumas coisas, ainda uso alguns aspectos para a escrita, mas boa parte que havia em mim daquela mocinha levemente descontrolada eu felizmente aprendi a controlar. Mas não muito e não tudo. O livro significa isto para mim: meu primeiro livro.

Você escreveu o Máquina de Pinball bastante nova, aos 22 anos, sem grandes expectativas. Qual conselho daria a um jovem aspirante a escritor? Ainda vale gastar energia tentando lançar um livro por uma editora?

Aos jovens escritores, sugiro apenas que escrevam com todo seu coração e cabeça e publiquem na internet o que acharem de mais legal. O resto, se vier, porque como eu disse antes, é complicado ser escritor no brasil, é consequência. E sorte, não se pode menosprezá-la.

Eu gosto de lançar coisas por editora. Gosto do livro objeto. Gosto de me ter na estante, sabe? Gosto de saber que estou na estante dos outros. Mas escrever livro esperando retorno financeiro é uma ilusão. Dá para viver de escrever, mas de escrever outras coisas, freelar, traduzir, enfim. Com o dinheiro que eu ganhei efetivamente vendendo livros não conseguiria sequer comprar um pedacinho de terra para acampar com uma barraca iglu e duas panelas de alumínio.

Uma característica da sua obra é a narrativa em primeira pessoa, a partir do ponto de vista de uma mulher urbana. Você já pensou em criar um personagem que seria o completo oposto de você, um caminhoneiro russo ou algo do tipo?

Isso eu fazia quando estava tentando achar a minha voz. Os primeiros contos que publiquei eram muito diferentes do que eu faço hoje (foram quatro na antologia Contos de Oficina, em 99). Naquela época, sentia que faltava alguma coisa nos meus personagens. Nunca inventei um caminhoneiro russo, mas tive alguns personagens bem distantes da tal mulher urbana e que não funcionaram muito bem. Pode ser que no futuro eu tente de novo, mas por enquanto eu curto bem essa moça e consigo expressar o que quero por meio dela. A personagem do Eu Quero Ser Eu tem 14 anos, mas segue essa linha, é essa mulher em formação.

Vamos acompanhar, né? Nunca se sabe o que vem pela frente nessa vida. Vai que me encomendam um livro com um jogador de futebol falando em primeira pessoa? Seria um belo de um desafio. Tenho vontade também de escrever um romance policial em algum momento dessa vida, mas é algo a ser amadurecido.

A sua filha de 8 anos, Catarina, tem contato com a sua obra literária de alguma forma? Como é a relação dela com as artes?

Ainda não, né? Ela tem nove anos, ainda não é a hora. Por enquanto ela lê Ruth Rocha. A gente busca sempre permear o ambiente artisticamente; o pai dela desenha e toca guitarra, o meu pai é músico, minha mãe é fotógrafa, enfim. Ela curte muito desenhar e toca flauta doce. Ela é criança, tem que curtir a infância, e essas são as coisas que ela curte.

O que tem chamado sua atenção em termos de música, cinema e literatura produzidos atualmente? Quais artistas, diretores e escritores?

Olha, atualmente, quase nada. Não porque eu acho tudo uma porcaria, mas porque tenho me entretido com antiguidades, mesmo. Na literatura tem a Juliana Frank, que é genial. O livro dela chama Quenga de Plástico e é demais, demais.

Como não tenho muita coisa nova pra citar, vou citar as velhas: tem uma escritora brasileira bem desconhecida que eu adoro, a Carmen da Silva. Ela meio que introduziu o feminismo no brasil através de sua coluna na revista Claudia nos anos 60, “a arte de ser mulher”. Ela é simplesmente estupenda. Infelizmente, só dá pra encontrar o romance genial dela, Sangue sem Dono, em sebos. A parte boa é que sai baratíssimo.

Outro cara que só dá pra encontrar em sebos e que eu descobri recentemente é o Alan Weisbecker, que escreveu um dos melhores livros que li nesta vida, Banditos Cósmicos, uma história maluca de um traficante que se encanta por física quântica.

Não tenho achado nada de muito interessante em bandas novas, a última que me arrebatou foi Strokes. Em compensação, o disco novo da Fiona Apple é a única coisa que escuto desde que saiu. Sou muito fã dessa mulher, ela é genial e louca e frágil e linda e intensa.

No cinema, vi todos do Alejandro Jodorowsky recentemente. Me decepcionei com o novo do Woody Allen e descobri o Abel Ferrara.

O que te inspira a escrever atualmente? Qual é o melhor estado de humor para escrever textos literários?

Me inspira o que sempre me inspirou: vontade de falar algo, seja sobre um ideal ou de cunho mais íntimo. E o fracasso, é claro. Não existe combustível melhor do que o fracasso.

Você, que teve a vida pessoal exposta de maneira brutal em razão do programa Troca de Família, passou a se interessar por reality shows e a escrever sobre eles. O que te atraiu nesse formato de programa?

Eu acho reality show um saco. Aquilo era apenas um emprego, jamais sentaria na minha casa por vontade própria pra ver gente confinada. No começo até achei interessante, mas os estereótipos apenas se repetem e cansa rapidinho. Eu nunca gostei de assistir a TV aberta.

Depois que me demiti, nunca mais vi nada. Foi ótimo, me sinto bem melhor e só assisto a filmes e ao Discovery Channel. Aquilo estava me deixando doente, ter que viver em contato com um universo que não me interessa. Eu não sou do tipo de pessoa que fica vendo as coisas para alimentar ódio ou desprezo, e era exatamente o que eu estava fazendo. Mesmo que fosse “só” um trabalho, eu não consigo deixar de me envolver com o que faço, e bem, se envolver com algo que você não gosta, entrevistar gente que você nem gostaria de saber que existe, isso não pode fazer bem.

Como feminista, não te incomoda a forma com que as mulheres são representadas nesses realities?

Acho terrível a objetificação da mulher nesses programas, mas às vezes aparece uma que salva tudo, como a Joana Machado [de A Fazenda 4], que eu achei o máximo. Realmente torci para que ela ganhasse. Foi total tapa na cara da sociedade ela passar de ex de um jogador de futebol para feliz ganhadora e detentora de R$ 2 milhões.

Incomoda o fato de você ser lembrada, por muitas pessoas, não pelo seu trabalho, mas pela traição do seu ex no Troca de Família? De alguma forma, você se arrepende de ter participado do reality?

Incomoda. Mas olha, as pessoas que me conhecem por causa do Troca de Família nem me conhecem. Elas viram três horas tendenciosamente editadas de uma semana inteira. Aquilo lá não sou eu, sou eu editada. Pela primeira vez, agradeci ao universo a memória curta das pessoas, pois elas todas estão quase esquecendo esse episódio ridículo de minha vida.

Me arrependo de ter participado porque jamais imaginei que ia dar tanta merda e que a merda daria tanta repercussão. Mas não me arrependo de ter contado o que aconteceu, porque teria sido uma tremenda injustiça pro meu lado, a forma que a coisa toda foi editada pra me fazer parecer doidona e irresponsável. Eu era uma cabaçona em tv aberta, achava que ninguém assistia àquilo, que eu ia passar uma semana fora, pegar meu cachezinho (único motivo que me fez topar fazer) e pronto.

Errei, errei. E aprendi: nunca mais me meto numa dessas. Nem por dinheiro. Na necessidade, sei lá, vendo uns tweets, uns sapatos, mas nessa fria eu nunca mais entro.

Comments

comentários

Powered by Facebook Comments