André Barcinski, no Uma Confraria de Tolos

Quando foi anunciado que os herdeiros de Arthur Conan Doyle (1859-1930) permitiriam pela primeira vez um “novo” livro de Sherlock Holmes, muita gente torceu o nariz. Não parecia uma boa idéia.

O escolhido para escrever o livro foi o inglês Anthony Horowitz, 57, famoso por sua série de livros juvenis com o personagem Alex Rider, um espião adolescente.

E não é que deu certo?

“A Casa de Seda”, o novo livro com Sherlock Holmes e que acaba de sair no Brasil, é uma ótima surpresa. Divertido e escrito com a ironia fina típica de Conan Doyle, o romance não fica nada a dever às melhores histórias de Holmes (veja minha matéria da Folha aqui).

“A Casa de Seda” traz Holmes e o Doutor Watson às voltas com um mistério envolvendo um colecionador de arte.

Fãs do detetive certamente vão gostar das muitas alusões que o novo livro faz a personagens e situações de outras histórias de Holmes.

Entrevistei Horowitz por e-mail. Aqui vai a íntegra.

Como foi seu primeiro contato com as obras de Conan Doyle?

Quando eu tinha 17 anos, ganhei a coleção completa dos romances e novelas curtas de Sherlock Holmes. Ainda tenho a edição. Lembro que me apaixonei pelo personagem e pelo mundo de Sherlock Holmes. Sempre quis ser um escritor, mas Holmes ajudou a me direcionar para a literatura de crime.

Quais foras suas primeiras impressões sobre os livros de Holmes? Você tinha um favorito?

Sempre gostei de maneira como as histórias se espalhavam por várias partes do mundo, da América e da Índia aos mais tranquilos subúrbios de Londres. Isso me inspirou, porque eu estava morando em um desses subúrbios na época. Meu romance predileto é “The Sign of Four” (“O Signo dos Quatro”). Entre as histórias curtas, minha predileta é “The Speckled Band” (“A Faixa Malhada”).

Como foi o contato dos herdeiros de Conan Doyle com você?

Eles me procuraram do nada, eu não imaginava que eles tinham a idéia de publicar um novo livro com o personagem. Só fiz uma exigência: que me deixassem em paz para criar a história, não queria discuti-la com ninguém. Queria fazer uma história nova e original, que não parecesse um mero pastiche ou homenagem.

Qual foi sua maior preocupação ao recebera tarefa de fazer um “novo” livro de Conan Doyle?

Para ser honesto, eu não tive grandes preocupações. Se eu me achasse incapaz de escrever o livro, não teria aceitado. Gosto demais do trabalho de Conan Doyle para correr o risco de estragá-lo. Acho que minha maior preocupação foi que o livro precisava ser original, ele tinha de viver e respirar no espírito de Conan Doyle.

É muito difícil emular o estilo de outro escritor?

Não achei difícil. Eu estava completamente inspirado pelo gênio de Conan Doyle, e o que ele forneceu é um presente para qualquer escritor: um mundo brilhantemente imaginado, personagens inesquecíveis e uma atmosfera incrível. A experiência toda foi muito boa.

Em uma entrevista recente, você disse que estava determinado a nunca receber uma carta de fã de Holmes dizendo: “Como você pôde escrever tal coisa?”. Você chegou a receber alguma carta assim?

Não. Felizmente, fãs de Holmes no Reino Unido e nos Estados Unidos têm adorado o livro. Algumas pessoas ficaram chateadas por eu ter mencionado (no prólogo) que Holmes estava morto. Em suas almas, o personagem nunca poderia ter morrido.

O livro faz várias alusões a outras histórias de Conan Doyle. Você faz muita pesquisa para escrever “A Casa de Seda”?

Bom, comecei por reler todas as histórias curtas e os quatro romances para lembrar porque eles eram tão bons. E sim, fiz anotações cuidadosas sobre eventos e personagens, para que pudesse utilizá-los em meu livro. Mas eu cresci lendo a literatura do século 19 e não precisei fazer muita pesquisa.

Você acha que o livro e as recentes adaptações de histórias de Sherlock Holmes para o cinema podem ajudar uma nova geração de leitores a descobrir o trabalho de Conan Doyle?

Sei que muitos leitores jovens que descobriram Holmes depois de ler “A Casa de Seda” começaram a ler os originais. Nada me dá mais prazer que isso.

Para terminar: existe algum outro escritor cujo legado você gostaria de continuar?

Bom, eu adoraria ter escrito algum romance de James Bond, mas ninguém me pediu até agora!

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