Publicado originalmente na Folha de S.Paulo

O debate em torno do esgotamento do modelo da Bienal Internacional do Livro de São Paulo levou, ontem, o editor João Scortecci, que por quatro gestões bianuais participou da diretoria da Câmara Brasileira do Livro (CBL), a distribuir uma carta com questionamentos aos cerca de 400 expositores do evento, que termina neste domingo, no Anhembi.

“A Bienal do Livro de São Paulo como ela é está morrendo”, escreveu. “O modelo não funciona mais e precisa de mudanças (…). O assunto está na mídia e nos corredores da feira. A insatisfação é geral.”

Scortecci questiona, entre outras coisas, o preço do estacionamento (R$ 30) e do ingresso (R$12), desrespeitos ao regulamento (“Chegamos ao ponto de presenciar uma bateria bem na hora de uma contação de histórias para os pequenos”) e o fato de a organização não ter previsto que o Dia dos Pais esvaziaria o evento no último domingo –os finais de semana são tradicionalmente os dias mais cheios das bienais.

Como alternativa, sugere um modelo inspirado na Virada Cultural, argumentando que “eventos de rua estão em alta”.

Na quinta-feira passada, a “Ilustrada” levantou pontos questionados por editores, autores e outros participantes da feira, como a redução da relevância cultural e do impacto comercial ao longo da última década. Karine Pansa, presidente da CBL, entidade que organiza a Bienal, disse à Folha na ocasião que seu “diagnóstico desta Bienal é o melhor possível”.

Leia a íntegra da carta:

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Carta aos expositores da 22ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo

A Festa do Livro em São Paulo

A Bienal do Livro de São Paulo como ela é está morrendo. As razões são muitas. A cada ano o interesse do público leitor e do próprio mercado do livro pelo evento diminui e já começa a apresentar baixas significativas com a não presença de editoras tradicionais como Summus, Positivo, IBP/Nacional, Nobel, Cosac Naify e tantas outras.

Não há culpados, erros ou responsáveis diretos. O modelo não funciona mais e precisa de mudanças. Optei em escrever diretamente a todos os 400 expositores e propor uma ideia a título de contribuição.

O assunto está na mídia e nos corredores da feira. A insatisfação é geral.

Hora de mudar!

Não quero com isso desafiar, ferir ou incomodar a entidade promotora e organizadora do evento, da qual sou sócio e tive o privilégio de fazer parte de quatro diretorias.

Estou no mundo do livro desde 1978, e a 22ª edição da Bienal é a minha décima participação e provavelmente a última.

Sou do tempo de quando o evento acontecia no Ibirapuera. Passamos pelo Center Norte, pelo Centro de Exposições Imigrantes e agora Anhembi.

Realizar a feira do livro no Anhembi era um sonho de muitos e sei que não foi fácil conseguir o espaço. Trabalhei para que a mudança acontecesse. Feito isso, esperávamos um Anhembi moderno, reformado, com banheiros, estacionamento e uma estação de metrô.

Infelizmente nada disso aconteceu. Nos últimos anos tivemos apenas a construção de um hotel. Nada mais foi feito.

A cada novo evento -faz parte do negócio apontar melhorias e conquistas- os problemas crônicos de conhecimento de todos não são solucionados e é dito: “Sem solução”.

No bojo do expositor as dificuldades se somam: logística, estacionamento, refeições, segurança e transporte.

Hoje pagamos 3,5 vezes o custo do metro quadrado cobrado na planta. Isso depois de contabilizarmos todas as despesas.

Tudo em nome da grandiosidade? Isso não é ser grande.

Na Bienal do Livro de 2010 pagamos 2,8 vezes o metro quadrado e na Bienal de 2008 pouco mais de duas vezes.

No fatídico Dia dos Pais o público simplesmente não apareceu.

Isso não deveria ter sido previsto?

Será que não faltou uma promoção?

Estacionamento a R$ 30 sem direito a retorno. Conquista ou perda? Lembro-me que no passado nós expositores tínhamos uma vaga grátis e/ou preferencial.

Ingresso caro. Comida cara. Banheiros sujos.

Por fim, antes de propor uma ideia (a título de iniciar o debate, ou não), o problema do regulamento que nunca é respeitado. Refiro-me ao barulho e ao uso de som. Isso não é proibido? Chegamos ao ponto de presenciar uma “bateria” bem na hora de uma contação de história para os pequenos.

Em 2014 teremos Copa do Mundo e em 2016 as Olimpíadas. Julho e agosto serão meses comprometidos para a festa do livro.

Quem sabe não seja uma boa oportunidade para mudarmos tudo? Da forma como está, não participarei mais. Decisão tomada.

A Festa do Livro em São Paulo

A Virada Cultural em São Paulo parecia já ter nascido morta. Deu certo. É hoje um evento que acontece em diversos pontos da cidade com sucesso de público, mídia e muitos patrocínios. Os eventos de rua estão em alta. O mesmo pode ser feito com a Bienal do Livro.

Na pré-Bienal deste ano tivemos uma pequena mostra de que isso é possível com a “máquina de fazer livros”, que pontuou alguns lugares da cidade e chamou bastante atenção.

A Bienal do Livro poderia acontecer em toda a cidade. Livros infantis e infanto-juvenis no Ibirapuera, livros de arte no Masp, literatura no Museu da Língua Portuguesa, didáticos e paradidáticos na USP, saldos na nova Praça Roosevelt, livros de culinária em restaurantes, moda nos shoppings e esporte no Museu do Futebol.

Não nos esqueçamos dos teatros, dos parques e das ruas. Por que não?

Precisamos sair do lugar comum.

Bairros como Vila Madalena, Praça Benedito Calixto, Parque Villa-Lobos, para ficar só na zona oeste, oferecem infraestrutura melhor que a do Anhembi.

Não nos esqueçamos das livrarias que representam 40% do canal de comercialização. Proposta: promoção de 20% de desconto em todos os livros!

Um sonho? Tenho certeza que não.

Por uma semana, São Paulo seria a Capital Cultural do Brasil. Hotéis, restaurantes, teatros, cinemas, museus, espaços culturais alinhariam suas programações com o tema Livro.

Com respeito e amizade,

João Scortecci

foto: Eduardo Knapp/Folhapress

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