Ian Leite, no Papo de Homem

É comum vermos crianças se alfabetizando com Turma da Mônica. A leitura é fácil, a junção de imagens e palavras se torna uma experiência lúdica e ajuda no desenvolvimento intelectual da garotada. Porém, à medida em que crescemos, os quadrinhos vão se acumulando nas pilhas de revistas do banheiro enquanto as estantes vão se enchendo de livros. Comigo foi parecido.

Colecionava quadrinhos até os 15 anos e parei. Não lembro se por algum tipo de pressão social ou por achar que estaria sendo mais maduro por causa disso. Comecei a me dedicar mais aos livros e acabei deixando a coleção de lado.

Quando vim para São Paulo fazer faculdade, morei com meu irmão que já estudava aqui. Percebi que ele não tinha parado de ler quadrinhos. Em suas estantes vi publicações em capa dura, encadernadas, de bom gosto. Algo feito com tanto esmero merecia atenção. Foi quando li meu primeiro quadrinho adulto – e quanto digo adulto não é de putaria. Comecei a devorar tudo que me indicavam, tudo que aparecia pela frente.

Comic store: programa dos bróders

Com a cabeça um pouco mais madura me vi cercado de novas oportunidades narrativas. Era impressionante como o autor manipulava a noção de tempo e espaço apenas posicionando quadros e desenhos, como cada personagem poderia ser interpretado apenas pela tipografia dos balões. E o mais importante, como as histórias poderiam ser tão ou mais profundas como qualquer livro ou filme.

Um pouco de história
Até pouco tempo atrás as livrarias não tinham interesse em vender quadrinhos adultos, limitando os títulos apenas às bancas e lojas especializadas. Uma realidade bem diferente de países como Estados Unidos e França, onde seções inteiras são dedicados à nona arte.

Isso deve -se ao fato de que, na trajetória dos quadrinhos, consolidou-se uma falsa impressão de que as publicações eram voltadas apenas para o público infanto-juvenil. O uso de personagens antropomorfizados e as situações fantásticas presentes em algumas publicações contribuíam para esse tipo de pensamento.

Outro fator foi a censura que as próprias editoras americanas impuseram-se na década de 50, depois que um psiquiatra publicou o livro Seduction of the Innocent, uma tese sobre a má influência que os quadrinhos causavam nos jovens. Isso fez com que o conteúdo das revistas fossem infantilizados, banindo cenas de violência, alusão à drogas, sexo, etc.

Na década de 60, o americano Robert Crumb foi um dos precursores de um movimento que mudou esse cenário, os comix (com x de x-rated). Uma de suas maiores criações foi Fritz, The Cat, um gato boêmio, hedonista e com grande apetite sexual, que comia todas as gatinhas – literalmente – que via pela frente.

Infantil? Olhe de novo.

Autopublicando-se e fazendo enorme sucesso no meio underground, Crumb ajudou a abrir as portas de uma revolução nos quadrinhos.

Will Eisner, por uma via menos escrachada e underground, também ajudou a mudar esse paradigma, criando o termo graphic novel e publicando histórias mais sérias e com conteúdo mais denso. Eisner é tido como um dos artistas mais importantes dos quadrinhos, tendo emprestado seu nome para o “oscar” do gênero, o Eisner Awards.

Acredito que a influência desses dois artistas foi extremamente importante para toda a produção subsequente, dando credibilidade e desmistificando velhos padrões. Hoje podemos ver uma grande diversidade de temas abordados em quadrinhos, desde biografias até filosofia e sexo. Tem para todo o gosto.

Quadrinhos como arte
Em tempos de reprodutibilidade técnica, onde uma impressão da Mona Lisa pode ser encontrada a cada esquina, a arte adquire valores diferentes do que tinha há dois séculos atrás. É claro que na maioria dos casos, o quadrinho tem o propósito de atingir um público alvo, de vender. Mas isso não o exclui – assim como o cinema e a literatura – de serem analisados sob uma ótica artística.

Se formos nos ater a detalhes, percebemos o quão minucioso é o trabalho dos quadrinistas. Anatomia, sombra, enquadramento, roteiro, técnicas com nanquim e pena, aquarela, tudo pode ser envolvido em um trabalho.

Arte sequencial feita por… Pablo Picasso

Quando se trata de quadrinhos autorais, isso ainda é mais evidente. Do mesmo jeito que reconhecemos o estilo que Truffaut e Saramago contam suas histórias, podemos identificar marcas autorais no trabalho dos brasileiros Fábio Moon e Gabriel Bá, por exemplo.

Recentemente, Rafael Coutinho, filho do cartunista Laerte, criou o projeto Gazzara. Pediu para diversos artistas criarem histórias de 4 páginas, que ao invés de serem publicadas no formato de livro/revista seriam impressos como pôsteres. A premissa é que lugar de quadrinho é na parede, como uma pintura. Porque não?

Hoje em dia leio quadrinhos tanto quanto leio literatura. Me emociono, me identifico, me apaixono pelas narrativas. Meu olhar se adaptou a outros tipos de referência, me sinto mais completo intelectualmente. É uma plataforma que exige outro tipo de percepção, não é melhor nem pior do que qualquer outra forma de expressão.

Portanto, na hora que a gatinha intelectual perguntar o que tem feito, não tenha vergonha de dizer: estou lendo quadrinhos.

dica do Thiago Mendanha

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