O escritor argentino Alberto Laiseca disse que as pensões dão dignidade para “quem trabalhou a vida inteira pela literatura”. Buenos Aires oferece pensões de até US $ 900 por mês para escritores idosos

Simon Romero, no O Povo

BUENOS AIRES — Não é o bastante para essa cidade exibir livrarias cavernosas que ficam abertas até depois da meia-noite, amplas avenidas já percorridas por gigantes literários como Jorge Luis Borges, ou mesmo um bizarro arranha-céu neogótico —o Palacio Barolo, inspirado na “Divina Comédia” de Dante.

Hoje, os escritores têm mais um motivo para viver aqui: pensões mensais.

A cidade de Buenos Aires hoje dá pensões para autores publicados, em um programa que tenta reforçar a “coluna vertebral da sociedade” como os redatores da lei, que foi aprovada no fim de 2009, descreveram seu objetivo.

Desde sua entrada em vigor recentemente, mais de 80 escritores receberam pensões que podem chegar a US$ 900 por mês, complementando suas aposentadorias muitas vezes magras.

“O programa é magnífico, dando certa dignidade àqueles que batalharam a vida inteira pela literatura”, disse Alberto Laiseca, 71, um dos beneficiários, que escreveu mais de uma dúzia de livros de terror, incluindo “O Jardim das Máquinas

Falantes” e “As Aventuras do Professor Eusebio Filigranati”.

As pensões refletem como a Argentina buscou reforçar o que já é uma das mais fortes tradições literárias no mundo de fala hispânica.

Borges, o aclamado escritor de contos e poeta, é facilmente lembrado, mas a Argentina também se orgulha de clássicos como “Facundo: Civilização e Barbárie”, uma pedra de toque do século 19 da literatura latino-americana, de Domingo Faustino Sarmiento, que mais tarde foi presidente da Argentina.

O país produziu uma série de outros escritores renomados no século 20, como os romancistas Ernesto Sábato e Roberto Arlt, e recentemente Buenos Aires desfruta de um ressurgimento literário.

Dos 22 autores escolhidos pela revista “Granta” como melhores jovens romancistas que escrevem em espanhol, oito são escritores argentinos.

As pensões salientam que o país atualmente se sente como em uma realidade alternativa. Enquanto alguns países europeus debatem medidas de austeridade que visam conter grandes deficits orçamentários e reduzir a expansão do Estado assistencialista, a Argentina aprofunda a atuação do seu.

Sob a presidente Cristina Fernández de Kirchner, o gasto social sofreu em outras áreas. Mas enquanto o crescimento econômico desacelera em meio à inflação galopante e uma contenção no acesso ao dinheiro, cresce a preocupação de que os gastos não sejam sustentáveis.

As exigências para obter a pensão literária do Estado são bastante rígidas.

Um escritor deve ter pelo menos 60 anos e ser autor de ao menos cinco livros lançados por editoras conhecidas.

As pensões se limitam a escritores de ficção, poesia, ensaios literários e peças de teatro.

Cada pensão se destina a elevar a renda de aposentadoria dos escritores ao nível do salário básico dos servidores públicos municipais.

“Preferimos não chamá-la de pensão, mas sim de um subsídio em reconhecimento pela atividade literária”, disse Graciela Aráoz, uma poeta que é presidente da sociedade argentina de escritores.

“Tem a ver com reforçar o ato prazeroso de ler, que impede que nos transformemos em zumbis”, explicou ela.

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