Não é fácil para o consumidor escolher entre tantos livros lançados

Paulo Nogueira, no Diário do Centro do Mundo

Está na lista das reportagens mais lidas do NY Times, mas o assunto já vinha gerando uma boa discussão na internet há algum tempo.

O protagonista é o americano Todd Rutheford. Ele montou um negócio que vende o seguinte: resenhas cinco estrelas que vão, em geral, parar na Amazon.

Uma resenha custa 49 dólares. Um pacote de 20, 499. Cinquenta, 999. Rutheford faz tudo às claras. Em seu site, ele anuncia candidamente o seu produto. A grande mídia é que demorou para notar: ele não se escondeu. Não pode ser acusado de propaganda enganosa, e nem de anunciar uma coisa que não vende.

Sozinho, ele não daria conta das encomendas. Por isso, contrata jovens redatores. É um trabalho fácil para eles. Não é necessário sequer ler os livros altamente elogiados. Uma pesquisa no Google, uma passagem pela orelha e pronto: o mais é dizer que o livro é um suspense eletrizante etc etc – a rigor, todos os clichês consagrados pelos críticos profissionais.

Resenhas de leitores são mais acreditadas por consumidores de livros do que as resenhas da mídia ou a publicidade convencional. Rutheford viu nessa verdade básica uma oportunidade de ganhar dinheiro. Especialistas calculam que um terço dos depoimentos de consumidores de variados produtos seja fajuto.

A Amazon não se pronunciou até aqui. Mas ela vai ter que encontrar defesas contra resenhas encomendadas industrialmente, ou suas recomendações ficarão sob suspeita. Sou um freguês frequente da Amazon. Embora quase sempre faça a compra de algo que já tenho em mente, muitas vezes examino as resenhas de leitores. Muita gente faz isso.

Ruthford começou trabalhando numa editora. Batalhava para conseguir que as publicações resenhassem livros de sua empresa. Esta é uma luta épica, dado o número de lançamentos de livros – e o reduzido espaço que a mídia tradicional reserva a eles.

A internet mudou o jogo, e Rutheford viu que poderia montar seu próprio negócio num ramo que conhecia bem, o das resenhas. Não precisava mais que o editor de livros do NY Times, por exemplo, publicasse uma resenha de algo de sua editora. Bastava ele próprio produzir e publicar resenhas em sites como a Amazon – e cobrar por isso.

É um empreendedimento de baixo nível ético. Mas de falta de transparência ninguém pode acusar este peculiar empreendedor digital.

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