Biografia mostra outro lado do mais famoso físico. Foto: Getty Images

Biografia mostra outro lado do mais famoso físico
Foto: Getty Images

Publicado originalmente no Terra.com

Albert Einstein já teve seu nome como título de obras biográficas, porém poucas focaram em sua personalidade paradoxal e polêmica. Desprezo pelo sexo feminino, comportamento injusto com seus colegas de trabalho, erros de cálculo, falta de empatia pelos próprios filhos. Estes são alguns dos fatos revelados pelo físico e biológo alemão Jürgen Neffe em Einstein – uma biografia, pela Novo Século. Segredos e paixões antes desconhecidos pelo público aparecem nas 528 páginas da obra lançada em 2005 e traduzida recentemente para o português.

Na biografia inédita no Brasil até este ano, Neffe procura apresentar o Einstein que existiu por trás dos números e das teorias físicas. O pai da Teoria Geral da Relatividade é apresentado como um ser humano em meio a tantos outros e não como um alguém acima de todos. Em entrevista exclusiva para o Terra, o autor fala sobre o processo de produção da biografia e sobre a personalidade fascinante que o levou à máquina de escrever.

Terra – No início do livro, o senhor descreve Einstein como um personagem paradoxal, alguém que personifica muitas contradições. Como essa personalidade aparece em seu relacionamento com as pessoas e nos seus estudos sobre Física?
Jürgen Neffe – Não são todas as pessoas cheias de contradições? Para mim, era uma questão de “relativizar” Einstein, de representá-lo como um homem entre os homens, não como um semideus. No livro, eu mostro também o seu lado escuro: o seu comportamento normalmente pouco correto e justo para com os colegas, os seus pensamentos que tomaram caminhos errados. Mas, principalmente, suas fraquezas pessoais na maneira de lidar com sua mulher e, até mesmo, com seus dois filhos.

Terra – Como o senhor chegou às informações publicadas no livro?
Neffe – Principalmente através de arquivos, como a Coleção de Artigos de Albert Einstein (original de Jerusalém, com cópia completa em Pasadena, Califórnia), mas também por meio de coleção de jornais da época, documentos de universidades e institutos científicos, como a Sociedade Max-Planck e o Instituto de Estudos Avançados em Princeton. Também usei livros sobre Einstein, em particular, obras antigas e biografias esquecidas sobre ele. Foi preciso, é claro, fazer muitas entrevistas e visitas a lugares de sua vida para montar parte da narrativa do livro.

Terra – Qual foi a descoberta que o senhor considerou mais interessante sobre a vida de Einstein?
Neffe – Ver o que sua vida e seu trabalho significam para o nosso tempo. O porquê de ele ter se sobressaído como pesquisador na área das ciências exatas. Enfim, como o mito surgiu e se modificou.

Terra – Alguma informação descoberta pelo senhor mudou sua ideia sobre ele?

Neffe – Eu diria que mudou minha visão em duas direções. O meu conceito sobre ele como cientista melhorou durante o meu trabalho, enquanto o sobre a sua personalidade se tornou pior.

Terra – Como a personalidade de Einstein influenciou na formulação de seus estudos mais importantes, como na Teoria Geral da Relatividade e nos estudos sobre Física Quântica?
Neffe – Sua integridade intelectual, sua capacidade de fazer perguntas, que ninguém havia feito antes, e sua intrepidez contribuíram muito para que ele pudesse superar horizontes do seu tempo e pisar em novos territórios.

Terra – Em 1933, Adolf Hittler tomou o poder, e Einstein teve que se mudar para Princeton, nos Estados Unidos. Como foi a sua adaptação ao país? Ele chegou a se sentir um verdadeiro cidadão americano?
Neffe – Neste momento, Einstein já era um cidadão do mundo – com passaporte suíço. Sua naturalização aos Estados Unidos foi mais uma questão mais prática do que de natureza patriótica. A língua foi um fator decisivo que impediu que Einstein se sentisse realmente em casa nos Estados Unidos. Se ele tinha um lar, esse era na comunidade internacional de cientistas e no seu idioma. Todos os seus assistentes no país deviam falar alemão. Depois da Segunda Guerra Mundial, ele se encontrou na Era McCarthy e foi tido como suspeito de espionagem e – falsamente – acusado de ser o responsável pela bomba atômica. Por causa do que trouxe para o país, os americanos nem sempre facilitaram as coisas para ele.

Terra – Como foi sua aceitação de que não poderia mais voltar à Alemanha por causa do regime nazista?
Neffe – Einstein odiava os nazistas e por motivos compreensíveis. Não só pela perseguição aos judeus, mas também aos intelectuais livres da ciência e da arte. Depois de 1945, ele transmitiu sua aversão à Alemanha e aos que contribuíam para o sistema. Por causa disso, ele não queria ter nada a ver com sua terra natal – mas ficou feliz quando estudantes pediram para nomear uma escola com o nome de Albert Einstein.

Terra – Há uma grande variedade de biografias de Albert Einstein. Algumas extensas e detalhadas, como “Subtle is the Lord”, de Abraham Pais. Outras visam explicar de maneira simples as teorias do físico alemão, como “Einstein’s Cosmos”, de Michio Kaku. Como você descreveria seu texto? Uma obra mais detalhada do Cientista? Para todo o tipo de público ou para aqueles mais apaixonados pela história do físico?
Neffe – No meu livro eu tento combinar muitas coisas: em concentrar em Einstein, o ser humano com todos os seus lados e falhas, crenças religiosas, preferências culturais e culinárias, sua configuração psicológica. Eu criei um novo quadro para mostrar o gênio atrás das teorias. Seu pensamento é definido em relação à história da ciência, da Antiguidade aos tempos modernos, mostrando sua forma de pensar em uma linhagem com estes homens, nos ombros dos quais ele se suporta, até os nossos dias quando suas previsões teóricas estão sendo examinadas e verificadas. Meu texto, como a mídia americana disse, “é lido como um romance”. Eu pego meus leitores pela mão e caminho com eles através desse mundo, e também introduzo lugares e pessoas que trabalham e tratam de seu legado hoje. E, como um jornalista científico e autor – assim como outros físicos, como Pais e Kaku -, eu tento fazer o pensamento de Einstein compreensível para pessoas leigas sem usar fórmulas.

Terra – Einstein já foi eleito o maior físico da história e a personalidade mais importante do século XX. Por que um cientista alcançou tamanha notoriedade? O que fez o cientista ser tão popular, inclusive em vida?
Neffe – Não existe outra pessoa como ele; o gênio que descobriu o fim do universo e explicou o funcionamento do menor dos mundos – o que veio a ser a física quântica -; a voz política; o cientista que tomou responsabilidade mais o profeta que nos deu a fórmula para o futuro do mundo nos fundamentos da cosmologia que ele colocou na relatividade geral. Ele era como Muhammed Ali, que foi convidado por reis e presidentes para ficar cada vez mais mítico, como sabemos, na segunda metade de sua vida.

Terra – Existem muitos mitos sobre Albert Einstein. Um deles diz que ele era um mau aluno, que rodava em provas de matemática e brigava com professores. Outro que era muito religioso. Quais dessas afirmações eram verdadeiras e quais são apenas lendas?
Neffe – Existem tantos que eu temo que você precisará ler meu livro. Aqui estão alguns:
Ele era um estudante ruim apenas em esportes. Ele era brilhante em física e muito bom em matemática. Como esperado.
Oh, sim, ele discutiu com seu professor e finalmente se sentiu forçado a deixar a escola em Munique e terminar os estudos na Suíça.

Ele não era religioso no completo sentido de pertencer ao judaísmo. Ele não seguia nenhum rito e ritual e era criticamente engajado no que chamou de tribo judaica – fora da comunidade religiosa.
Ele não usava meias.

Ele não inventou a bomba atômica.
Ele era um ser humano com um cérebro como o de muitos outros.
Sua mulher não inventou a relatividade – mas como física, ela ajudou um pouco.
Ele não era vegetariano, ele amava carne – e morangos.
Ele tinha noção de seu engraçado corte de cabelo, até o preparava antes de ser fotografado e usava a imagem para ajudar seu mito a se propagar.

Terra – Muitos físicos criticam que as últimas décadas de vida do pesquisador foram desperdiçadas em uma busca inútil de uma “teoria do tudo”. Qual é sua opinião?
Na verdade, ele começou pensando em combinar o mundo do gigante – universo – e do minúsculo – as partículas elementares -, ou seja, a relatividade geral com a física quântica a partir de aproximadamente 1920, o que significa que ele teria perdido 35 anos. Ele não teve sucesso, mas, levando em conta que essa fórmula não foi descoberta até hoje, ele não perdeu seu tempo e nos deu muitas contribuições úteis – a mais conhecida é o paradoxo Einstein-Podolski (o nome completo é paradoxo Einstein-Podolsky-Rosen, o qual questionava pontos da mecânica quântica). Eu não conheço nenhum físico que o critique por tentar, mas por confiar apenas na matemática para encontrar uma “bela fórmula” ao invés de usar a física e o mundo (real) físico.

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