Danilo e sua biblioteca (Foto: João Viana)

Publicado originalmente no Blog do Tas

Danilo Bezerra Vieira é um adolescente que vive no sítio Três Altos, zona rural de Almino Afonso, interior do Rio Grande do Norte. Dentro da própria casa, Danilo iniciou uma pequena revolução no bairro e na sua vida. Transformou a sala da casa onde mora com os pais– o agricultor Francisco Vicente Vieira, 53 anos, e a dona de casa Mara Núbia Bezerra, 40 anos – numa Biblioteca Comunitária Juscelino Kubitschek. Atualmente são 2.137 livros, todos catalogados à mão, pois não tem computador.

Abaixo, em entrevista exclusiva ao Blog do Tas, Danilo conta esta história. Fica a dica para os candidatos a prefeito e vereador, campeões de blablablá, aprendam a ter idéias e como fazer as coisas com o Danilo.

Blog do Tas – Quando você começou, em 2008, a desenvolver a biblioteca JK tinha apenas 15 anos. De onde veio o seu maior incentivo para esta iniciativa?
Meus pais sempre incentivaram meus estudos e mostraram a mim como é difícil viver com pouco dele. Desse incentivo eu passei a buscar formas de obter isso e comecei a ganhar livros para contribuir nessa vontade. Eram tantos que eu quis tornar isso útil a várias pessoas, dai montei um biblioteca comunitária dentro da minha casa como uma forma de ajudar na melhoria da nossa educação.

Blog do Tas – O que foi mais difícil para a materialização desse projeto e reconhecimento do mesmo?
O mais difícil foi à questão do espaço físico e do apoio de pessoas. Não tínhamos sede e tudo era muito arcaico, porém isso não impediu que eu fizesse e não realizássemos nossos primeiros serviços à comunidade. Nem mesmo muito dos meus familiares acreditavam nesse meu projeto, mas contei com a ajuda dos meus pais, dos meus professores e de nossos primeiros admiradores para erguer esse sonho.

Blog do Tas – Qual foi o retorno dessa experiência, no sentido de aprendizagem e crescimento, para você?
Sem dúvidas, o grande aprendizado que eu tiro em qualquer lugar é que podemos reescrever a nossa história. Mesmo em um sertão árido, sem muita infra-estrutura, é possível buscarmos a melhoria de vida através dos estudos. Nunca fiz a Biblioteca JK pensando em mim, mas nos muitos jovens que assim como eu queriam que alguém apostasse neles e ajudassem.

Blog do Tas – Como você conseguiu trazer a comunidade para “dentro” da biblioteca? O que a população achou da sua iniciativa?
Um dos grandes diferenciais da “JK” é que ela fica dentro da minha casa, dentro da minha família, então posso dizer que ela tem o aconchego da minha experiência de vida. Os problemas de muitas bibliotecas é que elas não sã atrativas, não inovam. Eu creio que é porque quem chega à minha casa é recebido não como um leitor, mas como um amigo que veio buscar o conhecimento.

Blog do Tas – Atualmente você cursa jornalismo na UFRN. Como ficou a administração da biblioteca? Quais são os planos para o futuro do projeto?
Bem, eu comecei no início de agosto o curso de Jornalismo 2012.2 na UFRN. Creio que seja eu o primeiro a ingressar em uma universidade federal da minha família, e com isso me transferi para Natal e minhas atividades ficaram com a minha mãe Mara Núbia, que desde o início esteve me ajudando em tudo, e a própria comunidade ajuda no que for preciso. Junto com o Governo do RN iremos construir a sede da Biblioteca Comunitária Presidente Juscelino Kubitschek e darmos um maior alcance a nossos trabalhos. No futuro eu quero que ela seja um instituto.

Blog do Tas – Que mensagem você deixa para os jovens que têm sonhos parecidos? E para os responsáveis pela a educação?
Aos jovens eu quero dizer que é necessária audácia e muita vontade aliada à determinação para que possamos, não somente realizar sonhos, mas vencermos e vivermos melhor. Aos nossos governantes quero dizer que enquanto a educação não for o maior foco de nossas discussões, enquanto escândalos tiverem mais destaque (como o Mensalão) do que os dados da nossa educação (como o IDEB), ainda não seremos um país que fará o grande e tão merecido futuro a está nação. Não generalizo, mas enfoco isso.

Blog do Tas – Na sua opinião, o que o governo precisa fazer para oferecer educação de qualidade para a população?
Acho que devemos priorizar a educação de base. Demos um salto imenso no ensino superior, mesmo com a greve que enfrentamos, o estudo está cada vez melhor e com mais oportunidades de ingresso, mas sabemos que nossa educação é disposta como funil, muita base e pouco topo, daí creio que se ofertamos uma educação de base melhor, depositando uma responsabilidade e preocupação nesses primeiros anos de ensino, a educação irá melhorar muito pois investiremos no futuro.

Blog do Tas – Como foi participar do Concurso de Redação do Projeto Jovem Senador? Do que se tratava a sua redação e porque acha que ela foi uma das selecionadas?
Foi uma experiência única. Viver e saber como funciona uma das instituições mais importante desse país é algo que eu aconselho a todos, pois dá uma nova visão do sentido de ser cidadão. Minha redação falava sobre os 50 anos de Brasília. Tenho uma enorme paixão por JK, e escrever sobre a sua ‘filha caçula’ foi para mim um privilégio. Acho que a emoção chamou a atenção da banca julgadora.

Blog do Tas – Quais pontos significativos você destacaria dessa experiência?
Entender como é o nosso processo político legislativo, entender como funciona o Congresso e ver que existe muito mais do que se noticia na televisão, sentir como é ser representante de um Estado (no meu caso representei mais de dois milhões de potiguares), interagir com outros jovens de todos os cantos do Brasil e testemunhar a história. Onde os jovens não tinham vez agora temos voz e poder de decisão. Aprendi que a política não é algo distante e obscura, é algo que interfere no dia-a-dia de todos nós.

Blog do Tas – Depois dessa experiência, qual sua conclusão sobre sistema político brasileiro?
É fato que esse sistema tem vários erros, vários corruptos, coisas que envergonham nosso país todos os dias, porém percebi que ele também é a única forma de reverter isso. Devemos ter a noção de que existe a Política e o político, a primeira é o nosso principal instrumento de busca para a tão desejada Democracia Plena, e o segundo é o elemento que pode ajudar ou impor seus interesses próprios como objetivos. Não condeno esse sistema, pois cabe a nós melhorá-lo.

Danilo virou “case” do IPEA, Fundação Pública vinculada ao Governo Federal

dica do Chicco Sal

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