Raquel Cozer, em A biblioteca de Raquel

Caio Fernando Abreu deve ultrapassar Clarice Lispector em créditos de frases (próprias e alheias) nas redes sociais nos próximos meses. Essa é a má notícia. A boa é que 116 poemas que ele fez ao longo da vida, desde a adolescência, nos anos 60, até duas semanas antes de morrer, em fevereiro de 1996, estarão reunidos pela primeira vez em livro, previsto para outubro.

A notícia saiu hoje no Painel das Letras, e coloco acima o fac-símile publicado apenas na versão impressa da coluna.

A edição é o resultado do belo trabalho da professora Marcia Ivana Lima e Silva, do Instituto de Letras da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, que em 2005 recebeu o material de Luciano Alabarse, amigo do escritor. O trabalho já rendeu uma tese de doutorado, apresentada por Letícia da Costa Chaplin, que ajudou Márcia a organizar os poemas e foi orientanda dela.

Como estudiosa de Caio Fernando, Marcia conhecia os pouquíssimos poemas que ele chegou a publicar em suplementos, menos de meia dúzia. Um outro aparece como letra de música em “Onde Andará Dulce Veiga?”. O que a surpreendeu foi a vastidão do material que ele produziu e organizou em pastas (alguns poemas aparecem com até cinco versões diferentes) sem ter optado por publicar, sendo que são tão similares na temática ao que ele produzia em prosa.

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Teria sido isso falta de iniciativa dele ou resultado da dificuldade em se publicar poesia no Brasil? Pode parecer estranho imaginar que Caio Fernando não conseguisse emplacar um livro de poemas, mas essa barreira existiu até depois que ele já era postumamente celebrado.

Antes de oferecer o  material à editora Record, Márcia procurou a Agir, então detentora da prosa do autor (agora ela está com a Nova Fronteira, do mesmo grupo Ediouro). A Agir recusou o material, diz ela, porque poesia não vende. A Nova Fronteira acaba de publicar outro livro de inéditos, com crônicas que Caio Fernando escreveu para o Estadão. Não tão inéditas quanto a imensa maioria dos poemas, nunca publicados nem em jornal.

Questionei a editora a respeito, e recebi, depois de fechar a coluna, a informação de que o antigo agente do autor teria pulverizado sua produção, “então, basicamente, a poesia ficou com a Record, a correspondência ficou com a Aeroplano e a prosa com a Nova Fronteira”.

O fato é que a Record teve interesse. Imagino que o material poderia até ter entrado em leilão se fosse oferecido a mais editoras. Mas Márcia é uma professora de literatura interessada em divulgar a obra de Caio, não uma agente em busca de faturamento. Lamento só que a Record não tenha optado por uma edição fac-similar, que sai mais caro, mas permitiria entender todo o processo de criação do autor. Pode ficar para uma próxima. Quem sabe?

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