Especialistas analisam o que alimenta a crescente onda de obras sobre a temática

Ana Clara Brant, no UAI

Editora Paralela/divulgação

Toda sua, de Sylvia Day, é vendido como livro mais bem escrito que Cinquenta tons de cinza, de E. L. James

Desde que Cinquenta tons de cinza, de E. L. James, virou febre mundial e se transformou em um dos livros mais vendidos em todo o planeta, várias publicações com temática erótica passaram a ser lançadas ou mesmo relançadas. Toda sua, de Sylvia Day, também uma trilogia assim como Cinquenta tons; Falsa submissão, de Laura Reese; Uma sedução por semana, de Betty Herbert; e Cinquenta tons de prazer, de Marisa Bennett, são alguns exemplos de obras que começam a conquistar os leitores, e principalmente, as leitoras.

Para a doutora em filosofia pela Universidade de São Paulo (USP) Clara Carnicero de Castro, estudiosa da literatura libertina e do Marquês de Sade, sempre houve interesse pela literatura erótica, mas hoje em dia talvez seja menos velado do que no passado. “Por um lado, a sexualidade está em todo lugar, nas novelas, nos reality shows, nos filmes, nas músicas, nos jornais. Há, portanto, menos preconceito em relação ao sexo e mais abertura para o erotismo. Mas, por outro aspecto, com a internet e as redes sociais, as modas se disseminam com força suplementar”, destaca.

A professora da Faculdade de Letras da UFMG Vera Casa Nova, que ministra cursos sobre a relação entre a literatura e o erotismo, também acredita que, de maneira geral, há interesse maior tanto por erotismo como por pornografia. Ela acha que vêm ocorrendo mudanças desde a exibição de filmes pornôs, na década de 1960, em ambientes abertos e fechados. E depois, com a emancipação das mulheres e dos gays com relação à sexualidade. “Isso vem ocorrendo porque há identificação com os prazeres mostrados e as pessoas gostam de ver e ler pornografia, que é diferente de erotismo. Erotismo mexe com a relação da vida e da morte, já que tem a questão da reprodução, dos cheiros, dos instintos. Pornografia é o escândalo do olhar, tudo é exagerado e não há sensibilidade com relação ao corpo do outro”, afirma a professora.

A grande maioria desses livros foi escrita por mulheres e é consumida por elas também. De acordo com Vera, o público feminino se torna alvo porque há maior identificação delas com o prazer do que no caso dos homens. “Mas não significa que eles não leiam esse tipo de literatura. Porém, os homens são mais de assistir aos filmes do que ler livros sobre o assunto. Desde os gregos e romanos, há literatura erótica e acho que as pessoas buscam isso por uma questão de enriquecimento de suas fantasias”, afirma.

SADE Apesar de muita gente enxergar uma relação próxima entre a obra do revolucionário e libertino francês Marquês de Sade e a literatura adulta atual, boa parte dos especialistas contesta essa identificação. Para Vera Casa Nova, não há nada em comum entre Sade e as obras atuais, porque enquanto no primeiro se destaca a questão política e ele utiliza o objeto de desejo como arma, nas publicações recentes, como o próprio Cinquenta tons de cinza, há mais libertinagem do que a liberdade em si.

Já a doutora em filosofia Clara de Castro defende que Sade é literatura muito complexa, que tem extenso conteúdo filosófico, que é intrínseco ao erótico, e aborda temas radicais demais para o gosto do grande público. Ainda segundo a pesquisadora, os romances e diálogos libertinos da mesma época (século 18) são mais leves e acessíveis, porém também são textos sofisticados cujo princípio é tratar a lubricidade a partir da reflexão, unindo-a à filosofia. “Talvez essa relação fique mais clara com uma frase de uma personagem de Sade: ‘Não basta experimentar as sensações; é preciso também analisá-las: às vezes, é tão doce saber falar delas como saber delas gozar e quando não podemos mais fazer o último, é divino nos lançaremos ao primeiro’. Não me parece que a autora de Cinquenta tons de cinza tenha alguma preocupação nesse sentido. O sexo seria talvez mais um acessório para tornar o texto atraente do que de fato o prato principal e o desencadeador de uma reflexão sobre o homem”, analisa Clara.

No mundo virtual 

Boa parte da literatura adulta disponível no Brasil é de autores estrangeiros, especialmente mulheres. Mas um escritor brasileiro e de Belo Horizonte, L. Midas (é assim que ele prefere ser identificado), lançou recentemente o tórrido romance Redes sensuais em que apresenta ao público o perigo das redes sociais com abordagem envolvente, com muitas reviravoltas, beijos virtuais, segredos inconfessáveis e, claro, muito sexo.

“O leitor não somente se identifica com as situações, com os personagens, mas até mesmo com o cenário da história. Tudo feito com o intuito de trazê-lo para dentro do livro, literalmente caminhando lado a lado com os personagens, vendo aquilo que eles veem. E, para a turma acima dos 35 anos, um bônus especial é reviver os locais da moda dos anos 1980-90, como, por exemplo, o Amoricana, Fim de Tarde e L’Apogee. Quando o leitor percebe, ele mesmo já perdeu a noção do que é real e do que é forjado”, resume o escritor, que vive na Suécia. Para L. Midas, o estrondoso sucesso de Cinquenta tons de cinza realmente catapultou o assunto sexo na literatura para a primeira página de todos os jornais do mundo, e tanta discussão impulsionou o apetite das editoras. “Cinquenta tons… pelo menos serviu para detonar esse preconceito.

Provavelmente, o gênero, nos próximos meses, sofrerá uma ‘inflação’ de livros – a maioria cópias descaradas – mas quem sabe até mesmo autores consagrados não se aventurarão a escrever algo mais tórrido? Acredito que os leitores só têm a ganhar com isso”, opina.

Enquanto isso… Conto de fadas erótico 

A escritora Anne Rice, que ficou famosa com seu primeiro romance, Entrevista com o vampiro, e que inclusive, foi parar nas telonas, resolveu criar nova versão para um dos contos de fada mais famosos dos Irmãos Grimm: A bela adomercida. Com o pseudônimo de A. N. Roquelaure, Anne escreveu a trilogia erótica da princesa (Os desejos de Bela Adormecida, A punição da Bela, A libertação da Bela), em que o príncipe desperta a amada não com um simples beijo, mas com o sexo e a submete a todos os seus desejos.

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