E L James. Depois de sacudir o mercado editorial, inglesa procura roteirista para o filme da saga
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Publicado originalmente no O Globo

Uma mulher risonha, simpática, que responde às perguntas mais escabrosas sobre sadomasoquismo com um misto de vergonha e orgulho. Essa é Erika Leonard, mais conhecida como E L James, autora da trilogia “Cinquenta tons”, que vem turbinando as vendas editoriais no mundo. Só no Brasil, foram 260 mil exemplares de “Cinquenta tons de cinza” em apenas 40 dias. Neste fim de semana, chega às livrarias o segundo volume, “Cinquenta tons mais escuros”. A criadora de Anastasia Steele e Christian Grey fala aqui sobre a concepção da obra, seus personagens, a adaptação para o cinema, sua vida conjugal, e, claro, sexo.

Por que a trilogia fez tanto sucesso?

É uma história de amor apaixonante, um conto de fadas. É narrada na primeira pessoa, você vive o que Ana está experimentando. Há sexo selvagem. Mulheres certamente gostam de ler sobre isso. E também porque uso uma linguagem que não assusta as pessoas.

As situações narradas são factíveis na vida real?

É tudo fantasia. Christian e seu estilo de vida. Ele é incrivelmente rico, realizado, excepcional dentro e fora da cama, um mistério. Você tem uma ideia do que está acontecendo com ele, mas não sabe ao certo. Acho que as mulheres estão conscientes disso. É como ver um filme. É como aceitar Hogwarts (a escola de mágicos de “Harry Potter”). E depois, você volta para o mundo real.

Então Christian é uma versão moderna do príncipe encantado?

Levando em conta que é uma história romântica, com paixão e amor, então, sim, ele é um príncipe. Ele é o tipo de pessoa que quando decide fazer algo, faz bem. Mas eu acho que ser igual a ele… seria bem cansativo.

Você acha que os seus livros agradam tanto aos homens quanto às mulheres?

Eu escrevi o livro para mim mesma, usando as fantasias que estavam perdidas na minha cabeça. Então fico bastante desconfortável com a ideia de que os homens estão lendo o livro, porque mostra a maneira como a minha mente funciona. Mas eu recebi uma mensagem de um senhor de 71 anos que disse: “Obrigado por essa alegria, é como me apaixonar novamente”. Foi adorável. E ainda um cara chamado “Gorgeous days” no Twitter me perguntou: “Por que Christian Grey gosta só de mulheres?” (risos).

Há uma justificativa moral no livro para a prática do BDSM (sigla para Bondage, Disciplina, Dominação, Submissão, Sadismo e Masoquismo)?

Christian está perdido, e sua vida é levada para isso. Mas isso não quer dizer que quem pratica BDSM tem um passado tortuoso, de maneira alguma. Eu acho que, se há uma relação segura e consensual, ótimo. O que acontece na cama, pela casa ou em qualquer lugar, é da conta de cada um, não tenho nada com isso. Esse comportamento de Christian funciona para essa história. Eu não tinha ideia de aonde eu iria chegar quando comecei a escrever. Apenas que o BDSM seria o pano de fundo.

Por quê?

É incrivelmente sexy. E eu fiquei imaginando: como seria encontrar alguém que vivesse nesse estilo de vida?

Por que quase não há personagens confiantes no livro?

Alguém confiante talvez não rendesse uma história (risos). Pessoalmente não acho o tipo confiante muito interessante. Eu prefiro refletir sobre mim mesma — e talvez eu esteja revelando demais.

Como está a adaptação para o cinema?

Nós visitamos todos os estúdios, com a exceção da Disney (risos). A Universal aceitou fazer o filme do nosso jeito. E, enquanto procurávamos produtores, nós nos encontramos com Michael De Luca, que fez um trabalho extraordinário com “A rede social”. Estamos agora procurando por um roteirista…

E então você disse: “meu marido” (o roteirista e escritor Niall Leonard)?

Na verdade eu gostaria que um americano escrevesse o roteiro, porque sendo britânica, eu tenho muito o jeito daqui de me expressar. E eu quero manter o meu casamento (risos). Porque, se trabalharmos juntos, podemos ficar loucos. E o filme está nesse ponto, até o momento.

Nada de elenco?

Há muitos rumores. A especulação é simplesmente ridícula.

Você menciona aspectos brasileiros como o samba, Carmen Miranda, que não é brasileira, mas é bem associada ao Brasil, e Villa-Lobos. Por quê?

Minha mãe é chilena, e eu cresci com muita música brasileira, Astrud Gilberto, Villa-Lobos, todos os clássicos, como “Corcovado”, “Manhã de carnaval”. São obras lindas. Eu amo bossa nova. É parte do meu DNA.

Como é ser a responsável pela onda de livros eróticos?

Eu acho extraordinário. Mulheres gostam de livros de sexo. Preferem ler isso do que ver pessoas transando em uma tela.

Como foi escrever as cenas de sexo?

Eu acho que nunca mais vou escrever um livro assim de novo (risos). É realmente difícil para não ficar brega. A coreografia é muito importante. Além do sentido, saber para onde aquilo está se direcionando… Você não pode se esquecer de nada. Onde eu coloco aquela mão? O engraçado é que, enquanto eu escrevia, eu gritava para o meu marido: “Será que a gente pode tentar… sua mão… ali… assim…?” (risos). Nós pesquisamos bastante (gargalhadas).

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