Bruno Astuto, na Revista Época

Quase um ano depois da morte do ditador líbio Muammar Kadafi na queda de Sirte pelas mãos dos rebeldes, os horrores dos 42 anos de seu regime sanguinário continuam vir à tona. Em seus delírios plenipotenciários, ele sempre se gabou de ter liderado um estado laico que bloqueava as investidas dos fundamentalistas islâmicos. Nas palavras de Kadafi, as mulheres líbias tinham direitos que os vizinhos árabes e magrebianos lhes negavam. Eram cidadãs “quase” no mesmo nível dos homens.

Os jornalistas e as forças de paz que cobriram a guerra civil líbia sempre se perguntaram por que as mulheres não participavam dos levantes das ruas, ao contrário de suas pares tunisianas e egípcias durante a chamada ‘Primavera Árabe’. O que, afinal, as detinha de se juntar aos rebeldes nas praças de Trípoli, uma vez que, na medida do possível, elas sempre tiveram o direito de circular livremente, até mesmo sem o véu?

A resposta, um ano depois, está no impressionante livro da jornalista francesa Annick Cojean, que chega ao mercado na próxima semana. Em ‘As presas. No harém de Kadafi’, ela revela a política de terror sexual esculpida durante mais de quatro décadas por um ditador maníaco, tarado e pedófilo que não se apoiava apenas no aparato militar de repressão para se manter no poder; ele também mantinha seus inimigos longe pela real ameaça de sequestrar e estuprar suas mulheres, filhas e irmãs.

Cojean entrevistou um punhado de vítimas sexuais de Kadafi, que relatam barbaridades inacreditáveis. Exemplo: o ‘líder’ mantinha no subsolo de um dos palácios um calabouço com 80 mulheres nuas que ele e sua tropa estupravam rotineiramente, sem lhes dar banho ou alimentação. Quando uma morria, o cadáver não era removido. Para humilhar os chefes das tribos e reiterar sua ascensão, Kadafi violentava suas filhas de 10, 11 anos de idade, na frente deles. Nem uma das noras do ditador teria escapado a sua sanha sexual. No início do levante dos rebeldes, ele importou de Dubai quilos e quilos de Viagra para distribuir entre suas tropas. A ordem era estuprar velhas e crianças antes de matá-las.

Quem adianta os depoimentos é a primeira-dama da França, Valérie Trierweiller, numa reportagem na edição desta semana da revista ‘Paris Match’. Ela teve acesso a duas vítimas do ditador, que lhe confirmaram as histórias. “Ele precisava de quatro meninas por dia, virgens de preferência. E exigia que fosse filmado durante o ato para que os guardas e os aliados vissem as fitas. Frequentemente, ele estuprava um menino ou uma menina enquanto discutia política com seu círculo”, relatou uma líder das forças rebeldes. As famílias tentavam manter suas festas de casamento na mais absoluta discrição, com medo de que ele aparecesse e decidisse estuprar a noiva. Os membros da famosa tropa de belas mulheres que faziam a guarda pessoal do ditador eram recrutados em escolas e, se sobrevivessem ao teste sexual, iam para o treinamento militar. As orgias eram regadas a drogas, cigarros, bebidas e música. “Tudo isso acontecia com a ciência dos diplomatas ocidentais, que se calavam por acharem que um regime islâmico na Líbia seria pior”, diz a autora.

Não é de se espantar, portanto, que as mulheres tenham tido uma participação tão oculta no levante, limitando-se a cuidar dos feridos e encorajar seus filhos a lutar. Cojean pretende que seu livro rompa o tabu para que o novo governo não retroceda na questão dos direitos femininos. Que essa espécie de holocausto das virgens cause tanto asco quanto os horrores praticados nos campos de concentração nazistas. O predador sexual está morto, mas as sobreviventes mantêm-se no silêncio, com medo de represálias dos novos opressores, os fundamentalistas, segundo os quais o estupro na maioria dos casos é incitado pela mulher. Resta saber se essas guerreiras conseguirão ter voz para terem, elas também, sua primavera.

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