O RETORNO
Jorge Amado, Zélia Gattai e seus filhos Paloma (no colo) e João Jorge no Aeroporto do Galeão, no Rio de Janeiro, em 1952. De volta do exílio em Praga (Foto: acervo Folha Press)

Luis Antonio Giron, na Revista Época

Um dos maiores mistérios da literatura brasileira é a mudança radical do escritor Jorge Amado nos anos 1950. Na primeira metade da década, ele era um autor politicamente engajado. Escreveu em 1951 Um mundo da paz, livro de viagem que exalta as proezas do ditador Josef Stálin e dos países da antiga Cortina de Ferro. Na mesma época, embrenhou-se numa longuíssima ficção formatada na estética do realismo socialista, Os subterrâneos da liberdade, que seria publicada em 1954. Depois disso, ficou quatro anos sem publicar romances. Voltou em 1958 totalmente transformado. Em Gabriela, cravo e canela, e nos livros que se seguiram, o engajamento político daria lugar a uma ficção exuberante, colorida, viva, que o tornaria um dos escritores mais queridos do Brasil e inspiraria diversos filmes e novelas de televisão. São dessa fase, além de Gabriela, algumas de suas melhores obras: Os velhos marinheiros, Dona Flor e seus dois maridos, Tenda dos milagres e Tieta do Agreste. O que aconteceu entre 1954 e 1958 para haver transformação tão radical? Um fator, claro, deve ter sido a denúncia dos crimes de Stálin pelo líder soviético Nikita Kruschev, em 1956. Jorge Amado nunca falou longamente sobre sua desilusão com o comunismo – daí o mistério. Por causa disso, o lançamento, nesta semana, de um volume de cartas inéditas escritas entre 1948 e 1967 causou expectativa entre os fãs e estudiosos do escritor.

Toda a saudade do mundo: a correspondência de Jorge Amado e Zélia Gattai. Do exílio europeu à construção da casa do rio vermelho (Companhia das Letras, 192 páginas, R$ 34,50), organizado por João Jorge Amado, filho do casal, contribui pouco para deslindar o mistério. Por duas razões. A primeira é que a maior parte das cartas da seleção versa sobre temas de cunho pes¬soal. A segunda é que, para burlar a censura, Jorge Amado evitava falar de política e usava certos “códigos” para comentar determinados temas com sua mulher, a escritora Zélia Gattai. Chamava a União Soviética de “o país dos meus amigos”. Mencionava amigos militantes de forma indireta: Pablo Neruda era “o poeta” e o escritor russo Ilya Ehremburg era chamado de “Ikya”. Provavelmente, eram cuidados inúteis. Todo mundo sabia o que ele estava fazendo. Até os espiões do governo Dutra.

Embora a questão mais importante tenha ficado de fora, o pacote de cartas tem outros atrativos. Segundo o organizador da reedição das obras de Jorge Amado, Thyago Nogueira, o volume traz alguns de seus derradeiros textos inéditos. “Outras cartas hão de ser achadas”, afirma Nogueira. “E há ainda uma dezena de páginas do romance Bóris, o Vermelho, que ele estava escrevendo quando morreu e podem ser reveladoras.” As cartas foram encontradas pelos filhos em cinco pastas deixadas por Zélia Gattai. “Não foi difícil organizá-las”, diz João Jorge. “Difícil foi segurar a emoção.” A correspondência entre Jorge e a família é repleta de manifestações de amor, saudade e de luta pela sobrevivência no exílio em Paris, de 1948 a 1950, e – quando expulso da França – em Praga, de 1951 a 1952.

As cartas de Jorge são datilografadas às pressas ou, quando lhe faltava a máquina, redigidas à mão, algo que ele detestava. As que a família enviava a ele contam miudezas cotidianas. O conjunto narra a vida de Jorge e sua “querida Zé” nos anos 1940, entre compromissos políticos, dificuldades econômicas, a criação de dois filhos – Paloma e João Jorge – e o medo de serem eliminados num dos expurgos de Stálin. Longe de casa, Jorge declara seu amor a Zélia. Em certas passagens, subestima a beleza da pianista Anna Stella Schic (1925-2009), com quem parece ter tido um caso que provocou ciúme em Zélia. Muitas vezes pede à mulher que envie mantimentos.

Uma carta de Jorge Amado
a Zélia Gattai (Foto: divulgação)

Hospedado em hotéis baratos em Paris, tentava concluir o terceiro volume da saga Os subterrâneos da liberdade e divulgar a arte e a literatura brasileiras.

As melhores fontes para entender a guinada do escritor nos anos 1950 continuam a ser seus livros de memórias. Em Navegação de cabotagem, ele conta do choque que sofreu quando, entre 1951 e 1952, ficou hospedado num castelo em Praga com outros escritores comunistas. Lá, tomou conhecimento de que havia tortura na União Soviética, algo que dizia desconhecer. Além disso, amigos foram expurgados e eliminados no período de Praga. Em entrevistas, Jorge e Zélia disseram que a repulsa ao stalinismo se deu mais pelo pavor que testemunharam do que por argumentos racionais. Nas primeiras cartas enviadas a Zélia, antes que ela se juntasse a ele em Praga, Jorge deixa entrever a angústia. Mas não fala de política explicitamente nas cartas nem esmiuçou o tema em entrevistas posteriores. “Meu pai manteve o segredo sobre os detalhes de sua militância”, afirma João Jorge. “Isso não significa que não tenha mantido, até o fim, sua posição em favor dos pobres contra os ricos, dos fracos contra os fortes. Não houve uma mudança de pensamento. Ele apenas se afastou da rigidez comunista e trocou o realismo socialista pela crítica e pelo humor.” O romance brasileiro saiu ganhando.

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