Marcelo Almeida, a mala com rodinhas, os livros dentro dela: pondo o tempo a favor da leitura

Diego Antonelli, na Gazeta do Povo

Ele se prepara para mais uma aventura. Está tudo pronto – a roupa, o sapato e a valise de rodinhas, da qual não se separa. Juntos, irão viajar, não importa se para perto ou para longe. A distância depende de qual história será “arrancada” do meio de seus pertences. Não, o engenheiro Marcelo Almeida, 45 anos, não está maluco. Dentro da mala carrega dezenas de livros, que poderão levá-lo para o século 19 ou de volta para o futuro.

Almeida é um desses sujeitos viciados em livros. Em meio aos afazeres que sua profissão exige, arruma tempo, no início da manhã ou à noite, para ler até quatro títulos ao mesmo tempo. É mais que um hobby. A leitura se tornou uma causa. Partiu dele a iniciativa de criar o grupo de leitores “Conversa entre amigos”, que se reúne mensalmente para falar de livros, em várias cidades do Paraná. Chegou a reunir 1,5 mil participantes, uma pequena contribuição para o desenvolvimento de uma sociedade leitora.

Contribuir é preciso. Entra ano, sai ano e o país permanece com nota baixa nesse quesito. As estatísticas comprovam. A pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, divulgada este ano pelo Instituto Pró-Livro, aponta que 50% dos brasileiros, algo como 88,2 milhões pessoas, não leem. Desses, 30% dizem abertamente não gostar de ler. E outros 50% alegam falta horário, com folga o motivo mais usado para explicar a má colocação da leitura no país.

O mesmo argumento não vale para o futebol, por exemplo, ou para a televisão – cuja preferência, de acordo com Retratos da Leitura, saltou de 77%, em 2007, para 85%, em 2011. Tudo indica que os baixos índices têm menos a ver com os ponteiros do relógio e mais com o lugar difícil do livro na cultura brasileira. Ou ainda com a falta de “prática”, já que ler com prazer exige alguma destreza.

Se alguém pensou que seria melhor dizer “hábito” em vez de “prática”, experimente trocar a palavra. Faz toda diferença. Parte do problema está em associar leitura com costumes incorporados ao dia a dia, como se fosse o mesmo que tomar banho ou escovar os dentes antes de dormir. Lê-se para ficar acordado. “Hábito é repetição mecânica. Já ler é uma prática. Demanda reconhecimento da tarefa e habilidades específicas. Entendida como hábito, a leitura perde sua característica mais importante, que é a de tirar do automático, a de surpreender”, observa a pesquisadora de leitura Marta Morais da Costa, da Universidade Federal do Paraná.

Em vez de ler “quando dá tempo”, o leitor deve é “estar em forma” para ler em qualquer situação. Cabe a ele arrumar um lugar na agenda e criar estratégias. Passa pela vontade, acrescenta Marta Morais da Costa, para quem querer ler – e crer na leitura – são meio caminho andado. “Ler tira as pessoas do senso comum”, emenda Marcelo Almeida, para quem se fiar com os livros é uma tarefa perigosa. “Pode ser cansativo no começo. Uma atividade árdua. Mas quem começa, vicia. Vira uma droga do bem”, proclama o homem das mil e uma atividades e livros a tiracolo.

Debaixo do braço

A propósito, “xeretar” as práticas de leitura dos outros é bem mais divertido do que bocejar diante dos hábitos alheios. A vida de leitor do jornalista e professor universitário Marcelo Lima, 40, o Marcelinho, desperta a curiosidade dos alunos. Além de reservar horários do dia para ler – e não negociá-los –, Lima leva pelo menos três livros para qualquer lugar que vá, da praia à fila do banco; do passeio no parque à formatura do ensino médio do sobrinho. A leitura é um esforço. Progredir exige empenho, ao final do qual pode estar reservado um grande prazer.

Foi o que sentiu ao conquistar, não sem um preço, a literatura de Guimarães Rosa. “A gente chega lá se ampliar o conhecimento linguístico e o conhecimento do mundo. Tem de olhar os livros com desconfiança. Com paciência de matuto. Desconfiar do que parece óbvio. É assim que se aprende a ler”. Em tempo – é importante ter sempre um lápis à mão, ainda que debaixo de controvérsias.

Para Marcelo – o Almeida e o Lima – não tem leitura sem rabisco na margem, desenhando ali o histórico do encontro do leitor com o livro. Lima faz pequenos retângulos em cima dos trechos mais importantes. Almeida é tão fissurado que anota no verso da capa quando começou e terminou a obra, ao lado de seu desempenho na corrida de rua e anotações profissional, prova de que a leitura se confunde a todo o resto de sua vida. Não é um apêndice.

Pergunte a quem lê. Leitores falam do que leram, mas também da ergonomia das poltronas, da iluminação e, sobretudo, da qualidade do livro. “Acima de tudo tem de ser bom. Tenho que conversar com a obra e a obra comigo”, confidencia Almeida. Leitores têm dessas coisas.

dica do Jarbas Aragão

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