Um dos livros conta a história de Bertioga, SP
(Foto: Claudine Moreira/Arquivo Pessoal)

Mariane Rossi, no G1

A trajetória de Claudine Teles Moreira, morador de Bertioga, no litoral de São Paulo, pode ser traduzida na palavra superação. Ele, que já foi morador de rua e não completou os estudos, passou por diversas experiências que o fizeram descobrir sua vocação para a escrita e que o serviram de base para a publicação de dois livros e tantas outras histórias que ainda quer expor para o mundo.

Aos 72 anos, ele acredita que, talvez, parte de sua vida já estava predestinada. Mesmo assim, sua história é recheada de altos e baixos, começando pela sua infância. Filho de uma mulher alcoólatra, o caçula da família saiu de Itapetininga, no interior de São Paulo, aos 12 anos, na moleira de um caminhão com destino à capital paulista. Sozinho, em uma grande metrópole, ele passou mais de um ano dormindo em caixas de papelão, debaixo de viadutos e em árvores. “A rua é a insegurança, o medo, a fome, o frio. Você não sabe para que lado você vai. É muito difícil lembrar dessas cenas”, diz ele.

O garoto conseguiu se manter com a venda de canetas e desodorantes na Rua 25 de Março até conhecer dois homens, que se tornaram seus amigos e lhes oferecerem um lugar para dormir. Moreira conseguiu um emprego em uma indústria e, aos poucos, conseguiu comprar um terreno e se casar. Da fábrica, ele passou a trabalhar como segurança em um dos maiores presídios da América Latina, a Casa de Detenção de São Paulo, o Carandiru. Ele conta que os seis anos que trabalhou no local lhe trouxeram uma grande experiência de vida. “Guarda de presídio vive com medo. Além daquelas 6 ou 8 horas de trabalho, o pior medo é quando você sai de lá”, relata. Do presídio, abriu uma lanchonete. Mudou de vida novamente, viajou por cerca de vinte países e voltou para o ramo comercial.

Moreira distribuiu uma de suas obras na Bienal do
Livro (Foto: Claudine Moreira/Arquivo Pessoal)

Após um infarto, foi morar em Bertioga, no litoral de São Paulo. Nesta tranquila cidade, Moreira diz que encontrou sua vocação na arte de escrever e criar romances. “Eu vi que havia outro processo de vida que me satisfaz. Sempre fui criativo, mas não que eu quisesse escrever. Eu sempre gostei de ler, provavelmente estava na minha consciência”. Ele conta que começou escrevendo artigos sobre vários assuntos, inclusive sobre seu dia a dia, e publicando na internet. Jornalistas e amigos começaram a elogiá-lo e foi isso que o incentivou a se dedicar às palavras.

Até agora, ele já publicou dois livros. “O predestinado” que conta a história de um rapaz que está preso e que encontra um final feliz. Já o outro, “Bertioga, Xamãs, Bruxos e Bruchas”, é um romance que fala sobre os 500 anos do descobrimento de Bertioga, com depoimentos de moradores. Além disso, na última Bienal do Livro em São Paulo, Moreira distribuiu a Revista Superação, uma história em quadrinhos também de sua autoria e que fala sobre uma índia que nasce sem braços e sem pernas. A publicação fala sobre questões como o bullying, as diferenças sociais e físicas e a pedofilia.

Moreira ainda aguarda a oportunidade e a ajuda financeira para mais publicar mais oito histórias, que já estão prontas. Ele utiliza seu blog para fazer contato com os interessados em suas obras e expor um pouco do que são seus romances.

O ex-morador de rua, segurança, comerciante, e atualmente apaixonado pela vida, diz que vive seu momento de glória. “Na minha vida foram poucas opções. As dores virão, mas nós temos que continuar. Para conseguir, cada passo eu tive que lutar. Toda minha vida serviu como base para eu descobrir que tudo é possível”, diz ele.

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