Humberta Carvalho, no G1

Local promove o encontro de amigos e recebe políticos e celebridades.
Com decoração retrô, espaço no Setor Oeste recria ambiente dos anos 70.

Ruimar Ferreira administra a barbearia que funciona em Goiânia há quase 37 anos (Foto: Adriano Zago/G1)

A ideia de abrir um espaço cultural motivou o barbeiro Ruimar Ferreira, de 54 anos, a montar uma biblioteca dentro de sua barbearia, que funciona desde 1976 no Setor Oeste, em Goiânia. O acervo do empresário, que tem a mesma profissão desde os 18 anos, já atinge quase 500 livros, todos doados por escritores goianos, amigos e clientes. Acompanhado da decoração retrô, o local recria o ambiente dos anos 70, o que atrai muitos clientes, inclusive políticos e celebridades.

“Os clientes levam os livros para casa e depois devolvem trazendo um ou dois livros a mais de presente. Alguns começam a ler o livro e depois voltam para terminar a leitura”, conta Ruimar, que já atendeu políticos como o presidente do Senado, José Sarney (PMDB), e celebridades, como o cantor Milton Gonçalves. Políticos de Goiás, como o ex-prefeito de Goiânia ex-governador do estado Iris Rezende, também são clientes do salão. Ruimar não cobra nenhuma taxa nem faz anotação quando alguém pega um exemplar de sua biblioteca emprestado. Tudo é feito “na base da confiança”.

“Os livros vieram de um monte de gente. A Academia Goiana de Letras me deu muitos, escritores e desembargadores também. Eu ganhei todos e, às vezes, alguém me pergunta se pode trazer um livro. Passou a ser um hábito as pessoas me darem um exemplar de presente”, revela Ruimar, que não pretende aumentar seu acervo, por falta de espaço físico.

Acervo de biblioteca foi todo doado por clientes
(Foto: Humberta Carvalho/G1)

A inauguração da biblioteca aconteceu há pouco mais de um ano, no dia 9 de setembro do ano passado. Para marcar a data, foi realizado o lançamento do livro “Maya”, do escritor goiano Ursulino Leão, amigo de Ruimar há 40 anos.

“O Ursulino Leão foi um dos nossos primeiros clientes. Ele já era amigo do meu pai, Valdemar Ferreira, já falecido, por muitos anos. Eu falei para ele que queria criar um espaço cultural, uma espécie de ‘espera cultural’, com livro, revista e jornal. Então, decidi criar a biblioteca. Ele falou ‘boa ideia. Eu vou lançar um livro e vou fazer isso no seu salão’. Por isso, a biblioteca leva o nome dele”, conta Ruimar.
Cliente da barbearia há cinco anos, o prefeito de São Patrício, cidade do interior do estado, Lery Guedes, elogia a iniciativa do barbeiro: “A ideia da biblioteca é muito boa, muito válida. Acho interessante. A cultura cabe em qualquer lugar”.

Tradição

A decisão de tornar a barbearia retrô aconteceu nos anos 80, na época em que as barbearias, segundo Ruimar, passavam por uma renovação. “Quando veio a modernização e muitas se tornaram unissex, eu decidi manter a barbearia retrô. O pessoal ia sentir falta disso. E tinha razão, porque hoje é um sucesso”, comemora o empresário, que atende, junto com sua equipe, aproximadamente 100 homens por dia.

Objetos espalhados pelo salão revelam a paixão e o desejo do empresário em manter a tradição. Ele coloca em exposição navalhas usadas nos anos 70 e uma máquina de datilografia. Embora novas, as cadeiras onde os clientes se sentam para cortar o cabelo e fazer a barba não mudaram de layout e são do mesmo modelo da época em que o salão foi aberto.

Fotos em preto e branco espalhadas pelo estabelecimento também ajudam na recriação do ambiente retrô. São registros da passagem de clientes, amigos e celebridades. “É legal, os clientes gostam. Cortam o cabelo e passam o tempo vendo as fotos que contam a história do que aconteceu”, relata Ruimar.

Fotos de clientes, inclusive famosos e políticos, ficam expostas na barbearia (Foto: Humberta Carvalho/G1)

O empresário conta também que o salão virou ponto de encontro de procuradores aposentados, ex-deputados e políticos. De acordo com Ruimar, eles se reúnem para “colocar a conversa em dia”. “Venho aqui praticamente todos os dias. Quando não é para cortar o cabelo e fazer a barba, é saber a fofoca do dia a dia, as notícias. Aqui, falamos de política, economia, medicina e papo furado. Sai de tudo”, cita o empresário Alex Câmara, cliente do estabelecimento há 15 anos.

Ruimar também mantém no salão um espaço destinado às suas pingas. Há uma mesa cheia delas à disposição dos clientes e amigos. “As pingas que vou ganhando resolvi colocar aqui para o pessoal usufruir. Aí eles veem, tomam a pinguinha deles e relaxam”, diz Ruimar.

“Frequento o salão do Rui antes mesmo de me casar. No dia do meu casamento, me arrumei aqui: corte de cabelo, unha, me repaginei inteiro. O dia do noivo foi aqui. Agora, trago meus filhos. Meu filho mais velho tem 6 anos e já é cliente desde o primeiro corte. O meu mais novo também. O interessante aqui é que passa de geração para geração. Isso é uma família”, afirma Alex Câmara, que também elogia a ideia da biblioteca e aconselha outros donos de barbearia a fazerem o mesmo.

Mulheres são maioria em barbearia de Goiânia
(Foto: Adriano Zago/G1)

Barbeiras

O salão retrô de Ruimar tem outro atrativo que muito agrada a seus clientes. “Somos 15 profissionais, mas tenho mais barbeiras que barbeiros. Os clientes adoram”, revela o empresário.

E para quem chega por lá achando que pode apenas fazer a barba e cortar o cabelo, fica impressionado com a quantidade de serviços oferecidos. O cliente tem à sua disposição podologista, manicure e pedicure. Ele também pode fazer reflexo nos cabelos e tirar as sobrancelhas.

“Fazer barba aqui é uma terapia. O homem, aqui, não faz barba como em outros locais. Tem toda uma terapia, uma toalha quente. É um descanso para o cliente. Às vezes, ele está em uma reunião e vem para cá fazer a barba e descansar. Relaxa, curte, aí volta”, conta o dono do salão, que cobra R$ 50 por uma barba.

O barbeiro conta também que já esteve em várias barbearias no Brasil e, no Rio de Janeiro, recebeu a proposta para abrir uma filial. Ele não aceitou a proposta. “Eu amo minha profissão. Adoro o que faço, mas é melhor ficar só aqui”, acredita Ruimar, que carrega no braço um relógio com os ponteiros em forma de uma tesoura que ele mesmo mandou fazer.

Solidariedade

Sete vezes por ano, aproximadamente, Ruimar e sua equipe de barbeiros e barbeiras vão a creches de Goiânia que têm alunos carentes e cortam o cabelo das crianças. Isso acontece aos sábados, no período da tarde, depois do horário de expediente.

O trabalho é feito de graça. Mesmo assim, os pequenos clientes cobram pelo primor. “Eles são mais exigentes que meus clientes. Querem cabelo igual ao do Neymar. E quando não gostam, olham no espelho e dizem ‘não gostei’”, conta Ruimar, que ri ao se lembrar da atitude das crianças.

A intenção do barbeiro é que o salão continue funcionando mesmo quando ele já não puder administrá-lo. Como teve apenas uma filha que não trabalha com ele, a expectativa, agora, é depositada no neto de 11 anos. “Meu pai foi barbeiro e eu fui criado dentro de barbearia. Aprendi a amolar navalha e a lidar com ferramentas. É uma tradição que é mantida. Tenho um neto de 11 anos que talvez goste dessa profissão. Quando vou cortar cabelo em creches, o levo e ele fica doido para aprender”, afirma Ruimar, esperançoso.

Clientes pagam R$ 50 para fazer a barba no salão retrô (Foto: Adriano Zago/G1)

dica do João Marckos

Comments

comentários

Powered by Facebook Comments