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Jorge Fernando dos Santos, no Armazém Literário

Pesquisas realizadas por organismos internacionais sempre colocam o Brasil entre os países que menos consomem livros no mundo, atrás dos Estados Unidos, Cuba, Canadá, países europeus, asiáticos e vizinhos sul-americanos. Por essas e outras, a afirmação de que o brasileiro não gosta de ler virou lugar-comum. No entanto, o tema exige reflexão. Afinal de contas o brasileiro não lê por que não tem acesso aos livros ou por que não se sente convencido da importância da leitura para sua formação? A leitura, por sua vez, é apenas uma forma de adquirir conhecimento ou pode ser também um delicioso entretenimento do qual só os iniciados desfrutam?

Algumas pessoas – e não poucas – costumam dizer que o livro no Brasil custa caro. Contudo, há que se levar em conta que existem bens de consumo com preços mais elevados que não deixam de ser consumidos pelo mesmo motivo. O preço de um livro infanto-juvenil, desses que as escolas costumam adotar nas aulas de literatura, não chega a R$ 30. Isso é o que custa a ida ao cinema e a uma lanchonete no shopping center mais próximo. E o que dizer do preço dos tênis importados, cada vez mais incrementados e mais caros? Outra questão é saber se o livro custa caro porque não vende ou não vende porque custa caro. Temos que levar em conta que quanto maior a tiragem, menor o preço do exemplar. Portanto, se o número de leitores aumentasse, o preço de capa cairia vertiginosamente, o que estimularia o aumento nas vendas.

Domingo passado, dia 9 de setembro, participei do projeto Livro de Graça na Praça, que mais uma vez levou à Praça da Liberdade milhares de pessoas de todas as idades. Das 8h às 13h, foram distribuídos gratuitamente quase 20 mil exemplares de vários livros, entre eles a antologia Todo livro ama crianças, da qual participo a convite do organizador, Ronaldo Simões Coelho.

Mídias modernas ignoram os livros

Idealizado pelo também escritor José Mauro da Costa, o projeto completou dez anos de sucesso, sendo realizado praticamente sem apoio oficial. Principalmente crianças e jovens formaram longas filas para ganhar livros e autógrafos, sob um sol de estourar mamonas. Mais uma vez, os autores tiveram a oportunidade de autografar seus textos num frenesi de doer as mãos. Em 19 de outubro será a vez de a Borrachalioteca comemorar dez anos de funcionamento, com crescente sucesso junto à população de Sabará. Se o brasileiro realmente não gosta de ler, como explicar a repercussão desses e de outros projetos semelhantes realizados por heróis anônimos em diferentes pontos do país?

Na verdade, as pessoas não leem por simples falta de motivação. O melhor exemplo vem de casa. Se os pais não se debruçam sobre os livros e não contam histórias, dificilmente os filhos vão se interessar pela leitura. Se a escola não estimula o hábito, com a ajuda dos pais, como é que as crianças vão gostar de livros? E olha que os professores se esforçam, embora muitas vezes sem apoio até mesmo do governo. Este se quisesse de fato contribuir para o aumento da leitura, começaria por uma reforma profunda em todos os níveis do ensino público.

Outra coisa a se notar é que numa sociedade de consumo a propaganda é cada vez mais a alma do negócio. Contudo, as mídias modernas praticamente ignoram os livros. Tampouco os editores parecem interessados em anunciar seus produtos, como fazem fabricantes de eletrodomésticos, automóveis, roupas e refrigerantes. Se em vez de bebidas a TV anunciasse livros, certamente o número de leitores cresceria consideravelmente em todo o país.

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