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Juliana Wosgraus, no Blog do Galeno

O escritor catarinense Deonisio da Silva já ganhou o importante prêmio internacional de literatura, Casa das Américas. E foi premiado pelo ganhador de um Nobel, o português José Saramago, fato que, brinca ele, acaba lhe conferindo dois prêmios. Mas é mais conhecido popularmente pela coluna sobre a origem das palavras, que assina na revista Caras. Deonísio nasceu em Siderópolis, Sul do Estado, em 1948, e é casado com a poeta, professora universitária e doutora em Lingüística, Soeli Maria Schreiber da Silva.

Além de escritor, Deonísio também é professor e vice-reitor de Cultura da Universidade Estácio de Sá, no Rio de Janeiro. Assina ainda coluna em diversos jornais e no site Observatório da Imprensa. Doutor em Letras pela USP, seus contos e romances (oito), foram traduzidos para o francês, inglês, italiano, alemão, sueco e outros idiomas. Aqui uma bate-papo com Deonísio.

Você trabalha no Rio e mora em São Paulo? Como é isso?
Não, eu trabalho e moro sozinho no Rio. Quem mora em São Paulo é minha filha. E a mãe dela mora em São Carlos (SP). Somos uma família tripartida, como acontece às vezes quando cada um precisa seguir seu sonho.

Desde quando vive no eixo Rio-SP?
Desde 2003. Estava lançando um novo livro, dava entrevista ao Edney Silvestre, da Globonews, o fundador da Universidade Estácio de Sá, João Uchôa Cavalcanti Neto, estava assistindo, gostou do que eu dizia e me convidou para trabalhar na Estácio. Nenhum dos dois se decepcionou com o outro até hoje.

Você tinha quantos anos quando foi embora de Santa Catarina? E por quê?
Eu estava no frescor e nas desarrumações comuns a quem tem 16 anos. Acompanhei minha família, que foi embora para o Paraná. Mas não fiquei ali. Fui morar no Rio Grande do Sul.

Quando se interessou por etimologia?
Desde os primeiros estudos de latim e de grego, no Seminário, em Tubarão, ao ver que nossa tão amada língua portuguesa era filha do latim e neta do grego.

O que considera mais interessante na origem das palavras?
A história que elas carregam dentro de si, as escalas que fazem nas viagens. Uma palavra sai da Grécia antiga, passa por Roma, vai a Portugal e vem parar no Brasil. Em Santa Catarina muda o modo de ser pronunciada, adquire novos significados e, por sutis complexidades, passa a significar outra coisa, às vezes o contrário do que significou na origem. O latim trouxe palavras de todos os lados. O historiador Plínio (79 d.C.) nos conta que os romanos precisaram de 130 intérpretes diferentes no Cáucaso, tantas eram as línguas faladas ali.

Qual a etimologia da palavra amor?
Na origem remota a raiz do verbo que designa o amor é a mesma para cavar a terra e plantar. O homem planta sementes na mulher e na terra, este é o ato de amor primordial. Mas resumamos assim: é o latim amor. Amore, em italiano; amour, em francês; amor, em espanhol. Todas as línguas neolatinas apenas variam um pouco o amor original. No alemão, é uma palavra de origem grega, Liebe, presente em libido, que em latim tem como sinônimo desiderium, desejo. Menos impreciso, o alemão diz Lust para desejo, prazer, vontade, tesão, mas Lust etimologicamente significa inclinar-se. E ainda tem Wunsch (desejo) e Begierde (rachadura, abertura).

E da palavra saudade?
É o latim solitate, solidão, misturado com as expressões do árabe suad, saudá e suaidá, sangue pisado e preto dentro do coração, indicando grande tristeza. A as-saudá, uma doença do fígado entre os árabes, é diagnosticada pela melancolia do paciente.

Você disse que todo autor que é vaidoso é um tolo, mas não ficou vaidoso por ter ganhado o Prêmio Casa das Américas, um dos mais importantes da literatura mundial?
Não, vaidoso, não. Em latim, vaidoso quer dizer vazio, inútil. Fiquei orgulhoso, de urguli, palavra com que os antigos povos germânicos denominavam o que era muito bom. Quando José Saramago, o presidente do júri daquele prêmio, ganhou o Prêmio Nobel, foi agregado mais um valor: já fui premiado por um Prêmio Nobel!

Você acha que as pessoas lêem de fato a tua coluna letrada na revista Caras?
Não sou eu quem acha isso, a revista faz pesquisa entre os leitores e comprova isso. Com uma tiragem semanal sempre acima dos 300 mil exemplares, a Caras me dá milhões de leitores. E eu recebo toneladas de emails, cartas, telefonemas e sou abordado em lugares públicos por causa daquela coluna. Outro dia, numa Feira de Livros, o ex-ministro Saulo Ramos veio me cumprimentar pela coluna e disse ser meu leitor e saber de muitos outros que também me lêem.

Esse ano você lançou o romance Goethe e Barrabás, (Editora Novo Século), já começou a escrever o próximo?
Já. Dois: Lotte em Petrópolis e Em busca de Albertina Berkembrok, que será ilustrado por minha querida amiga, a artista plástica Arlinda Volpato. A menos que ela não queira. Mas acho que ela não vai fazer isso comigo, pois já penso nos capítulos a partir dos traços tão sutis e tão eloqüentes da Arlinda. O outro tem como tema o suicídio e será baseado na vida de Stephen Zweig, o escritor judeu alemão que se casou com uma alemã, foi morar em Petrópolis e lá fizeram um pacto de morte, engolindo cápsulas com uma água mineral chamada Salutaris.

Um escritor catarinense que considera leitura obrigatória?
Muitos. Salim Miguel, em primeiro lugar. As crônicas de Sérgio da Costa Ramos. As poesias de Cruz e Sousa.

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