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Dolores Prades, no Publish News

Está programado para acontecer nos próximos dias 5 e 6 de outubro o Colóquio Internacional PROALE I – Esses livros sem idade, na Faculdade de Educação da UFF. O interesse por este tema tem sido também recorrente entre as solicitações de leitores da Revista Emília. A preocupação com as questões em torno das idades no livro para crianças e jovens está no ar, não resta dúvida.

É natural que, com a intensificação da reflexão sobre o livro infantil e juvenil e sobre todos os temas em torno da formação de leitores, e a busca progressiva pela sua desinstrumentalização, algumas das práticas em uso, alguns rótulos passem finalmente a ser questionados. A mudança de critérios de valoração, do próprio entendimento do significado e abrangência do livro e do que seja esse leitor, implicam e pressionam para uma revisão de velhos procedimentos e praticas.

A reação de muitos – editores, autores, ilustradores e mediadores – frente à rigidez das faixas etárias leitoras indicadas nos livros decorre deste processo de reflexão sobre o livro infantil, assim como de uma tendência contemporânea marcante onde o livro ilustrado se impõe rompendo a barreira das idades. Não é de hoje que uma reação a tais rótulos se verifica. Tanto que esse enquadramento vem sofrendo uma visível flexibilização, seja pelo seu uso em termos menos rígidos, seja, como na ponta mais avançada do mercado, pela sua simples desconsideração.

A adoção de faixas etárias para indicar os leitores de um determinado livro, além de promover uma nivelação arbitrária, reduz e limita a vida e a abrangência dos livros. A diversidade dos níveis leitores entre os leitores de uma mesma idade, seja pelas diferenças de escolaridade, culturais ou econômicas – como a proposta alternativa de Nelly Novaes Coelho de conceituação, não mais por idade, mas por nível leitor – já puseram por terra a adoção de faixas etárias há algumas décadas. A sobrevivência das faixas etárias, tal como persiste hoje, atende exclusivamente a exigências do mercado escolar.

A origem dos indicadores de faixas etárias faz parte de todo um aparato maior que pouco a pouco vai sendo criado para orientar o trabalho de “leitura literária” dentro da escola. Desde o início, e isso coincide com o momento de afirmação internacional da “literatura infantil e juvenil” das décadas de 1950/1960, a indicação da idade foi uma forma de orientação dos mediadores (família, escola, etc) que, pela primeira vez, se deparavam com uma produção voltada especificamente para um destinatário que não era diretamente ele. Esse apoio para a escolha dos títulos por mediadores pouco sintonizados com a natureza dessa nova produção e com uma oferta de mercado cada vez maior talvez tenha tido o seu papel nestes primórdios.

Mas o que inicialmente foi uma orientação acabou virando uma norma que, tal como ainda existe hoje, se transformou numa camisa de força tanto para os mediadores que se acomodam e ficam reféns desses critérios, como dos livros que, quando bons, se perdem ou esgotam na faixa etária. Quem inventa e determina esses limites e critérios? Na maior parte das vezes não é nem o autor, nem o ilustrador, mas o editor que quando recebe um original lhe dá forma para encaixá-lo no seu catálogo. E assim, se muitos textos originalmente podem servir a muitas idades, a escolha do ilustrador, do formato, da tipologia, a própria concepção do produto dada pelo editor o coloca dentro de uma das gavetas que ele mesmo criou.

O mundo editorial se apropriou desses recursos e criou todo um aparato que acompanha os livros escolares (indicadores, notas, guias, biografias, etc.). São os editores que, de acordo com as suas concepções de infância, juventude, leitura, literatura, põem em movimento essa roda que, na maior parte das vezes, deixa de lado critérios referentes à análise literária. E isto é tão visível que, se olharmos tudo o que se produz neste mercado, essa adequação aos critérios escolares salta aos olhos em detrimento de critérios mais próximos da qualidade literária e artística.
Colocar em questão a rigidez desses indicadores, não quer dizer que toda e qualquer orientação seja descartável, principalmente numa realidade onde muitos mediadores (sejam familiares ou professores) efetivamente não estão conectados com o mundo da leitura e desconhecem muitos de seus códigos e de suas possibilidades. Nesse sentido e por isso mesmo é fundamental que as editoras façam seu papel de apresentar seus livros e orientar seus leitores, porém o que faz a diferença é como isto se faz e onde recai o peso na relação entre subordinação & formação. Isto é a opção entre os critérios mais fáceis já em vigor no mercado, ou um trabalho mais consistente de formação de mediadores, visando a médio e longo prazo, ainda que como propósito, a sua autonomia e independência.

A ponta da produção do livro para crianças e jovens mostra – na verdade sempre mostrou – que os bons livros, mesmo aqueles com destinatários bem definidos pelo seu autor, no limite não têm idade, pois certamente encontrará leitores sensíveis em qualquer idade. Não são poucos os leitores adultos que se encantam pelos livros ilustrados. E essa tendência tende a crescer na medida em que esses livros sofisticam suas linguagens textual e imagética e que os leitores se tornam mais sensíveis, mais abertos e passam a enxergar sem preconceitos o livro infantil.

Mas não só isso, pois, se olharmos para o mercado, vemos que muitas das sagas juvenis mais vendidas abarcam um público que varia e se estende por muitas faixas etárias. Nesse sentido, inversamente ao que foi dito acima, leituras mais fáceis também conquistam leitores que pelo seu histórico de leitura se identificam com esse tipo de livro mais fácil e descartável. Afinal somos todos leitores, não?

Com tudo isso quero dizer que, pensando do ponto de vista do mediador que orienta, indica e sugere a leitura para leitores ainda sem autonomia, o melhor critério deve ser a sua identificação com o livro, a sua capacidade de promover e dar conta de uma conversa entre livro e leitor. Isto é, de levar ou acompanhar a imaginação do leitor para onde as páginas do livro levarem, sem medo dessa viagem desconhecida que nenhum critério pode previamente estabelecer ou limitar.

E no caso dos leitores com certa autonomia? Nada pior do que definir previamente se o livro é ou não adequado à “sua idade”, nada pior do que um livro que traga qualquer rótulo. A esses leitores que estão em fase de formação, de descoberta e de construção de critérios e de seu gosto literário: permitamos que a leitura “rapte suas almas”, como disse Pascal Quignard. Ou, como disse Proust, no primeiro volume de Em busca do tempo perdido, quando a avó do pequeno Marcel diz à sua filha: “Minha filha /… / eu não teria coragem para presentear a esse menino algo mal escrito.”*

* Citações extraídas de A alma do leitor. A educação como gesto literário, Fernando Barcena, coleção Primero Lector 11, Asolectura, Bogotá D.C., Colômbia, 2012.

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