Bruno Astuto, na Época

Meu problema com o período eleitoral não é nem a propaganda gratuita, que, embora atrase a novela, pode até ser bem divertida, mas uma dificuldade imensa de acreditar em promessas, quaisquer que sejam. “Eu vou criar 300 milhões de empregos, vou levar saneamento básico a todas as casas, vou colocar não sei quantas crianças na escola” — esse filme a gente já viu muitas vezes. Entretanto, um pouco Pollyanna, gosto de ouvir os planos de governo via debate, pois, no papel e no site, estão todos muito vagos.

Adoro um debate; não perco um. É verdade que eles não têm mais aquela emoção/ baixaria de outrora, quando um candidato jogava, estressadíssimo, as piores barbaridades da vida pessoal na cara do outro, diante de um mediador pasmo. Hoje tudo está mais civilizado, e eles lançam no ar as acusações mais atrozes com a expressão mais cândida do mundo, chamando o alvo de “Caro Fulano” e “Prezado Beltrano”. Na era da neurolinguística, as falas são tão estudadas e as frases de efeito, tão ensaiadas, que eles, espertamente, acabam por não responder ao que lhes foi realmente perguntado, o que é uma pena, pois estão desperdiçando um momento de ouro.

Você não vê paixão nos olhos de ninguém, só certezas, estatísticas e aquela expressão de que está buscando na memória o discurso de ensaio. Todos parecem frios, burocratas e perfeitos; será que os problemas da cidade não merecem um certo arroubo de emoção? Ou o risco de demonstrar que se deseja apaixonadamente estar à frente do município, sob pena até de espantar a audiência, dando um sacolejo daqueles com alguma declaração politicamente incorreta? Dos vídeos-biografia que estão nos sites dos prefeitáveis, então, nem se fala: parecem propaganda de chá de camomila.

E tem também as alianças; fico um pouco confuso de ver inimigos que se odiavam darem as mãos e levantarem os braços e, tão logo as urnas são apuradas, eles voltam a falar coisas terríveis uns dos outros. Resta a impressão de que não existem partidos; tudo vira uma coisa só de acordo com os interesses, coisa que “lá em cima” não acontece: alguém imaginaria Bush pedindo votos para a reeleição de Obama nos Estados Unidos? Ou que Obama sequer aceite o apoio de Bush nessa hipótese estapafúrdia?

O que tem me embrulhado o estômago é candidato que avisa: “sou ficha limpa”. Lembro-me logo daqueles ambulantes que entram nos ônibus anunciando “eu não vim aqui para roubar”, e a gente só escuta, apavorado, a palavra “roubar”, antes de esconder a bolsa. É triste, triste demais, que se precise alardear o atributo de “ficha limpa” para postular um cargo público, algo que denotaria, em princípio, um idealismo pelo bem coletivo.

Nesta eleição, decidi radicalizar. Não voto em candidato que invade meu Twitter e meu Facebook com propaganda eleitoral. Se as pessoas estiverem interessadas, elas decidem por si mesmas visitar o perfil do digníssimo. Também deletei algumas criaturas que fizeram as vezes de cabos eleitorais virtuais colando postando santinhos na minha página.

Outro dia, um carro de som com aqueles jingles medonhos passou na minha rua às oito da manhã com o volume nas alturas. Anotei o nome do candidato: lista negra.

Fé é uma coisa maravilhosa; eu tenho minha religião, você tem a sua. Mas não gostaria de que meu prefeito e meu vereador tomassem decisões com base na fé alheia, então não imponho a minha. Estou fora de candidato religioso.

Prestei atenção nos candidatos que dedicam o tempo a atribuir todos os males da cidade às administrações anteriores. Não seria melhor aproveitar o tempo focando em propostas concretas? Lista negra.

Acabei de me dando conta de que minha lista negra estava extensa demais. Com essa abundância de programas de governo vagos e muitas vezes irrealizáveis, vi que ela deveria ficar, quem sabe, cinza. E, como a modinha literária nos mostrou que podem existir 50 tons de cinza, é de se lamentar que ainda haja tanta pornografia no pleito brasileiro.

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