Livro de Mo Yan vira centro das atenções de fotógrafos na Feira de Frankfurt
Johannes Eisele/AFP


Raquel Cozer, na Folha de S. Paulo

Em 2009, por ocasião da homenagem à China na Feira de Frankfurt, a tradutora alemã Karin Betz sugeriu livros de Mo Yan a várias editoras. Todas recusaram.

A razão foi justamente a participação de Mo Yan na feira, onde justificou seu posicionamento político afirmando que um escritor deveria ser julgado apenas por seus trabalhos.

“Ele foi visto como um escritor pró-Estado; os editores não quiseram. Não convenci ninguém, mas isso vai mudar agora”, disse Karin à Folha, na quinta (11), no estande da Suhrkamp, onde dois exemplares da tradução de “Taixiang Xing” foram estrategicamente expostos após o anúncio do Nobel.

Antes da feira de 2009, a respeitada editora alemã tinha comprado o direito do romance, sobre o declínio da dinastia Chin.

Karin prefere não definir o autor como pró-governo. “Ele não corre o risco de ser banido, mas trata de questões políticas amplas, de tortura e injustiça”, diz.

Olivier Bétourné, editor de Mo Yan na França –o chinês tem 12 livros pela Seuil–, concorda. “Ele é um escritor poderoso, divertido. E muito crítico, mas é uma crítica que se lê nas entrelinhas.”

E é também um autor com algum potencial comercial, diz ele : seus livros têm sempre as tiragens, de 5.000 a 6.000 cópias, esgotadas.

Na terra natal ele faz muito mais sucesso. Wang Weisong, da editora de Mo Yan na China, a Shanghai Century, conta que o livro mais recente, “Wa” (2009), teve 100 mil exemplares vendidos no país.

Na quinta, na Feira de Frankfurt, Weisong era só sorrisos. Desde o começo do evento, como a casa de apostas inglesa Ladbrokes colocava Mo Yan entre os mais cotados ao Nobel, muitos editores fizeram ofertas pelo livro.

Nenhum negócio foi fechado antes do anúncio. “Agora o passe dele vale mais”, disse Weisong, que providenciou um cartaz para divulgar o Nobel e “Wa”, seu único livro disponível no estande.

Ficará mais caro também para o editor que resolver publicar Mo Yan no Brasil, país onde nunca atraiu interesse.

Assim como o chinês, vários vencedores do Nobel eram inéditos no Brasil por ocasião da premiação –caso, entre outros, de Elfriede Jelinek em 2004 e de Tomas Tranströmer no ano passado.

Para o editor Samuel Titan Jr., do Instituto Moreira Salles, isso reflete a “falta de uma cultura de tradução no Brasil que vá além do óbvio”.

“Em países como a França, o tradutor sugere títulos, aqui ele funciona a reboque do que a editora oferece.”

Luiz Schwarcz, da Companhia das Letras, diz que é difícil achar avaliadores para obras de idiomas como o chinês. “É impossível dar conta de toda boa literatura que há no mundo”, resume.

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