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Lilian Marques, no G1

“Não sei contar minha história sem a filosofia. Eu não sei o que eu faria se não fosse escrever. Vivo porque escrevo e escrevo porque vivo. Isso acontece ao mesmo tempo, no mesmo instante. Não me interessa o mundo se eu não posso escrever”, disse a filósofa e escritora gaúcha Márcia Tiburi em entrevista ao G1. Ela participa da abertura da segunda edição da Festa Literária Internacional de Cachoeira (Flica), cidade no Recôncavo Baiano, na noite de quarta-feira (17), onde debaterá o tema “Literatura: introspecção ou exibicionismo?” ao lado do jornalista e também escritor Xico Sá.

Em um bate-papo por telefone com o G1, a filósofa e escritora contou um pouco da sua trajetória, falou sobre a sua relação com a filosofia, a produção do novo livro, “Era meu esse rosto” (Record, 2012) e da expectativa para a Flica.

Márcia Tiburi é gaúcha da cidade de Vacaria, interior do Rio Grande do Sul. Foi morar em Porto Alegre depois da adolescência para estudar. Tem graduação em filosofia e artes, é mestre e doutora em filosofia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS) e Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), respectivamente. A escritora também já participou da apresentação do programa Saia Justa, do canal fechado GNT, da Globo.

Hoje, além de se dedicar ao estudo sobre filosofia e a produção literária, ela é professora do programa de Pós-Graduação em Educação, Arte e História da Cultura na Universidade Mackenzie, em São Paulo, onde mora. Tiburi tem quatro romances publicados, além de obras sobre filosofia.

G1 – Gostaria que você falasse um pouco da sua trajetória como filósofa e escritora.
MT
– Sou professora desde 94. Escrevi alguns livros de filosofia. Dentre os vários, tem quatro romances. Um saiu esse ano [Era meu esse rosto – Record]. O livro “Olho de Vidro – A televisão e o estado de exceção da imagem” está indicado ao prêmio Jabuti esse ano. Acho legal falar dele porque ele é bacana, acho que as pessoas que assistem TV deveriam ler.

G1 – O que você acha das feiras e festas literárias?
MT
– Gosto muito. Acho um momento bacana para encontrar pessoas que vão, que estão a fim de ler, entender o território do livro, que no Brasil é meio terra de ninguém, considerando o índice de analfabetismo que temos aqui. Acho que vivemos uma época bacana de feiras, festas e festivais literários, eventos em torno do livro. É um momento em que as pessoas estão se ligando que o livro é importante. Existe um incentivo do governo, interesse do mercado, mas a sorte é do leitor se souber aproveitar. Por outro lado, não existe um destaque para a literatura e para os livros sérios. Existem, claro, muitos livros bons sendo vendidos. A gente vê mais o lixo da indústria do livro sendo vendido, por interesse do mercado e ignorância, tanto do mercado quanto dos leitores. Parece que é só uma mercadoria. Ao mesmo tempo, isso não é maldade pura e simplesmente. O livreiro vai procurar o livro que vende, muitas vezes ele é analfabeto. É claro que tem muita coisa boa também. Tem várias feiras que não tem como objetivo vender livro. Os eventos que não são simplesmente feira têm preocupação de qualidade. Acho que é uma questão a ser trabalhada na questão do livro no Brasil.

G1 – Quando se interessou pela filosofia e por lecionar?
MT
– É complicado falar disso porque a minha relação pela filosofia se confunde com a minha própria história de vida. Desde adolescente fui lendo filósofos nas bibliotecas públicas. Já gostava com 13, 14 anos. Dali veio com muita seriedade, não sei contar minha história sem a filosofia. É incrível mesmo. É como jogadores de futebol, que começam ainda meninos. Quando fui dar aula, percebi mais coisas, não uma simples leitura do texto. Eu era atraída pelo desafio, pela complexidade. Descobri a filosofia através dos livros. Ela está na relação com as pessoas, nas experiências da linguagem que a gente dispõe. Um dos livros que tem isso é o “Filosofia em Comum – para ler junto”, acho que é o mais lido. Ele fala sobre essa carga da experiência filosófica, experiência da linguagem.

G1 – Como é conciliar a vida social com o trabalho? É mãe?
MT
– Não vejo problema nenhum. Sou mãe sim. No fundo, eu desenvolvi uma história pessoal, de cuidar da minha vida, sou casada, tenho uma filha, nunca deixei de fazer nada em termos profissionais por causa da minha filha. Acho a maternidade coletiva. Ela foi filha das minhas irmãs, dos meus pais, dos caras que casei. Nunca deixei faltar nada para ela. Não tenho essa coisa de culpa materna. Hoje mesmo fiz almoço, estava em casa. Eu posso fazer isso uma vez por mês. Minha filha nasceu, não fui só eu que a pus no mundo, ela é ótima. A gente tem que fazer o que a gente quer. Tem mulheres que não têm a menor chance, mas eu fui cuidar da minha vida. Não me interessa o mundo se eu não posso ler e escrever.

G1 – Como é a relação com o público por meio das redes sociais? Como você lida com a instantaneidade dessas relações?
MT
– Eu gosto das pessoas. Brinco que meu animal preferido é o ser humano. Gosto dos meus alunos, dos jovens, gosto muito das pessoas jovens, gosto das pessoas. Para mim, é muito fácil lidar com essas redes, gosto do blog [de escrever no blog]. Acho muito legal, só tenho aquela crítica sobre o sentido e qualidade desses meios. Meu último artigo era sobre o que as pessoas estão esquecendo, o que são esses meios. Que são meios e não são fins. Gosto do contato com as pessoas [nas redes sociais]. Das que escrevem para pedir ajuda, tirar dúvidas.

G1 – Você escreve sobre temas ligados à filosofia. Como é feita essa escolha? Como foi o processo produtivo do “Era meu esse rosto”?
MT
– Tenho uma produção própria de filosofia. Não faço historia da filosofia, desenvolvi um estudo próprio. Gosto muito da filosofia da comunicação, sempre trabalho junto com essa estética. Fiz meu doutorado sobre filosofia contemporânea. Estudo a produção continuada da filosofia. Tenho um livro chamado “Filosofia Brincante”, que também foi indicado ao prêmio Jabuti. Ele é diferente, não vivo de pesquisar a infância, mas ele ficou um trabalho muito bonito. É aberto a outro campo, cenário, uma busca também. Busco continuar a obra no campo filosófico e no literário. Preciso fazer das duas formas para me sentir bem. O “Era meu esse rosto” foi o primeiro romance que comecei a escrever, foi devagar, paciente. Fui cortando, arrumando, sou obsessiva, cuido, desmancho, fico maníaca, não faço outra coisa da vida. Ele tem um lastro familiar, tem memórias da minha infância. Você vive sua vida, o personagem da sua vida, mas ele é uma pessoa concreta de uma pessoa que você convive. O personagem do livro é um fotógrafo que vai em uma busca de uma imagem de um avó dele e fica lembrando da infância dele durante essa procura. Tem uma linha que é para frente e que é para trás. É um arranjo de narrativa. Do lado afetivo também tenho recebido notícia de como ele é emocionante. Eu gosto particularmente dele porque ele tem muito a ver com meus próprios afetos. Na minha cidade [Vacaria] nevava, tinha geada, eu venho de um Brasil frio. Ele é muito marcado por essa sinestesia. Não é um mundo sem sentimento, mas são outros sentimentos. Descobri que o frio também é um afeto. A literatura abre portas para que você reveja, reaprenda e te liberta.

G1 – O que você acha do tema que será discutido por você e Xico Sá na Flica, “Literatura: introspecção ou exibicionismo”?
MT
– Eu nunca discuti isso. Adorei porque já tive encontros com Xico e acho que vai ser uma mesa bem humorada, divertida e com críticas. Acho um tema que obriga a gente a debater o que está sendo feito sobre o assunto. Mesmo os vaidosos dos escritores é um sujeito ferido. A literatura não nasce de uma relação superficial com a vida, nunca, nem para o mais babaca, nem para o mais vaidoso. Esse negócio [de escrever] é para gente que sofre. Acho que quem é ressentido sofre. Para quem a gente vai escrever num mundo que o livro pode não ser tão valorizado? É uma atividade tão desvalorizada. Eu não sei o que eu faria se não fosse escrever. Vivo porque escrevo e escrevo porque vivo. Isso acontece ao mesmo tempo, no mesmo instante.

G1 – Pretende assistir a outros debates na Flica?
MT – Vou chegar um dia antes [do evento], não vai dar para ficar mais, vou dar aula no outro dia. Mas por mim ficava aí a vida toda.

G1 – Conhece Cachoeira? Qual a sua relação com a Bahia?
MT
– Não, só conheço Salvador. Já estive aí algumas vezes. Tenho amigos baianos, vou adorar.

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