A escritora Cecilia Meireles
A escritora Cecilia Meireles

Douglas Gavras, na Folha de S.Paulo

Há quem diga que bons livros se encontram em sebos. A lenda viria da crença de que um escritor, de tão procurado, faria com que os leitores tivessem que esperar para ler suas obras em segunda mão.

Pois três grandes poetas da literatura brasileira têm agora seus versos de volta às livrarias. Até 2014, as obras de Cecília Meireles, Manuel Bandeira e Mario Quintana ganham esperadas reedições.

A poesia de Cecília e de Bandeira foi sumindo das estantes desde o fim do contrato entre a Nova Fronteira e a agência literária que detém os direitos de publicação da dupla.

Um acordo assinado com a Global deu origem a novos volumes do épico “Romanceiro da Inconfidência”, publicado pela primeira vez por Cecília em 1953, e de seu intimista “Viagem”, de 1939.

Bandeira retornou com as coletâneas de versos “Estrela da Manhã” (1936) e “Estrela da Tarde” (1960), além da autobiografia em prosa “Itinerário de Pasárgada” (1954).

De Quintana, há antologias consagradas como as da L&PM e da Nova Aguilar, portas de entrada para sua obra. Mas as reedições de seus títulos originais lançadas pela Editora Globo estão quase todas fora de catálogo.

A primeira fornada, sob o selo da Alfaguara, é composta pelos três primeiros livros lançados por ele em Porto Alegre: “A Rua dos Cataventos” (1940), “Canções” (1946) e “Sapato Florido” (1948).

Há ainda um título que fez sucesso três décadas depois, “Apontamentos de História Sobrenatural” (1976), parte da fase madura de Quintana.

Os três autores projetaram bases para a poesia brasileira do século 20, ainda que tenham permanecido distantes do ponto de vista estético.

“Bandeira também tinha temas regressivos, voltas ao mundo da infância, mas sua poesia expressa mais maturidade do que a de Quintana”, aponta o crítico Luís Augusto Fischer, coautor da biografia “Mario Quintana – Uma Vida para a Poesia”.

“Já Cecília Meireles, parece guardar certa solenidade, na retórica ou na abordagem dos temas, que Quintana não tinha”, completa.

Distantes em origem e estilo, o trio expressou pela literatura a admiração mútua.

À Cecília, Quintana dedicou: “Senhora, eu vos amo tanto/ Que até por vosso marido/ Me dá um certo quebranto”.

Ela, por sua vez, teceu uma poesia em que o menino Jesus pede à Sant’Ana que substitua as canções natalinas por poemas do colega gaúcho.

E sobre os versos de Cecília, Manuel Bandeira assim escreveu: “Tudo [é] bem assimilado e fundido numa técnica pessoal, segura de si e do que quer dizer”.

foto: Acervo UH/Folhapress

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