Luís Felipe e e Cláudia uniram diferentes vocações para formar o conceito da Poetria. Autores como Jorge Amado, Mário Quintana e o paranaense Dalton Trevisan integram o acervo

Isadora Rupp, na Gazeta do Povo

Ler requer silêncio, e esse tempo em que nos calamos parece cada vez mais raro. Ter um pequeno negócio que pretende chamar as pessoas para se dedicar a isso e vender livros que não constam nas listas dos dez mais vendidos parece coisa de “maluco.” Mas o casal Luís Felipe Jacobsen e Cláudia Menegatti resolveu ir na contramão e teimar com aqueles que dizem repetidamente que o livro vai acabar. O engenheiro eletricista e a psicóloga uniram diferentes vocações – e economias – para criar o espaço Poetria, café e livraria especializada em literatura e artes que abriu em Curitiba há pouco menos de um mês.

“Mesmo contradizendo pesquisas que mostram uma tendência para o livro eletrônico, as pessoas citam o prazer de manusear um livro de papel”, diz Cláudia, que se define uma verdadeira apaixonada pela leitura. Gosto que passou para o “namorido”, como gosta de chamar o companheiro e sócio, que admite que adquiriu o hábito de ler mais após conhecê-la (os dois estão juntos há dois anos e meio). “Juntamos duas vontades: ela, a de abrir uma livraria, e eu, de gerir um negócio”, conta Jacobsen.

Aniele Nascimento/Gazeta do Povo

Apesar de otimistas, ambos têm consciência dos riscos que o negócio envolve, tanto que planejaram-se para começar o investimento – que foi de R$ 80 mil – sem empréstimos. “Não temos uma marca, por isso, nos organizamos para abrir sem endividamento algum”, explica Jacobsen.

Desde adolescente, quando escrevia poesias, que inclusive foram publicadas no livro Luzes ao Amanhecer, quando tinha 15 anos, Cláudia se imaginava envelhecendo em uma livraria. “Mas a oportunidade veio antes, e resolvemos aproveitar.” O espaço de 45 metros quadrados que abriga a Poetria já foi um antiquário, que pertencia a uma amiga. Quando receberam a notícia de que o imóvel ficaria livre para locação, começaram a consultar conhecidos para montar o acervo.

O trabalho de pensar a livraria foi feito durante a madrugada e aos fins de semana, já que os dois se dividem com outras atividades. Jacobsen tem o emprego e a pós-graduação na área de negócios na Fundação Getúlio Vargas, e Cláudia, o consultório e cursa um doutorado na Universidade Federal do Paraná.

Raridades

Decididos a oferecer títulos mais raros no mercado, eles enfocaram clássicos – autores como Clarice Lispector e Mário Quintana são alguns dos presentes nas estantes –, títulos infantis, de arte e quadrinhos para adultos.

Incentivar a literatura paranaense é outro objetivo – há vários livros de Dalton Trevisan, por exemplo, e títulos de editoras locais para venda consignada. Cláudia conta que teve dificuldades em reunir obras da poeta Helena Kolody – ela pretendia fazer um espaço específico para homenageá-la.

Curitibanos

Pequenos saraus de literatura e poesia, exposições e encontros também estão no planejamento, e a ideia é fazer até dois eventos por semana, além de pequenos cursos para incentivar e mostrar o trabalho de artistas que produzem em Curitiba. Os interessados em participar já surgiram: um artista plástico mora próximo e deixou quadros para expor; outra artista, também vizinha, planeja um curso voltado para crianças.

Porém, a principal intenção do casal é que o espaço se consolide como um local de leitura; desejo explícito logo na entrada, onde está uma frase em giz branco gravada no quadro-negro que decora o café. Dizem as palavras atribuídas ao escritor Jorge Amado: “Eu continuo firmemente pensando em modificar o mundo e acho que a literatura tem uma grande importância”.

dica do Chicco Sal

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