A escritora Ana Maria Machado, presidente de Academia Brasileira de Letras

Raquel Cozer, na Folha de S. Paulo

Se estivesse vivo, o paranaense Wilson Bueno (1949-2010) seria o autor com mais motivos para questionar o jurado “C” do Prêmio Jabuti.

Em três semanas, seu romance “Mano, a Noite Está Velha” (Planeta) caiu 8,34 pontos, numa escala de 0 a 10, na avaliação do crítico e editor Rodrigo Gurgel.

O romance ficou em primeiro lugar na fase inicial da disputa por ser o único dos 142 concorrentes votado pelos três jurados –cada jurado elegeu dez títulos e atribuiu notas apenas a eles. Passaram à segunda fase os dez com nota total mais alta.

Em 26 de setembro, na primeira etapa, o romance de Bueno recebeu média 8,67 de Gurgel. Na quinta passada, levou do jurado média 0,33.

Outro título que caiu bruscamente na avaliação de Gurgel foi “O Passeador” (Rocco), de Luciana Hidalgo, cuja média passou de 9 a 0,83.

Gurgel não votou em “Infâmia” (Objetiva), de Ana Maria Machado, na primeira fase. Na segunda, atribuiu-lhe 0,17.

O livro da imortal foi o mais bem votado pelos jurados “A” e “B” nas duas etapas. Ficou em segundo lugar na fase um e, devido ao jurado “C”, em sexto na classificação final.

Embora a Objetiva tenha declarado “perplexidade” pela “evidente manipulação do resultado”, a escritora evitou se manifestar para não “dar a impressão de estar desmerecendo quem ganhou”.

Questionada pela Folha, a presidente da Academia Brasileira de Letras argumentou que o jurado “C” não votou “apenas a favor de alguém”, e sim “contra o meu livro”.

“O que haverá no ‘Infâmia’ capaz de despertar tanta ira? Que setores se sentiram atingidos com tanta intensidade pelo que narro no romance e por quê? Ou todo mundo acha que o objetivo dele era só dar a vitória a um estreante que o deixara embasbacado com suas qualidades?”

O livro trata da forma como “documentos espúrios e falsificações criminosas difundidas por meio da imprensa”, como diz um personagem, se abatem sobre os que injustamente se tornam réus.

“Nada muda o fato de que não vou poder anunciar que o livro ganhou o prêmio e ter todos os benefícios que isso pode trazer, do dinheiro ao prestígio. Porque ele não ganhou. Simples assim”, diz.

O vencedor do Jabuti, “Nihonjin“, de Oscar Nakasato, sobre a imigração japonesa ao Brasil, foi votado só por Gurgel na fase um, mas foi bem avaliado pelos três jurados na final, com média 9,33.

dica do Tom Fernandes

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