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Sergio Rodrigues, no Todo Prosa

Nu na banheira, encarando o abismo (um manifesto sobre o fim da literatura e dos manifestos) é o prolixo título de um ensaio apocalíptico de Lars Iyer publicado no 12º número da revista “serrote”, que chega às livrarias semana que vem. Trata-se aparentemente de mais um aborrecido atestado de óbito da literatura, como aqueles que críticos sem conta vêm emitindo – para um departamento onde logo lhe carimbam “arquive-se” – há pelo menos um século. No entanto, o ensaio de Iyer se destaca da produção habitual dos apocalípticos por dois motivos. O primeiro é que é bem argumentado e bem escrito, com paixão e verve, característica respeitada pela tradução de Thiago Lins e que só um verdadeiro amante de literatura (um necrófilo, segundo o argumento do autor) poderia lograr.

O segundo motivo é mais interessante ainda: sendo também ficcionista – é professor de filosofia numa universidade inglesa e autor de dois romances – Iyer acaba deixando claro, na parte final do texto, que discute consigo mesmo. Sua preocupação principal é identificar aquilo que ainda pode ser escrito após a suposta morte da literatura, uma vez que, evidentemente, escrever continua sendo preciso, não apenas para ele como para muitos de nós. É isso que o leva a eleger como seus cicerones pós-apocalípticos três famosos escritores-legistas – Roberto Bolaño, Enrique Vila-Matas e Thomas Bernhard – e encerrar o ensaio com uma lista de conselhos a quem insiste em fazer literatura, que mais uma vez soam como lembretes a si mesmo e que vão reproduzidos abaixo. Tudo muito discutível, claro. Neste caso, isso é elogio.

Utilize uma clareza não literária. Sabe-se que o jogo acabou, que está tudo terminado. O estilo de ‘Os detetives selvagens’ é notavelmente não literário, quase deselegante, apesar de todo o virtuosístico desassossego de suas vozes narrativas. (…) O abismo necessita da clara constância de um testemunho, da sobriedade de uma testemunha no dia seguinte, para lembrar-se do que ocorreu antes. A literatura não é mais o objeto em si, e sim o objeto desaparecido.

Rejeite métodos encerrados, rejeite obras-primas. O anseio de criar obras-primas é uma espécie de necrofilia. A escrita deve estar aberta a todos os lados da vida para que seu esboço – a vida melancólica e farsesca – possa estar presente, saqueando suas páginas. Vila-Matas afirma ser necessário, para qualquer um que escreva um texto ficcional, mostrar a própria mão, permitir que uma imagem de si mesmo apareça. (…) Siga sua própria tolice como pegadas na areia.

Escreva sobre este mundo, independentemente do assunto sobre o qual esteja escrevendo, escreva sobre um mundo dominado por sonhos mortos. Ressalte a ausência de esperança, crença, compromisso ou seriedade elevada. Assinale o passado que nos arruinou e o futuro que nos destruirá.

Deixe claro seu sentimento de impostura. Você não é um autor, não no antigo sentido da palavra. (…) Não há nenhum prêmio para você na literatura, claro que não, nada para sua pompa insensata. Além disso, pouquíssimas pessoas estão lendo de verdade: atente para esse fato também. Ninguém está lendo, idiota! Existem mais romancistas do que leitores. Existem livros demais…

Dê vulto à sua melancolia. Deixe claro que o fim está próximo. A festa acabou.

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