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Publicado originalmente em No Mundo & Nos Livros

Para escrever poesia é necessário um vagar, um ócio criativo que não é próprio dos nossos dias contemporâneos. Daí o pensamento de que ninguém pode ser poeta hoje em dia… Mas a matéria poética de que é feita a poesia está disponível para todos ou é propriedade de uns poucos eleitos? A verve criativa é propriedade de quem desenvolve seus talentos inatos para escrever, desenhar ou pintar.

Se você desenvolve, isso é, se você trabalha em torno da arte, chegará um belo dia que a fluidez fará morada na sua atividade e você estará a um passo de concretizar arte no assim dizer do termo. Ou seja, o fazer poético é daqueles que trabalham, 99% de transpiração e 1% de inspiração. Mas e a famosa preguiça do poeta, tão decantada e tão famosa no imaginário popular?

É verdade que é necessário certo ócio para a arte. Ter mil e uma atividades em torno do fazer artístico não é garantia de boa conclusão, pelo contrário, é, muitas vezes, garantia de um mau desenvolvimento. No entanto, esse não-fazer é permeado de coisas a pensar, coisas a imaginar, coisas a delirar… E não é propriedade única e exclusiva do artista. Os grandes cientistas também tem seus repousos para refletir antes de descobertas monumentais. Sendo assim, a preguiça é mito, já que o trabalho é necessário e muito além da noção de talento que se coloca vez por outra para designar arte. Mas quem não já se espreguiçou entre uma trabalhada e outra?

Arte tem relação direta com o tempo. Tempo do fazer, tempo do não-fazer. Tempo preenchido, tempo vazio. Todas essas conjecturas nos mostram que o artista está onde a poesia está. E onde a poesia está? Está no tempo que não passa, está no relógio que voa quando menos esperamos, está na atitude com que experimentamos nosso tempo ou não experimentamos. A poesia acontece quando menos esperamos.

A poesia é a nossa guia para assuntos extra-temporais, já que não permitimos que ela venha fazer companhia nas horas de atividade, ela vem nas horas vagas. Poderia o poeta estar num outro tempo? Freqüentemente está. O seu tempo é o tempo da solitude, o tempo do recolhimento. E é por isso que se diz que ninguém é poeta hoje em dia, porque o tempo se tornou escasso e fala-se muito quando não se tem nada a dizer. O silêncio bem como a morosidade são atributos de um passado idílico cheio de lembranças … Mas hoje há a necessidade dessa morosidade e desse silêncio mais do que nunca. Que esse passado esteja prenhe de possibilidades hoje para nossos poetas e artistas.

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