Mick Jagger em show dos Stones nos anos 1970
Foto: Associated Press

Publicado originalmente no Tribuna Hoje

Em meados dos anos 1980, uma editora inglesa adiantou a Mick Jagger, 69, líder dos Rolling Stones, 1 milhão de libras por sua autobiografia, que seria escrita por um “ghostwriter” a partir de entrevistas gravadas.

Deu tudo errado. Não houve como dar forma digna a um amontoado de relatos chatíssimos e ele teve de devolver o dinheiro.
O que deveria ser uma epopeia sobre a vida do “rock star” mais parecia um coletivo de tergiversações. Nada –pelo menos que importasse– sobre sexo, drogas e rock’n’roll.

“Por mais cínico que isso possa parecer, ele nunca se esquivou de alegar que não se lembrava de certas passagens da vida. Coincidentemente as mais polêmicas”, disse Philip Norman em entrevista, de Londres, onde vive.

Norman teve lançada nesta semana, no Brasil, “Mick Jagger”, uma biografia pormenorizada do cantor que neste ano completou 50 anos a frente da maior banda de rock da história.

O primeiro encontro dos dois aconteceu em 1965, quando o escritor o entrevistou nas escadarias de um cinema londrino. “Enquanto ele respondia às minhas perguntas sem muito interesse, flertava com uma garota que estava atrás de mim”, conta.

Isso nunca mudou: o desinteresse por detalhar a própria vida e a sede irrefreável por mulheres. Mas não só.

O Jagger que emerge da biografia de Norman é um sujeito grandioso e paradoxal. A depender do ângulo, tão arrivista, mesquinho e manipulador quanto afetivo, focado e carismático.

Filho de uma família de classe média do interior da Inglaterra, ele nunca teve o que Norman chama de “vácuo negro”, uma condição que explicaria o brilho de estrelas como Keith Richards, o guitarrista dos Stones.

“Ele nunca deixou que os excessos, inclusive os que mataram parte de sua geração, o tirassem do controle de tudo: das drogas, das mulheres (às vezes dos homens), dos negócios e da banda.”

DETALHES TÃO PEQUENOS

Detalhista quase ao ponto de exasperar o leitor, Norman traz versões embasadas e definitivas sobre casos estrepitosos da vida de Jagger.

Como a prisão dele por porte de drogas (cedida por um agente de contrainformação da CIA) em 1967, a tragédia da morte de fãs em Altamont, festival realizado pela banda cuja segurança foi entregue aos Hell’s Angels, o flerte com o ocultismo, a relação turbulenta e apaixonada com Marianne Faithfull, a história de suas principais canções, os casos e os casamentos que lhe deram sete filhos, a relação distanciada com a família e os amigos, além do forte tino empresarial.

No palco, para o autor, Jagger é uma mistura de todos esses atributos e desabonos. “Ao mesmo tempo em que ele se entrega ao público, extrai dele, sem dificuldade, a adoração que alimenta o seu narcisismo”, diz.

“Você pode explicá-lo de várias formas, mas nada se encaixa direito. É um cara egoísta, mas um pai cuidadoso [Jagger teve filhos com Jerry Hall e é pai de Lucas, filho de Luciana Gimenez]; há 20 anos mal fala com os colegas da banda, ao mesmo tempo em que, junto deles, se transforma em uma força priápica de tão sedutora”.

Seduziu o próprio Norman, que em 2002 criticou a concessão a Jagger do título de Sir pela rainha da Inglaterra, mas, hoje, pensa que foi merecido. “Foi o que me restou depois desse mergulho profundo na vida dele”, entrega.

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