Verissimo, na sua casa em Porto Alegre, com o retrato do pai, Erico Verissimo, à frente. Ele diz que gostaria de ser uma mistura de George Clooney e Ariano Suassuna (Foto: Marcio Scavone)

Aos 76 anos, o escritor diz que lhe falta pouco para a realização. Talvez apenas uma aventura com Angelina Jolie, nem que seja por telefone

Luís Antonio Giron, na Época

O escritor Luis Fernando Verissimo ainda mora em Porto Alegre, onde nasceu há 76 anos. Ainda viaja pelo mundo, toca saxofone num grupo de jazz e produz crônicas, contos e romances sem parar. Apesar da hiperatividade, não gosta de falar sobre o que faz. Acaba de lançar Diálogos impossíveis (Objetiva, 176 páginas, R$ 32,90), o 25º volume de crônicas em 40 anos de carreira. Desta vez, imagina conversas entre personagens históricos, literários ou mesmo inexistentes, inventados na hora de escrever. Os pintores Picasso e Goya discutem luz. Don Juan dialoga com a Morte, Robespierre com seu verdugo. Tímido incurável, Verissimo preferiu responder por escrito sobre o que espera do mundo, dos homens, da literatura… e de todo o resto.

ÉPOCA – O que o senhor espera da vida ainda?
Luis Fernando Verissimo –
Pois é, com 76 anos o máximo que posso esperar da vida é mais um pouquinho de vida. Uns dez anos, não sou exigente.

ÉPOCA – O que o senhor gostaria de fazer e nunca fez?
Verissimo –
Sexo oral com Angelina Jolie. Pode ser por telefone.

ÉPOCA – Quem o senhor gostaria de ser?
Verissimo –
Um misto de George Clooney e Ariano Suassuna.

ÉPOCA – Se houvesse reencarnação, aceitaria ser recebido pelo pessoal do espiritismo?
Verissimo –
Aceitaria, claro. Principalmente se as encarnações anteriores contassem tempo para o INPS.

ÉPOCA – Caso acreditasse no cristianismo em Dante, o senhor se encaixaria melhor no Inferno, no Paraíso ou no Purgatório?
Verissimo –
No Paraíso, que pergunta. Desde que pudesse passar os fins de semana no Inferno.

ÉPOCA – O senhor mantém um círculo de amigos ou prefere a vida de eremita?
Verissimo –
Sou um antissocial com muitos amigos.

ÉPOCA – Quais são seus passatempos?
Verissimo –
A música. Toco saxofone, embora haja controvérsias sobre se o “termo” é tocar.

ÉPOCA – Como o senhor trabalha? Há um método, uma superstição, uma disciplina?
Verissimo –
Os prazos de entrega da coluna impõem certa rotina, mas normalmente sou bastante desorganizado no trabalho. Disciplina zero.

ÉPOCA – Descreva como as ideias para as crônicas surgem.
Verissimo –
De onde vêm as ideias, eu não sei. Quando vem uma ideia, confio na memória para me lembrar dela, o que raramente funciona. Pior é a sensação de que as melhores ideias são as que a gente esquece. Já tentei andar com um caderninho para anotar as ideias, mas aí elas começaram a vir no chuveiro.

ÉPOCA – O senhor é daqueles que escrevem à mão?
Verissimo –
Não. Escrevo a dedos. Dois, no computador.

ÉPOCA – Por que viaja tanto?
Verissimo –
Comecei cedo, viajando com meus pais, e gostei. Depois, quis proporcionar a mesma experiência a meus filhos. Gosto tanto de viajar que gosto até de comida de avião. Mas sempre voltando a Porto Alegre, onde tenho minha base emocional.

ÉPOCA – Por que prefere os gêneros “menores”, como a crônica ou o romance humorístico, à epopeia ou ao romance? Nunca pensou em ser um Tolstói? Ou um Erico Verissimo (seu pai)?
Verissimo –
Alguns dos melhores escritores brasileiros só fizeram crônica, como o Rubem Braga, o Paulo Mendes Campos, o Antonio Maria e o Sergio Porto. Não me considero da mesma linhagem, mas não acho a crônica um gênero menor. Na verdade, não tinha a intenção nem de ser escritor, quanto mais ser um Tolstói ou um Erico Verissimo.

ÉPOCA – O que significa escrever?
Verissimo –
É uma atividade que comecei meio tarde e meio por acaso e que tem garantido o uísque das crianças. Mais pretensiosamente, é uma maneira de dar um testemunho sobre meu tempo. Crônicas são anotações nas margens da história. Uma analogia que só se sustentará enquanto o livro não for substituído pelo tablet.

ÉPOCA – Que autores o influenciaram de fato? Quais aqueles de que o senhor gosta, mas nunca alteraram uma vírgula em sua obra?
Verissimo –
Entre os brasileiros, li muito os cronistas. Também Moacyr Scliar, Rubem Fonseca, Clarice Lispector, Erico Verissimo. Tenho lido com muito prazer o Milton Hatoum, o José Roberto Torero, o Tabajara Ruas. Destes, não sei quem me influenciou. Talvez meu pai, que foi um dos primeiros a escrever com a informalidade que também busco.

ÉPOCA – Entre seus livros, qual é seu favorito? Ou o senhor ama igualmente todos os seus rebentos literários?
Verissimo –
O analista de Bagé foi importante, porque foi o primeiro a ter mais repercussão, embora não fosse diferente das outras coleções de crônicas. Entre os romances, acho O clube dos anjos e Borges e os orangotangos eternos os mais bem-acabados.

ÉPOCA – Que conselhos o senhor dá aos jovens autores?
Verissimo –
Leiam.

ÉPOCA – O senhor lê autores estrangeiros da moda, como Philip Roth, Jonathan Franzen ou David Foster Wallace?
Verissimo –
Dos atuais, o Roth. Dos antigos, o (Saul) Bellow, o (F. Scott) Fitzgerald, o (John) Dos Passos, o Graham Greene, o Evelyn Waugh, o (Vladimir) Nabokov.

ÉPOCA – Como vê a ascensão da literatura erótica para moças?
Verissimo –
Acho engraçado que, na era da igualdade entre os sexos e do fim do machismo, exista sexo light para mulheres, como existem suplementos femininos na imprensa, apesar de hoje as mulheres serem maioria em muitas redações.

“Não acho a crônica um gênero menor. Crônicas são anotações nas margens da história”

ÉPOCA – O senhor sempre se alinhou com a esquerda. Como analisa a política brasileira hoje?
Verissimo –
O fato de haver eleições livres, debate, liberdade de opinião etc. é um avanço óbvio. Democracia econômica ainda falta, mas em matéria de democracia formal estamos bem. A inesperada rejeição a Celso Russomanno em São Paulo foi uma prova de maturidade política que vem com a prática democrática.

ÉPOCA – O senhor aborda questões existenciais em seus textos. É um cético ou é só um jogo de linguagem nas crônicas?
Verissimo –
Sou um cético total, mas aberto a revelações.

ÉPOCA – Prefere pregadores tradicionais, religiosos, ou a turma dos ateus?
Verissimo –
Não havia literatura ateísta antes do (Richard) Dawkins e do (Christopher) Hitchens. Acho uma boa novidade. Tudo o que se disser sobre os males do monoteísmo é bem-vindo.

ÉPOCA – Em seu novo livro, Danton aparece como frasista na crônica sobre Robespierre. Essa não é uma característica sua?
Verissimo –
Dou a impressão de estar fazendo frases na véspera de ser guilhotinado? Olha, pode ser uma boa descrição de como me sinto…

ÉPOCA – Dizem que o senhor está mais americanizado que nunca. Concorda?
Verissimo –
Morei sete anos nos Estados Unidos, na infância e na adolescência. Tive uma ligação muito forte com a cultura americana. O cinema, a literatura, a música. É natural que isso afetasse a escrita. Já ouvi dizerem que escrevo em inglês traduzido.

ÉPOCA – Sua timidez parece fora de moda. Não é hora de soltar a franga para brilhar ainda mais nos festivais literários?
Verissimo –
Na verdade, o difícil tem sido segurar a franga. Ultimamente, eu mesmo não tenho me reconhecido.

ÉPOCA – O senhor pensa na posteridade de sua obra?
Verissimo
– Não acho que tenha uma obra literariamente importante.

Comments

comentários

Powered by Facebook Comments