REBOLADO NO AUGE
O cantor e compositor inglês Mick Jagger em 1969. Aos 26 anos, ele já era o ídolo do rock
(Foto: Michael Ochs Archives/Getty Images)

Luis Antonio Giron, na Revista Época

Quem assiste hoje aos shows de Mick Jagger não percebe que a figura selvagem do ídolo do rock dos anos 1960 não passa de um personagem de palco. Por trás do desempenho frenético do líder da banda inglesa The Rolling Stones, com seu ar de adolescente malcriado, está um senhor de 69 anos de hábitos aristocráticos, pai severo de sete filhos com quatro mulheres diferentes e avô de duas crianças – um bilionário que impõe o manual de etiqueta vitoriano para a criadagem em suas mansões.

O escritor inglês Philip Norman passou os últimos três anos tentando arrancar a máscara de Jagger, na tentativa de revelar o homem que não sobe ao palco. O resultado é a biografia Mick Jagger (Cia. das Letras, 624 páginas, R$ 49,50), lançada há um mês no Reino Unido e agora no Brasil.

“Mick Jagger é um grande ator, que faz o mesmo papel de ídolo do rock há 50 anos”, disse Norman a ÉPOCA. Com a mesma idade de Jagger, ele diz que passou a vida escrevendo sobre duas bandas de rock, partes da mesma história: Beatles e Rolling Stones. Como jornalista de música, conheceu os artistas no início de carreira. Em 1981, publicou um livro sobre a história dos Beatles. Em 2009, a consagrada biografia John Lennon: a vida. “Mick merecia um tratamento específico por ser a figura central da contracultura que explodiu em Londres nos anos 1960”, diz. “Esse ambiente de agito cultural não teria sido o mesmo sem o talento de Mick. Ele elaborou um paradoxo: o bom rapaz que lançou padrões de transgressão.”

Norman esperou por uma efeméride, o cinquentenário de carreira dos Rolling Stones, para publicar o livro, feito a partir de pesquisas e entrevistas. Jagger se recusou a falar. Ele e os Stones estarão de volta aos palcos em novembro, quando iniciam a turnê 50 and counting, e lançam a coletânea de sucessos Grrr! A comemoração está atrasada em relação à estreia dos Stones, em 12 de julho de 1962. Houve discussões penosas entre os quatro músicos remanescentes até chegar a um projeto viável de celebração. Jagger deu a palavra final: “Será um megaevento”. Era inevitável. Os Stones formam a maior empresa de rock do mundo. De 1989 a 2011, ganharam 2 bilhões de libras (R$ 12,8 bilhões) em valor bruto. “Os Stones são um fenômeno de longevidade graças a Mick”, diz Norman.

No início, era um conjunto instável, que sofreu com uma morte e a saída de dois integrantes, além do envolvimento com drogas e fugas do Fisco. “Não tinham nada para se manter. O gênio de organizador de Mick fez os Stones atravessar o século”, diz Norman.

O problema de lidar com uma personagem pública como Jagger é que ninguém sabe quem ele realmente é, apesar de pensar que sabe. Confrontando os presunçosos que imaginavam que tudo já fora contado, Norman fez pelo menos três descobertas. A primeira é que Mick e seu parceiro Keith Richards foram injustiçados pela polícia britânica. Em 1967, foram presos por porte de drogas. A evidência foi um pacote de tabletes de LSD “plantados” na casa de Keith por um tabloide. Eles ficaram presos em duas prisões diferentes, ambas reconhecidas pelas condições terríveis. “Eles sofreram violência lá dentro”, diz Norman. “Foi traumático, especialmente para Mick.” A segunda descoberta diz respeito à onda de violência durante o show no autódromo de Altamont, San Francisco, em 1969. Mick foi culpado de acobertar as agressões do bando Hell’s Angels, que culminaram no assassinato de um jovem negro, enquanto Jagger cantava. “Ele se portou com coragem, enfrentou os Angels e tentou conter a violência”, afirma Norman. Por fim, na terceira descoberta, o papel do produtor Andrew Oldham na definição da banda ganha nova luz. Ele criou o clima de rivalidade e oposição entre os Stones e os Beatles, embora os integrantes dos dois grupos fossem amigos. Jagger e Oldham eram tão íntimos, diz Norman, que as namoradas de ambos achavam que eram amantes. É certo que dormiam na mesma cama.

“Mick não ostenta só duas faces, mas um número incalculável delas”, afirma Norman. “São tantas as camadas que ele justapôs ao próprio rosto que vários candidatos a biógrafos dele se perderam na tentativa de desmascará-lo. Ele conseguiu manter intacto seu verdadeiro eu, bem mais complexo e interessante que seus disfarces.” A personalidade reservada de Mick resulta de uma educação tradicional. Ele contraria todos os estereótipos das celebridades da cultura pop, que construíram suas lendas pessoais a partir da pobreza, da rejeição e dos excessos. Michael Philip Jagger nasceu numa família convencional de classe média. Sua mãe, Eva, uma esteticista australiana, despertou nele o gosto pela boa aparência. O pai, Joe, era professor de educação física e orientou seus dois filhos, Mick e o caçula, Chris, a cultivar o corpo. Mick contou com o apoio deles quando entrou na prestigiosa London School of Economics. Os pais se resignaram quando ele trancou a matrícula para ser astro de rock.

Quando o estrelato chegou, Jagger sobreviveu às duas tentações de seu tempo: as drogas pesadas e a militância política. Enquanto sua namorada, a cantora Marianne Faithfull, entregava-se à heroína, e seus companheiros de banda Keith Richards e Brian Jones ao LSD, ele provava as duas, sem se perder em nenhuma delas. “Mick não gostava de drogas”, diz Norman. “Nunca se viciou.” No instante em que todos os artistas da era hippie participavam de passeatas pacifistas, ele assistia a tudo de óculos escuros… de uma distância segura. Seu fraco é sexo, afirma Norman. Hoje ele seria chamado de transtornado. Seus dois casamentos e centenas de casos com homens e mulheres parecem ter servido como elixir da juventude. “A carreira sexual dele é quase tão espantosa quanto a musical”, afirma Norman. “Ele se habituou a viver como um adolescente que não precisa tomar providências chatas da vida. Se acostumou também a tratar suas mulheres como lixo. Temia que muitas delas lhe roubassem o dinheiro, e não foram poucas que fizeram isso. Mesmo assim, mostrou ser um pai disciplinador e divertido. Seus filhos o adoram.” O livro de Norman tem obtido boas resenhas na Inglaterra e nos Estados Unidos, embora alguns críticos digam que ele produziu um retrato positivo demais de Jagger – fato que não pode ser atribuído a qualquer influência do biografado. “Mick não quis falar”, diz Norman. “Ele age como membro da família real. Não concede entrevistas de cunho pessoal, não se manifesta, finge não se lembrar do passado. Como disse o baterista dos Stones, Charlie Watts, Mick não pensa no presente nem no passado. Só no futuro.”

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