O editor da Granta, John Freeman, na Redação da revista literária, em Londres

Fabio Victor, na Folha de S. Paulo

“Você tem certeza de que Vanessa Barbara existe mesmo? Nós aqui estamos achando que ela é uma invenção do Antonio Prata.”

O chiste do editor da revista britânica “Granta”, o americano John Freeman, indica o clima que dominou nos últimos meses a Redação da publicação, em Londres.

A dificuldade em contatar alguns autores –num dado período, Vanessa de repente sumiu– foi parte de um processo que começou em julho, quando foi lançada no Brasil a “Granta – Os Melhores Jovens Escritores Brasileiros”, e é concluído agora, com o lançamento da versão do volume em inglês.

Quando Freeman fez a brincadeira, numa visita da Folha à Redação da revista, em Londres, em setembro passado, a edição traduzida para o inglês acabara de ser finalizada.

A “Granta” incumbiu 15 tradutores de verterem para o inglês os textos dos 20 brasileiros selecionados. Prata e Vanessa, ambos colunistas da Folha, estão entre eles.

A partir do dia 12, outros noves autores participam de eventos de lançamento nos EUA e no Reino Unido.

São eles: Carola Saavedra, Chico Mattoso, Cristhiano Aguiar, Daniel Galera, João Paulo Cuenca, Michel Laub, Miguel Del Castillo, Tatiana Salem Levy e Vinicius Jatobá. A programação está na página www.granta.com.

Em março, deve sair a tradução para o espanhol e para o mandarim. A “Granta” dedicada ao Brasil teve apoio do governo federal. Por meio do seu Programa de Apoio à Tradução, a Fundação Biblioteca Nacional repassou US$ 8.000 (R$ 16,2 mil) à publicação.

SIMPLES

O prestígio internacional da “Granta” não altera a simplicidade do ambiente em que a revista é produzida.

A Redação funciona no primeiro andar de um casarão branco com fachada neoclássica no bairro nobre de Holland Park, na zona oeste de Londres.

Em torno de uma pequena sala de estar com poltronas e mesa de centro estão dispostos os escritórios da equipe editorial –oito pessoas que cuidam da revista e da editora Granta Books– e uma copa aberta.

Freeman ofereceu café, que descansava numa velha cafeteira elétrica. A caneca foi colhida da pia, o repórter passou uma água e pediu açúcar, que o editor não sabia se tinha -por fim, foi achado num armário.

Fundada em 1889 por estudantes da Universidade de Cambridge, a “Granta” hoje tem, além da edição em inglês (trimestral, tiragem de 50 mil exemplares), versões em cinco países: Espanha, Itália, Bulgária, Brasil e China. Para o ano que vem, serão pelo menos mais três (Noruega, Suécia e Portugal).

Segundo Freeman, a edição brasileira, que acaba de chegar ao volume dez, é a mais bem-sucedida entre as estrangeiras.

A Objetiva/Alfaguara, que publica a revista, diz que a vendagem média é de 2.500 exemplares por volume (a dos “Melhores Jovens” vendeu até agora cerca de 4.300).

Indagado se a ideia de espalhar a marca pelo mundo não seria incompatível com a excelência literária da “Granta”, Freeman diz que não, pelo contrário.

“É algo novo, outras revistas literárias não possuem edições em outras línguas, embora os bons leitores sempre queiram ler livros de outros países. E a internacionalização do mercado editorial tornou isso possível.”

“Para uma revista focada em nova literatura, como a ‘Granta’, é muito importante descobrir novos escritores fora da língua inglesa”, completa.

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