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Publicado originalmente no Valor Econômico

Saramago em Lanzarote: “O heroico de um ser humano é não pertencer a um rebanho”, disse uma vez o escritor, que construiu uma literatura defensora de causas.

Na semana em que a chanceler alemã, Angela Merkel, foi recebida com protesto em sua visita a Portugal para saber como vai o plano de austeridade imposto pela União Europeia e o FMI ao país, e também de uma greve geral convocada pelos principais sindicatos portugueses, há ainda algum espaço para celebrações. Nesta sexta-feira, José Saramago, o único Prêmio Nobel da língua portuguesa, completaria 90 anos. Morto em junho de 2010, o escritor receberá uma série de homenagens não apenas em Portugal, mas também na Espanha, onde morou nos seus últimos anos, e no Brasil. À frente dos festejos está a Fundação José Saramago (FJS), criada em 2007 e hoje presidida por Pilar del Río, companheira do escritor por mais de 20 anos.

“Quanto mais conhecemos José Saramago, quanto mais o lemos, mais ele se incrusta em nós. Saramago morreu há mais de dois anos, mas não morreu, continua vivo e cada vez maior”, disse Pilar ao anunciar a série de atividades em homenagem ao autor de “Ensaio Sobre a Cegueira”. Uma delas é a criação do Dia do Desassossego. Saramago disse, em várias ocasiões, que escrevia para “desassossegar” seus leitores. Nesta sexta-feira, a entidade que cuida de sua obra convoca seus admiradores a sair por Lisboa munidos de livros, de preferência “O Ano da Morte de Ricardo Reis”, e a ler trechos pela cidade – ou simplesmente levá-los a passear para que os leitores identifiquem uns aos outros. É um ato inspirado no Bloomsday, dia em que amantes da literatura de James Joyce percorrem a capital da Irlanda, Dublin, lendo extratos de seu livro mais conhecido, “Ulisses”.

Leituras coletivas, encenações teatrais, exposições fotográficas e concertos serão realizados nesta sexta em Lisboa, Mafra, Azinhaga (terra natal do escritor) e no Porto para recordar o autor “Memorial do Convento”. Em São Paulo, no Teatro Eva Herz, serão exibidas cinco horas de imagens inéditas do documentário “José e Pilar” (2010), dirigido pelo realizador português Miguel Gonçalves Mendes. Em ambos os países os livros de Saramago serão vendidos com desconto neste fim de semana. A festividade também se estende ao mundo virtual. Via Twitter, amigos e admiradores do Nobel português prepararam uma “invasão” de tuítes com suas frases e pensamentos.

“Hoje em dia há demasiada tristeza em Portugal. Se a função da obra de Saramago é, por um lado, desassossegar, por outro lado é levar um sorriso a quem lê”, diz a espanhola naturalizada portuguesa Pilar del Río, de 62 anos.

As homenagens pretendem celebrar a obra de um dos maiores romancistas da língua de Camões, mas não só isso. Uma vertente talvez menos conhecida, a do Saramago “político”, vem ganhando importância nos últimos anos por causa da extrema crise e falta de esperança que atravessam a Europa. “Acho que, cada vez mais, esse lado crítico de Saramago, os textos e ensaios políticos e as colunas opinativas publicadas nos jornais ganharão relevância. Fico curioso para saber como isso será absorvido”, afirma Sérgio Machado Letria, de 36 anos, diretor da FJS.

O romancista foi uma “cabeça lúcida”, alguém muito atento às contradições do mundo e capaz de antecipar as fissuras que hoje já são impossíveis de ser escondidas, na visão do escritor e museólogo Fernando Gómez Aguilera, de 50, autor do livro “Saramago nas Suas Palavras”. “O que hoje está acontecendo no seio da União Europeia foi antecipado em artigos e intervenções públicas ainda nos anos 80, quando Portugal estava imerso no processo de integração europeia. Em seu discurso contra a Comunidade Econômica Europeia, que estava sendo construída, assinalou o poder hierárquico da Alemanha e França frente aos subordinados do Sul.”

Uma vertente talvez menos conhecida do autor, a do “político”, vem ganhando importância em razão da enorme crise por que passa a Europa

É justamente do que hoje se queixam, nas ruas, cidadãos gregos, italianos, espanhóis e portugueses. Não é raro que frases do Prêmio Nobel de 1998 sejam exibidas em cartazes, ou citadas em discursos, durante os recentes protestos no continente. De acordo com Aguilera, a existência de uma Europa dos “mercadores”, a falta de diálogo e de “vínculos políticos reais” foram alguns dos problemas sobre os quais Saramago, em um momento em que a União Europeia era só otimismo, já havia advertido. Para o crítico espanhol, o autor de “Ensaio Sobre a Lucidez” era um intelectual clássico, alguém disposto a colocar o dedo na ferida e provocar debates. “Ele foi um escritor que intervinha na realidade, que tinha suas ideias e não as guardava. Era capaz de agitar, de fazer as ideias circularem. Sempre optou por incomodar o poder, formular perguntas impertinentes, causar mal-estar, e essa é a função de um intelectual.”

Em 2003, em discurso que fez em Madri contrário à guerra no Iraque, Saramago disse que a sociedade civil tinha de ser a mosca que incomoda o poder. Ele mesmo desempenhou ao longo da vida esse papel de impertinente. “Saramago não receou descer à arena e sujar as mãos, tomando posição pública, como o fizeram os grandes intelectuais portugueses”, diz o crítico literário e escritor Miguel Real, de 59 anos. Para ele, o Nobel português era uma espécie de comunista da ordem “do coração e do sentimento”, um homem que manifestou seu desejo de aniquilação da pobreza, da desigualdade e das injustiças em cada página de seus livros. Seu comunismo “hormonal”, como ele próprio denominava, não o impediu de dirigir reiteradas críticas à esquerda.

Uma delas, também em 2003, foi feita na carta aberta em que declarava: “De agora em diante Cuba segue seu caminho, eu fico”. Era uma crítica ao regime de Fidel Castro por ter executado três dissidentes. “Cuba não ganhou nenhuma heroica batalha fuzilando esses três homens, mas, isso sim, perdeu minha confiança, estragou minha esperança e ilusão”, sentenciou o escritor, que disse certa vez: “O heroico de um ser humano é não pertencer a um rebanho”.

Antes de tudo, Saramago era alguém que defendia os direitos humanos, aponta Pilar. “Ele tinha verdadeiro pânico de pessoas de um só livro, fosse esse livro ‘O Capital’, a ‘Bíblia’, o ‘Corão’ ou qual você quiser. E era assim porque normalmente quem tem um só livro nem o lê, mas sim o usa para agredir os demais.”

Zeferino Coelho, publisher da Caminho, editora que publica Saramago em Portugal, defende que essa vertente política do escritor permeia toda a sua produção. “A obra de José Saramago, toda ela e não apenas os textos propriamente políticos, é profundamente política. Ele tinha não só uma preocupação permanente sobre tudo o que se passava no mundo como tinha uma representação desse mundo e uma vontade de agir sobre ele.” Coelho pondera que esse engajamento não fazia dos romances de Saramago algo panfletário.

Para Miguel Real, a principal característica da obra de Saramago é seu caráter ensaístico. “Ele disse isso várias vezes, que escrevia romances porque não sabia escrever ensaios. Foi autor de uma literatura de ideias, isto é, uma literatura que, iluminando os grandes temas do presente à luz de um novo horizonte e de novas interpretações, nasce tanto para interrogar e duvidar quanto para esclarecer e afirmar.” O crítico português avalia que o reconhecimento mundial e a atribuição do Nobel a Saramago se devem a três fatores: escrevia para um “leitor universal”, que poderia ser erudito ou popular; criou um novo estilo na língua portuguesa; e construiu uma literatura “empenhada”, defensora de causas e “denunciadora de situações políticas opressivas”. Ao anunciar o vencedor do Nobel de 1998, a Academia Sueca destacou: “Mediante parábolas sustentadas com imaginação, compaixão e ironia, [Saramago] nos permite continuamente captar uma realidade fugitiva”.

Exposição sobre o escritor na fundação que leva seu nome: em discurso que fez em Madri, Saramago afirmou que a sociedade civil tinha de ser a mosca que incomoda o poder.

Gómez Aguilera aponta a “força da linguagem” e a “capacidade para integrar imaginação e consciência na ficção” como as principais marcas literárias do romancista. “Merece também ser destacada a energia poética e moral de suas fabulações, seu poder de emoção e representação, e seu compromisso com a realidade em que vivia, sem trair a autonomia da literatura”, completa.

Em sua extensa obra, Saramago questionou o poder, a história, a verdade, a justiça e também a Igreja Católica. E foi em razão de seu ateísmo confesso e de sua abordagem sobre temas religiosos que o escritor acabou por ir morar na Espanha. Em 1993, depois de seu romance “O Evangelho Segundo Jesus Cristo” ser impedido de representar Portugal em um concurso literário, Saramago mudou-se para Lanzarote, nas Ilhas Canárias, Espanha. Mantinha uma casa em Lisboa, mas seu descontentamento com o episódio da censura era evidente e declarado. O escritor morreu em 18 de junho de 2010, em Lanzarote, e exatamente um ano depois suas cinzas foram depositadas em frente da Casa dos Bicos, onde funciona a fundação que administra seu legado.

Para muitos foi a reconciliação após o exílio voluntário do autor. “Não houve reconciliação porque não houve briga. Ele nunca esteve brigado com o país. Sua questão foi com algumas pessoas que estavam no poder naquela época. O próprio Saramago deixou isso claro”, pondera Sérgio Letria. “Saramago é muito adorado aqui, é uma figura imprescindível para o país”, completa o diretor da FJS.

Se é que houve alguma rusga entre Portugal e Saramago, ela ficou no passado. Hoje o Nobel português é leitura obrigatória nos colégios, e mesmo quem não é fã de sua narrativa acaba por reconhecer seu valor como pessoa. É o caso da advogada Ana Lúcia Gonçalves, de 31 anos: “Nunca gostei muito do modo como ele escrevia. Mas um dia ele foi à minha aldeia. Havia pagado do próprio bolso a restauração de um órgão de tubo antiquíssimo que havia no convento. Mesmo fraquinho, fez questão de estar no dia em que iam reinaugurar o instrumento. Então alguém perguntou o porquê daquele gesto, se ele era ateu. Ele respondeu que fazia aquilo pelo homem que havia construído o órgão, pela beleza da obra humana que deveria ser preservada. Achei maravilhoso isso e passei a admirá-lo”.

No Brasil, Saramago acumulou leitores – já vendeu mais de 1,5 milhão de livros no país – e amigos, entre eles figuras como Chico Buarque, Sebastião Salgado e Jorge Amado. A proximidade com o escritor baiano, que neste ano completaria 100 anos, foi motivo de uma exposição temporária na Fundação José Saramago. “Os brasileiros que nos visitam ficaram emocionados ao ver tantas fotos de Jorge e José”, comenta Pilar, que brinca que é o Brasil que sustenta a FJS (a maioria de seus visitantes estrangeiros é brasileira). Em uma das tantas visitas do casal ao país, ela registrou assim o deslumbramento com Salvador e a maneira como foram recebidos: “Até José, pouco dado a reuniões grandes, que em situações como estas mais parece um cão perdido, esteve à vontade, descontraído, deixando correr o tempo, sem experimentar a terrível sensação de perda irreparável que tantas vezes, em ocasiões assim, se apodera dele. (…) Custa-nos deixar a Bahia.”

No primeiro andar da Casa dos Bicos, prédio quinhentista que hoje abriga a Fundação José Saramago, no centro de Lisboa, há uma exposição permanente com documentos, fotos e vídeos que contam a vida do escritor. Há imagens raras da infância de José em Azinhaga com o avô Jerônimo, homem que no discurso de recepção do Nobel foi homenageado com as seguintes palavras: “O homem mais sábio que conheci em toda a minha vida não sabia ler nem escrever”.

Ao fim do percurso e após ver algumas preciosidades, como a primeira máquina de escrever do romancista ou a agenda na qual, equivocadamente, marcou o nome da jornalista que iria conhecer dias depois (“Pilar de los Ríos”) e seria, como mais tarde escreveu, “o seu pilar”, o visitante depara com um painel enorme de uma instantânea feita pela fotógrafa Helena Gonçalves, em 2007. Vestido de negro e com o semblante desafiador, Saramago traz atado ao corpo um cinturão, como o de um suicida, mas no lugar de bombas o que carrega são livros. Feliz representação de um escritor capaz de fazer verossímil uma cegueira branca e coletiva de todo um país ou o descolamento da Península Ibérica do restante da Europa transformando-a numa jangada de pedra. Usou as palavras como armas e morreu sendo a mosca que incomodava.

 


Uma visão íntima de sua vida pública

Pilar na fundação que dirige, na Casa dos Bicos, em Lisboa: segundo ela, o escritor afirmava que “não deveria ser feita uma Europa dos mercadores, mas uma Europa da cultura”

Na mesa de trabalho de Pilar del Río, ao lado de um par de rosas brancas e alguns porta-retratos, descansa “O Ano da Morte de Ricardo Reis”, livro que fez que ela, em 1986, conhecesse José Saramago. A jornalista espanhola foi leitora, admiradora, logo amiga e por fim companheira, por mais de 20 anos, do escritor português. Hoje preside a fundação que trabalha para – mas não só, como gosta de frisar – manter viva a memória do autor de obras potentes como “Levantado do Chão” e “História do Cerco de Lisboa”.
Em meio aos preparativos para as celebrações dos 90 anos de Saramago, Pilar encontra um espaço na agenda para conversar com o Valor em seu escritório, na Casa dos Bicos, sede da Fundação José Saramago. Pede um minuto para responder a um e-mail urgente e quando fecha o computador busca em um armário uma foto que, dois dias antes, fora salva de uma enchente. Por causa de um temporal e de uma obra no prédio vizinho, a casa de Pilar inundou. E ela, de madrugada, se viu arrastando móveis e enxugando fotos.

Conseguiu salvar esse retrato em branco e preto de um casal abraçado diante de um monumento.

“É a primeira foto minha e do José juntos. Foi tirada em Lisboa. O mais incrível é que, passados quase 30 anos, tenho a mesma saia. É esta com que estou vestida.” É uma veste longa, negra, da mesma cor das meias e dos sapatos, e fazem bom contraste com a blusa cinza brilhante que usa. A delicadeza do traje e do físico contrasta com a firmeza das palavras e dos gestos. “Nós não vamos nos suicidar”, diz, como quem desafia alguém, ao falar sobre a crise na Europa.

Ao fim da entrevista escolhe outro retrato para mostrar: um José Saramago despojado aparece deitado na grama, em um piquenique. Além do escritor, do militante político, do comunista convicto, havia também a versão marido com quem desfrutava de momentos de tranquilidade. “Ele era esse homem também”, diz, segurando uma fotografia, essa em cores, na qual um homem risonho aproveita um dia de sol tendo como paisagem uma montanha. Ele parece contente no instantâneo, e ela, ao mostrá-lo, também.

Valor: José Saramago era muito querido e respeitado, e no documentário “José e Pilar” se nota que havia até certa idolatria em relação a ele. Um pouco improvável para um ateu, comunista…
“Saramago dizia que não era uma crise econômica, mas uma crise moral a que estávamos passando e dela é que nasciam as demais crises”, diz Pilar
Pilar del Río:
Qual é o problema de ser comunista? O comunismo é ultrapassado? Não. Ultrapassado é o capitalismo. O comunismo foi uma tentativa de igualdade que, onde foi implantado, deu errado justamente porque se transformou em outra coisa. Agora, o que, sim, sabemos é que o capitalismo é um sistema pervertido. Saramago foi tão querido porque era um a mais. Eu vi [se levanta da cadeira], quando ele andava na rua, as pessoas darem passo como sinal de admiração. E vi uma grávida fazer isso. “Minha senhora, por favor”, disse o José. E sabe o que a mulher respondeu? “Por favor, passe o senhor, quero poder dizer a meu filho [coloca a mão na barriga] que dei meu lugar a José Saramago.” Era assim. No México, na feira literária, ele teve que ser escoltado porque as pessoas queriam se aproximar e eram muitas, e todas queriam um autógrafo. E ele dizia: “Mas como vou negar uma foto com alguém, quem sou eu para dizer não?” E no fim, quando não havia mais tempo porque iríamos perder o voo, ele passou pelo corredor esticando os braços e tocando a mão das pessoas.

Valor: Saramago alertou, há bastante tempo, sobre os rumos que a União Europeia poderia seguir. Em 1997 disse que não passava de um “império econômico”. Foi muito criticado, mas hoje em dia alguns compartilham dessa opinião.
Pilar:
Saramago dizia que não era uma crise econômica, mas uma crise moral a que estávamos passando e dela é que nasciam as demais crises. Estive em Nova York justamente quando do furacão Sandy [a viagem era para participar de eventos em homenagem a Saramago, que acabaram cancelados]. Não tive medo, mas voltei estarrecida. Para mim, ficou claro que, como descrito em “Ensaio Sobre a Cegueira”, o sistema está construído sobre o ar. Nunca havia visto tão exposta a fragilidade do sistema como vi nesses dias, e por um temporal. Inclusive os mais ricos são frágeis. Saramago tinha dito, mas só agora eu constatei.

Valor: O que diria Saramago dessa Europa que parece não saber como sair do buraco em que se meteu?
Pilar:
O que diria não podemos saber, mas sabemos, sim, o que ele já disse. Está tudo nos “Cadernos de Lanzarote”. Ali estão as respostas: Saramago dizia que não deveria ser feita uma Europa dos mercadores, mas uma Europa da cultura. Há um vídeo que tem sido muito compartilhado na internet em que Saramago diz que a alternativa para o neoliberalismo é a consciência. E repete, no fim da fala, várias vezes a palavra: consciência, consciência, consciência! É isso que falta.

Valor: Como a crise afeta a fundação?
Pilar:
Não afeta. Não deixamos que afete. Não despediremos ninguém, viveremos a crise todos juntos, com contenção, mas todos juntos. Aqui nós não vamos nos suicidar, é o que querem, mas não vamos nos suicidar. As pessoas realmente estão passando muito mal, mas o que me intriga é por que elas não mordem?

Valor: Angela Merkel disse recentemente que será preciso mais cinco anos de sacrifício para sair da crise e pediu um esforço mais. Acha suportável mais cinco anos assim?
Pilar:
Vamos ver, não digo que são corruptos porque não gosto de ofender, mas o que digo é que a senhora Angela Merkel e esses que estão aí não têm a menor ideia do que está acontecendo, não vivem na realidade, vivem em Marte. Não frequentam as ruas, não sabem o que se está passando e perderam totalmente o sentido da moralidade.

Valor: Saramago deixou um livro inacabado, que tratava da indústria armamentista. Esse material será publicado?
Pilar:
Sim, será, mas não sei quando. Não faremos uma operação comercial em cima disso. Estudaremos o momento e o como fazer. Quem tem esse manuscrito sou eu, e será uma decisão muito meditada sua publicação. Não tenho pressa. Ou melhor, tenho pressa, mas, enfim… (RV)

Capítulos de uma nova história

Por Amarílis Lage | De São Paulo

A escritora portuguesa Dulce Maria Cardoso na Festa Literária Internacional de Paraty deste ano: “Acho que cada um escolhe ter voz pública ou não”

Patrícia tinha 12 anos quando passou sua primeira noite em claro. Com uma lanterna sob o cobertor, para escapar à vigilância da mãe, varou a madrugada lendo seu primeiro livro “de adulto”. Era “Memorial do Convento”, de José Saramago, autor que também estaria ao lado de Patrícia quando ela deixou Lisboa para fazer mestrado em cenografia em Utrecht, na Holanda. Dessa vez, levava na bagagem “Ensaio Sobre o Cegueira” – e acreditava reconhecer o local da cena que abre o livro: o semáforo onde um motorista perde a visão devia ficar na Marquês de Pombal, diante do ponto onde ela costumava pegar o ônibus.

Quando decidiu enveredar pela literatura e foi pela primeira vez a uma editora, lá estava Saramago de novo: na parede do escritório, havia a certidão do Nobel que o escritor recebeu. “Saramago ‘construiu’ meu país”, comenta Patrícia Portela, de 38 anos, dramaturga e escritora. “Conviver muito com livros muda a maneira como olhamos para o mundo.”

“É muito difícil ser escritor em Portugal sem ter alguma relação com Saramago, seja uma relação de ódio, seja de amor”, afirma o escritor João Ricardo Pedro, de 39. “A minha é de amor.” Vencedor do Prêmio LeYa com seu livro de estreia, “O Teu Rosto Será o Último”, ele esteve nesta semana no Brasil, com Patrícia e outros três autores, todos da “Coleção Novíssimos”, da LeYa, que reúne vozes em ascensão na literatura portuguesa.

A maneira como a relação com Saramago se manifesta nem sempre é clara. Como lembra Pedro, a produção atual é muito diversa e dialoga com referências que também vêm das artes plásticas, do cinema, das séries de TV… “Ao escrever, é difícil identificar de quais escritores estamos mais perto, e às vezes até os livros de que não gostamos nos influenciam.”

Mas é possível identificar uma herança, afirma Carlos Reis, professor da Universidade de Coimbra e autor de “Diálogos com José Saramago”. Ela inclui, por exemplo, a ideia de que a ficção pode ser uma revisão da história. “É esse o grande impulso que Saramago dá à ficção portuguesa, sobretudo a partir de ‘Memorial do Convento’ [1982]. Ele incorpora muito bem a noção de que o ficcionista tem a legitimidade para recontar ou, como ele dizia, re-clamar a história – chamá-la de volta e reivindicar outra forma de olhar para ela. Isso está nos primeiros romances dele, que fizeram sua notoriedade mundial”, diz Reis, referindo-se a obras como “O Ano da Morte de Ricardo Reis” (1984) e “História do Cerco de Lisboa” (1989).

Esse movimento de reelaboração da história, hoje comum nos livros de jovens autores, também está presente na obra de António Lobo Antunes, de 70, o rival literário de Saramago, destaca Reis. “Saramago estava na linha do que faziam outros escritores – fora de Portugal também – e passa pelo filósofo Georges Duby [1919-1996], que fez a historiografia da vida privada, dos pobres, dos ladrões…”

“A influência de Saramago na literatura portuguesa contemporânea é a influência que qualquer grande autor exerce sobre todos os que o leem”, afirma Ana Paula Arnaut, professora da Universidade de Coimbra. “Partilhando ou não o ponto de vista do escritor, somos conduzidos a reflexões importantes, como a confiabilidade do modo como o passado histórico tem sido transmitido ou a denúncia das violações aos direitos humanos.”

A questão, segundo ela, é não deixar que essa influência se transforme em uma imitação banal. Um bom exemplo, aponta Ana Paula, é o escritor Valter Hugo Mãe, de 41, que consegue manter sua singularidade ao mesmo tempo em que dialoga com a obra do Prêmio Nobel, tanto no conteúdo quanto na forma.

Aliás, como falar de Saramago sem falar de seu estilo? Declarando-se “descendente” do padre Antônio Vieira (1608-1697) e de Almeida Garrett (1799-1854), ele criou “uma nova respiração para a prosa portuguesa”, ajustando a pontuação à lógica da comunicação oral, comenta Carlos Reis.

A escritora Dulce Maria Cardoso, de 47, ficou “abismada” com esse ritmo ao ler Saramago na adolescência. “Estava acostumada à ideia de que em português se escrevia de forma ‘lenta’. Com ele, vi que era possível escrever ‘depressa’. Os outros não tinham isso – na época, ainda não conhecia Lobo Antunes.”

As referências a Lobo Antunes não são por acaso – a nova geração também reconhece o peso que ele exerce. Para alguns, mais ainda que Saramago. “Lobo Antunes é o grande romancista português contemporâneo; é uma opinião de leitor: sempre ganhei algo na compreensão da realidade com os seus romances; foi raramente o caso com Saramago”, diz Pedro Rosa Mendes, de 44, um dos mais renomados autores de sua geração. Uma de suas críticas a Saramago é o viés ideológico de sua obra. “Deixa de ser literatura e passa a ser panfleto.”

O que leva a um terceiro aspecto da relação dos novos escritores com o Nobel: a questão política. Para Reis, mesmo que as intervenções de Saramago possam ser discutíveis, elas reforçaram o papel simbólico de um escritor na sociedade portuguesa – “um lugar que os jovens escritores certamente hão de valorizar”. Será?

“Essa é uma questão tão pessoal. Acho que cada um escolhe ter voz pública ou não”, diz Dulce, para quem a nova geração é relativamente “neutra”. Isso não significa, porém, indiferença à crise pela qual o país passa. “Percebemos que o país está mal e temos que falar sobre isso. Acho que Portugal começou a pensar-se, porque não tem alternativa.”

“A geração anterior falou muito das feridas”, diz Patrícia, referindo-se à guerra colonial e à ditadura. “Os mais novos escrevem sobre a realidade portuguesa enquanto europeus e filhos do mundo. O desânimo não é só em relação a Portugal. É um grande questionamento que se refere a algo mais global.” A meta é lembrar que o mundo é maior que Portugal, sem esquecer sua herança. “Há um movimento brasileiro de que gosto muito, e que a Europa devia fazer mais: o antropofágico. Vamos comer tudo, digerir e cuspir algo novo.”

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