Jennifer González na AFP

GUADALAJARA, México — A literatura brasileira é uma incógnita para a maioria dos leitores de língua espanhola, mas autores brasileiros presentes na Feira Internacional do Livro de Guadalajara (oeste do México) disseram à AFP que estão decididos a romper esse isolamento crônico.

Dezenas de escritores do Brasil foram enviados pelo governo a Guadalajara para o evento editorial mais importante da América Latina. No ano passado, apenas dois ou três escritores brasileiros estavam presentes.

“Vivemos isolados e isso não aconteceu agora, foi assim por tanto tempo que parece que a ideia de que não somos latino-americanos é aceita, mas também não somos africanos, nem europeus; somos uma ilha muito solitária no cenário regional”, comentou Luiz Ruffato.

“Isso tem que mudar, eu quero que mude e meus colegas que estão na feira e os que não vieram desejam o mesmo”, acrescentou o autor de “Mamma, son tanto felice” (Elephas, 2011).

Língua e localização

Para alguns escritores como Marçal Aquino, autor de “Receberia as piores notícias de seus lindos lábios” (2005), e Cíntia Moscovich, que escreveu “O reino das cebolas” (1996), o idioma foi a principal barreira para a difusão no espanhol da literatura brasileira.

“Estamos cercados por países que falam espanhol. Outro problema é a localização afastada de nosso país do centro do continente”, disse Aquino.

Clichês e modas

Paula Parisot, Moscovich e Ruffato publicaram livros em espanhol, mas os três reconhecem que não foi um caminho fácil.

Um dos primeiros problemas é que “os editores (de outras regiões) querem literatura com cor local; que tenha sexo, carnaval, praia, coisas exóticas, mas nossa literatura não pode estar presa a isso porque somos um país cosmopolita”, disse Moscovich.

Outro obstáculo são as “modas literárias”, acrescenta Aquino. “Agora parece que a Ásia é a região favorita dos grupos editoriais e por consequência, dos leitores”, mas esse é um problema que pode ser superado, diz.

Nobel perdido

O desconhecimento de escritores brasileiros fez com que grandes autores como Clarice Lispector, ficassem conhecidos depois de mortos, comenta Iona N. Pieleanu, diretora editorial do selo mexicano Elephas, que têm contratos com dois escritores nacionais.

“Eu acredito que Lispector (autora, por exemplo, de ‘Aprendizagem’ ou ‘O livro dos prazeres’, de 1969, publicado em espanhol em 1994 pela Siruela) merecia o Prêmio Nobel, mas o mundo não a conheceu enquanto ela vivia e atualmente há muitos escritores desse país incrivelmente bons”, disse Pielenau.

Encontrar tradutores do português para o espanhol para Elephas, uma editora independente e nova, foi difícil.

Selma Ancira, prêmio de tradução Tomas Segovia, instaurado este ano na feira, explica que “o problema da tradução de outras línguas está na complexidade do espanhol, e com línguas irmãs, como o português, o risco de cometer erros é maior porque podem confundir palavras que soam iguais, mas que têm significados totalmente diferentes”.

Jorge Castellano, diretor geral de Elephas, disse que depois de uma árdua busca “encontramos um grupo de tradutores do português ao espanhol excelentes, apoiados pela embaixada de Brasil, formados na Universidade Nacional Autônoma do México, assim, estamos prontos para conhecer mais autores brasileiros que mostraram um interesse crescente por sair de seu país”.

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